South By Southwest – Parte III

19.06.2009 — Matérias, Música

Day 3 – Spring Here Kids

Apreciar o tradicional café da manhã americano – com direito a bacon, ovos e batata – revela muito sobre a personalidade de alguém. Não é todo mundo que aguenta o tranco. Eu me orgulho de sempre ter vencido esta batalha, mesmo que com dificuldades. O prazer inicial aos poucos vai dando espaço para o arrependimento e antes do almoço você já considera aquilo uma violência ao seu organismo. Transfira esses sentimentos para a música e pense no que seria um show do HEALTH, achado por acaso em alguma esquina de Austin, por volta do meio dia. Contextualizando: HEALTH é uma das bandas mais dementes da atualidade e só poderia ter saído de LA, onde é um dos principais nomes da cena noise. Ficaram conhecidos pelo disco HEALTH/DISCO, mais precisamente pelo remix de “Crimewave”, do Crystal Castles, e por camisetas coloridas que muita gente comprou achando que a banda era amável. E eles não são. Nem um pouco. Para começar, três integrantes começam o show no chão, sendo que o outro membro é o baterista, um hippie que parece um touro fora de si. O barulho é tamanho que a cada música algumas pessoas vão para o fundo e assistem de longe um japonês cabeludo tocar baixo em transe, muito mais preocupado com os pedais do que com o baixo. Outro integrante toca apenas bumbo. Cada ruído está minuciosamente colocado no lugar certo e as ambientações, guiadas por percussão e distorção, são tão perfeitas que você se esquece que seus tímpanos estão prestes a sangrar. Sem dúvida um dos melhores shows do SXSW.

O próximo destino era o Emo’s, uma das casas mais tradicionais da cidade, onde rolaria a festa da Pictchfork/Windish Bash, com um monte de coisa boa. A escalação da festa contemplava algumas bandas queridinhas da Pitchfork. Além disso, Woods e Dirty Projectors, dois novaiorquinos escalados, já pintavam como fortes candidatos a “Best New Music”, antes mesmo de lançarem o disco, o que nos leva àquela mesma discussão do poder legitimador do veículo. A primeira atração foi o Mae Shi, que fez mais de dez shows e, dos seis que eu vi, não decepcionou em nenhum. Na sequência veio o Woods, banda que eu admiro muito, com seu folk elétrico despretensioso. Apesar de estar baseado em NY, o grupo traz ares caipiras e setentistas, ao mesmo tempo em que abusa de efeitos barulhentos, responsabilidade de um integrante que fica no chão controlando sua parafernália de pedais. A voz, quase que em falsete, do vocalista Jeremy Earl é a definição perfeita para o experimentalismo hippie, e apesar do público não ter se envolvido, os trinta minutos do Woods foram de extrema alegria para mim.

O Wavves (foto acima), sensação da Pitchfork, se revelou uma dupla duas crianças, uma com cara de nenê e outra com uma camisa de treino do Vasco da Gama. A guitarra ao vivo consegue o que parece impossível: ser mais suja e alta do que a do disco. Acabei ficando muito perto do amplificador e só ouvia a guitarra, o que me deixou surdo. O hit “So Bored” é uma das grandes músicas de 2009, mas o restante acaba ficando entediante à medida que o lo-fi adolescente se perde e cai no previsível, mesmo com a dupla segurando a onda até o fim.

No outro palco do Emo’s tava rolando Diplo com A-Trak e na sequência tinha Dirty Projectors, mas tinha tanta gente lá que eles fecharam a passagem de um palco para outro e para chegar do outro lado tinha que sair e pegar fila. Achei melhor ficar onde estava para garantir presença no Department Of Eagles, que como eu expliquei na primeira parte, era um dos tops da minha lista. Infelizmente tive que assistir ao show do King Kahn, que foi uma das piores coisas do festival. O que se via no palco era uma bagunça de pessoas fantasiadas de indianos, ou árabes, tocando uma espécie de funk com uma pegada punk rock. Finalmente consegui ver o Department Of Eagles (foto abaixo). Ao contrário do aconteceria na igreja, onde eu acabei não conseguindo vê-los no primeiro dia, a orquestração e as texturas barrocas do disco não tiveram um bom efeito num lugar grande, lotado e quente, além do som ruim, o que é raro no SXSW. Valeu para ver o Daniel Rossen, um dos meus compositores favoritos da atualidade.


