Jarvis Cocker – Further Complications

05.06.2009 — Música, Resenhas

Jarvis Cocker
Further Complications
(Rough Trade; 2009)

Vou tentar ser o mais direto possível neste primeiro parágrafo. Com a produção de Steve Albini, Jarvis Cocker viu suas canções em Further Complications, seu segundo disco solo; ganharem um peso rock surpreendentemente bom e rejuvenescedor, ao mesmo tempo que viu seu vocal desaparecer entre os instrumentos. Para poder destacar sua voz nas canções mais pesadas, Jarvis teve que gritar. E ele grita; bem até. Porém, quando ele canta, trabalha seu sussurro e sobe um tom, fala e engrossa a voz é quando Further Complications alcança níveis mais altos. A parte rock é, sim, muito boa, mas, indiscutivelmente, são as canções calmas que fazem Jarvis subir um degrau em sua carreira solo. Com guitarras de timbres lindos, com as famosas baterias de som perfeito e letras marcantes, Jarvis me emocionou novamente com as seguintes canções:

"Leftovers", a quarta, traz um Jarvis direto ao ponto, que canta repetidamente: "Eu quero ser o seu amante". Não tem o que não entender. O ponto transformador e que me pega pelos culhões é o bridge. Sempre ele, quando se trata dos grandes clássicos de Jarvis:

"This is my C.V and I’ve got no one else to blame
So I will state, state my case. I will state it again

Come and help yourself to leftovers
got a little surplus love and affection
I’m getting cuddly, so won’t you cuddle me?
I could be your teddy bear
".

Depois ainda ele se justifica pela repetição final. Mas foi avisado, ele iria reforçar seu desejo. Aqui, eu lembro como é bom ouvir uma canção que faz sentido do início ao fim, musica e liricamente. Primeira lágrima caída.

"I Never Said I Was Deep" vem na sequência e mostra um personagem tão direto quando o anterior, mas com um sutil toque de desprezo. Porque ser direto é falar que quer ser o amante e ponto final, o toque de desprezo acontece quando você tira seu corpo fora e fala que "eu nunca falei que era profundo, nunca falei que queria um relacionamento". Se vira. Segunda lágrima caída, essa compartilhada.

"Hold Still" é guiada pelo baixo e caminha extremamente calma com Jarvis cantando em falseto e explode de leve no refrão com palmas, backing vocals e Jarvis segurando seu canto fino. "Hold Still" é uma fotografia de uma cena apaixonante. "‘Hold still’ I told you but you moved". Talvez seja essa a duração do amor em Further Complications. Uma fotografia. Terceira lágrima, essa mais do que compartilhlada.

Mentira. Dura um pouco mais que uma foto, dura o tempo que a neve leva para sumir da rua em "Slush". "My heart melted at your touch / turned into slush". Imagino um slush azul fosforescente derretendo no meio da calçada, sujando a neve. Novamente Jarvis tenta congelar o amor ("and if I could I would refrigerate this moment / I would preserve it for all time"). Mas já era. Quarta lágrima derrubada, essa gelada.

Pois prepare-se para verter todas as lágrimas que segurou até aqui. Não porque "You’re In My Eyes (Discosong)" é a mais Pulp do disco. Por isso também. Mas também porque sua história, assim como o clima disco, faz Jarvis voltar no tempo e relembrar uma amada de anos atrás. Um sample de uma canção disco toca no rádio e dá um ar romântico de um Jens Lekman à canção. Jarvis enquanto isso declama longas frases ao estilo Pulp e quase cai no chão de desespero. São nove minutos apoteóticos que começa com Jarvis Cocker escutando rádio de madrugada e termina confuso e barulhento, como se todo o desespero jorrado não fizesse diferença nenhuma. Não faz. O rádio continua e, sim, ela foi embora. Ele a "perdeu". Porém, no final, o amor durou mais até que o descongelar da neve. Ainda dura, eu chutaria.

Permeados entre essas faixas estão o sexo, a classe média, os personagens marcantes e um certo nervosismo. Further Complications não é genial como lançamentos passados de Jarvis Cocker, mas ele dá sinais de que está pegando o jeito de sua carreira solo; da esperanças de um novo clássico que está por vir. Acredito nesse quarentão excêntrico.

Denis Fujito

Nota:

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