Lord Cut-Glass – Lord Cut-Glass

05.08.2009 — Música, Resenhas

Lord Cut-Glass
Lord Cut-Glass
(Chemikal Underground; 2009)

Alun Woodward é um cara inconformado. Sempre sinto isso quando escuto aos discos do Delgados. Penso nisso também quando relembro que ele é um dos fundadores da Chemikal Underground, logo um dos responsáveis por lançar os discos do Mogwai e do Arab Strap, por exemplo. Lord Cut-Glass, seu novo projeto e disco, carimba Alun como um dos maiores inconformados da música atual e, talvez por isso, um dos "cantores alternativos" mais ignorados que veio dos anos 90.

Suas letras ácidas, anti-cristãs e cínicas continuam em Lord Cut-Glass, como era de se esperar. Mas para quem torcia por uma continuação musical do Delgados, sinto muito. Lord Cut-Glass vem todo orquestrado mas uma orquestração que difere da feita em The Great Eastern (2000). As quebras de ritmo são mais intensas, ele larga qualquer resquício de indie pop e dos anos 90 e abraça o folk britânico, música de taberna, de grandes cantorias e fanfarras. Mistura violinos, glockenspiel, sanfonas e toca seu violão como se qualquer outro folk não estivesse em voga hoje.

“Even Jesus Couldn’t Love You” abre o autointitulado disco mostrando que o folk escocês traz melodias que o americano é incapaz de fazer, ele quebra ritmos e é teatral; na parte lenta relembra os belos momentos de Delgados e nas agitadas chama a banda toda para uma fanfarra. “Look After Your Wife”, o primeiro single, vem na sequência mais pop mas não menos intrigante. Alun diz para você cuidar de sua esposa enquanto faz uma corridinha musical em sua volta, com cabeças voadoras de lordes britânicos cantando "popopo" ao seu redor e te aconselha sem perder o humor.

Sem sabermos de onde vem o bonito violão, ele revela em "Holy Fuck" que "I’d love you to love me", mas acredita que "you and me will never be". Por quê? "I’m not wild/ you’re not clean". Uma voz feminina, que não é Emma Pollock (chuif), entra e complementa o dueto amoroso. A tuba no final mostra musicalmente a leveza que Alun desfilou cantando.

"I’m a Great Example To The Dog" é curta e excepcional. "Monster Face" mais obscura e vem com linhas mais pesadas de metais ao fundo. "You Know" continua tensa com a cavalaria invadindo alguma cidade medieval. "Be Careful What You Wish For" é a que mais lembra o velho grupo com seu piano solitário. Alun descansa seu chapéu de três pontas e a orquestração entra como quem não quer nada e toma conta da canção, que não dura nem 2 minutos. "Picasso" é uma tarde tranquila na beira do lago, um mergulho de ceroulas. "A Pulse" é a última balada do disco, uma canção de ninar feita de imagens que Alun solta com seu forte sotaque escocês. "Big Time Teddy" é maravilhosa em sua esquizofrenia, quase infantil o Teddy Bear, mas nada besta. E "Toot Toot" fecha o álbum como ele deveria: com violinos formando a imagem de algum castelo que dorme na nossa memória, quebrando em um baile, um grande salão onde os personagens não dançam, se observam. Anticlímax total, bem na última faixa. Não estou surpreso.

Alun Woodward, The Delgados, Chemikal Underground, Lord Cut-Glass. A história que não é contada está sempre pronta para ser narrada, Alun sabe muito bem disso por isso trabalha em diversas áreas para que sua voz (e outras em que acredita) seja ouvida. Obviamente não é fácil, ele não conta com a ajuda dos engomadinhos, ele veste seu uniforme medieval e briga. Por ser um inconformado ele tem que trabalhar em dobro e, sim, independentemente. A guerra é velha, mas não muda nunca. Lord Cut-Glass é mais uma de suas vitoriosas brigas.

Denis Fujito

Nota:

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