Department Of Eagles

A posterior parada no hotel não serviu para nada, a não ser para ficar mais bêbado, pois lá eles serviam um drink para cada hóspede numa daquelas happy hours coletivas. Desta vez, a happy hour tinha a difícil tarefa de fazer com que pessoas ligadas ao festival interagissem com famílias que tiveram a ótima idéia de visitar a capital do Texas naquela semana. De volta ao centro de Austin, muitos planos e poucas certezas. A noite seria longa, com shows do Grizzly Bear, Dinosaur Jr. E, mais tarde, Caipirinha’s Party, onde prestigiaria meus amigos do Holger. Tudo começou desastrosamente. Além das duas bandas que eu citei, Peter Bjorn and John e Beach House também estavam escalados para a festa em que iriam tocar Grizzly Bear e Dinosaur Jr., o que causou uma grande muvuca na porta do lugar, que já estava lotado. A confusão só foi resolvida com a chegada da polícia, que mandou todo mundo para casa. Triste começo de noite e dois dos mais importantes shows da minha listinha iam por água abaixo. Importante dizer que a demanda para ver o Grizzly Bear – e consequentemente o Department Of Eagles – os coloca como umas das grandes bandas de hoje, ainda mais depois do lançamento do segundo disco com esta formação, Veckatimest. Mas enfim, perdi o show e fiquei puto. Porém os deuses texanos sempre tiram uma carta da manga quando você menos espera.

Todo mundo tem um indie hero preferido e não é por que o Facebook inventou esse teste. Você pode fugir dessa questão, mas no fundo todos têm um espaço maior no coração para um Wayne Coyne, Thurston Moore, Stephen Malkmus, Jeff Tweedy, J Mascis e por aí vai. O meu sempre foi o Jason Lytle, do Grandaddy, que apesar de historicamente não ser tão reconhecido como deveria, me ensinou tudo que eu sei sobre a vida. Exageros à parte, ele tinha seu showcase oficial marcado para aquela noite, na Central Presbyterian Church. Desprovido de esperanças e na expectativa de mais um show lotado, cruzei a cidade rumo à igreja. Felizmente poucos tiveram a mesma idéia que eu e acabei conseguindo um lugar próximo ao altar. Desta vez quem rezaria a missa seria a lenda Jason Lytle, responsável por três (quase quatro) obras-primas e que se preparava para lançar seu primeiro disco solo, Yours Truly, The Commuter. Em 2001, quando ele veio para o Free Jazz, acabei perdendo (ou deixei de ir por ser jovem demais). Difícil conter a emoção quando se está de frente para aquele caipira de boné, provavelmente guardando as chaves de sua caminhonete no bolso, já que havia dirigido de Montana até Austin. De cara ele já avisou que faria um show breve, pois já havia passado de seu horário de dormir. O setlist priorizou canções novas, que trazem o lado mais espiritual, quase gospel, de Jason, mas teve espaço para alguns clássicos como “Jed, The Humanoid” e “Stray Dog and The Chocolate Shake”, que arrancaram lágrimas de moleques que vestiam a camiseta do Grandaddy. Talvez este tenha sido o grande momento da viagem.

Da igreja fui direto para a Caipirinha’s Party, com a sensação de noite ganha. A festa era fechada, mas tinha uma lista de convidados no estilo lista telefônica, o que atrasou a entrada das pessoas, entre elas celebridades do circuito, como integrantes do Black Lips, Trail of Dead e Garotas Suecas. Depois de uma apresentação surpreendente do Pterodactyl, chegou a vez do Holger mostrar toda a sua delinquência juvenil e a presença de palco que eu estou acostumado a ver. A diferença era o olhar deslumbrado de cinco rapazes que viam o mundo pela frente e, diferente de praticamente todas as outras bandas brasileiras, não estavam (apenas) babando por um olheiro de selo, mas também se divertindo e vendo shows.

Em determinado momento um integrante que tocava no meio do público foi enforcado com um cabo pelo guitarrista do Mae Shi. Acabei me envolvendo nesse clima de juventude desenfreada e aproveitei que o mesmo integrante enforcado estava deitado para jogar minha bebida dentro da boca dele, que acabou engasgando e depois vomitou sangue.


Nosso querido amigo Dago (o de preto, barbado) se diverte ao som de Max Tundra

A essa altura do campeonato, o crew do bar tinha proibido de me servirem porque fui acusado de não retribuir o serviço com gorjeta. O que aconteceu foi que eu não tinha troco, mas eles não quiseram nem saber. Quase que uma tradição southbysouthwestiana, Max Tundra fechou a noite com seus gracejos. Chegando no hotel, um belo café da manhã me esperava, com direito a ovos, bacon e batata, enquanto o HEALTH ainda zumbia no meu ouvido.

– Enrico Vacaro

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