Mount Eerie – Wind’s Poem

15.07.2009 — Música, Resenhas

Mount Eerie

Wind's Poem

(P.W. Elverum & Sun; 2009)


Na minha singela opinião, o verdadeiro artista vai a lugares onde nunca imaginamos chegar. De lá ele volta com um punhado de areia e pede para abrirmos nossas mãos enquanto ele despeja seu conteúdo. Quase tudo escorre por nossos dedos. O que fica é a sensação de termos sentido algo dessa sua experiência através das palavras, sons e imagens que nos trouxe. Ele vivenciou algumas das sensações mais intensas que alguém podia; tudo nos parece inalcançável, insuportável. Só nos parece, pois sofremos e vivenciamos igualmente, muitas vezes, só nos esquecemos de pegar nosso punhado de areia ou de despejar, ou os dois.

Phil Elverum é um dos meus (verdadeiros) artistas favoritos.

Wind’s Poem, seu novo trabalho sob o nome de Mount Eerie, é o resultado de sua experiência em escutar o vento por noites seguidas em sua casa no meio da floresta. Essa seria uma idéia bastante besta na cabeça da grande maioria da população humana, mas não na de Phil. Wind’s Poem é um disco intenso, de fortes sensações, de altos e baixos, obscuro, solitário, pesado e eu já falei intenso? Este é o melhor disco que Phil lançou desde o hoje clássico The Glow Pt. 2.

“Wind’s Dark Poem” inicia o álbum e nos mostra a intensidade a que estaremos expostos a partir de agora. Em uma noite bastante conturbada, o vento pode ser impiedoso. Você está esperando o peso com o ritmo de Black Wooden Ceiling Opening (2008)? Pense de novo. O vento é o personagem principal e o ritmo não é de seu interesse. Ritmo é uma preocupação humana.

“Through The Trees”, na sequência, aparece com mais de 11 minutos de meditação com o som constante e suave do vento passando pelas árvores. Belíssima música que acalma. “My Heart Is Not At Peace” continua a sonorização mais tranquila, onde tranquila aqui significa sem guitarras distorcidas e bumbos pesados. Peso que “The Hidden Stone”, grudada a seguir, retoma e devasta com qualquer resquício de fragilidade sonora, quase que estourando os meus fones de ouvido e reverberando cada nota.

“Wind Speaks”, “Summons” e “The Mouth of Sky” alternam os climas e fecham a primeira parte do álbum. Na primeira, a fraca voz de Phil vem mais destacada enquanto ao fundo algum animal parece cantar e a floresta responder em tom grave. Em ambas as hipóteses, o vento continua sendo o personagem principal. Em “Summons”, Phil e Nick Krgovich (No Kids), seu único companheiro em Wind’s Poem, trabalham na resposta da natureza aos pedidos que Phil faz para o vento conversar com ele. E “The Mouth of Sky” fecha a primeira parte com muito peso e distorção nas guitarras e pratos de baterias batidos por um gorila em fúria.

Vagarosamente, “The Mouth of Sky” termina e com ela a parte mais intensa, furiosa e intrigante do disco. “Between Two Mysteries” é a primeira a trazer ritmo ao álbum; um vibrafone dita o ritmo, a bateria aparece em segundo plano e o vocal permeia a faixa. “Ancient Questions”, a seguir, se mostra uma das faixas mais lindas que já escutei do Mount Eerie. A noite parece tão calma para Phil que ele quase some entre os teclados constantes, a bateria flutua como névoa de tão leve e tudo começa e termina tranquilamente.

“(something)” conversa com The Glow Pt. 2 e faz uma breve pausa para “Lost Wisdom Pt. 2” retomar o peso e também conversar com outro disco de Elverum, Lost Wisdom (2008). Apesar dos vários elogios recebidos, acho Lost Wisdom inacabado. As belas melodias surgem com a voz triste de Julie Doiron e com os arranjos certeiros de Fred Squire, mas somem sem deixar rastros. “Lost Wisdom Pt. 2”, porém, ressurge com o clima de Wind’s Poem. Intensa, melhor trabalhada e, sim, finalizada. “Stone’s Ode” fecha a segunda parte e o disco com a sensação de conforto. Com os instrumentos mais amenizados e a presença de backing vocals, ele parece ter alcançado uma paz interior. Há um segundo de silêncio no meio da canção que pode resumir o turbilhão que Phil pode ter passado nessas noites na floresta de vento persistente. Quando esse um segundo aparece, quando ele é alcançado, o disco caminha para o seu final com Phil recolhendo sua caneca e entrando em sua casa.

Wind’s Poem não é um disco fácil pois Phil Elverum supera os adjetivos que lhe atribuem de forma soberba e nos deixa sem referência. Ele não soa lo-fi, suas gravações estão excelentes; muito menos folk, não lembro de escutar nenhum violão; e nem metal, não além de eventuais guitarras e bumbos. As 12 canções do disco surgem de sensações e pequenos devaneios que ele transmite com sucesso por suas palavras, sons e imagens. Eu só posso esperar que você esteja preparado para alguns baques, porque Phil está impiedoso como o vento, não tem punhado de areia na sua mão, nunca houve com ele. Há um tornado jogado na sua cara. Um dos mais bonitos, bem tocados e eu já disse intenso? que Phil já nos presenteou.

Nota
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9.0