Camera Obscura – My Maudlin Career

06.10.2009 — Música, Resenhas

Camera Obscura
My Maudlin Career
(4AD; 2009)

Tracyanne Campbell consegue produzir naturalmente músicas convincentes e sinceras sobre amor e suas consequências, boas e ruins. My Maudlin Career, novo disco de seu grupo, o Camera Obscura, é mais uma singela prova de suas habilidades, mas com um foco surpreendente nas partes boas do negócio todo, um pouco na contra-mão de sua imagem melancólica e introspectiva que estava construída na minha cabeça.

"French Navy", primeira faixa e primeiro single, e "Honey In The Sun", última canção do disco, são ótimas representantes desse novo otimismo. Na primeira, ela não se controla e canta. "I wanted to control it/ But love I couldn’t hold it", enquanto metais sonorizam a alegria de não se segurar. Metais que reaparecerão para cima também na derradeira "Honey In The Sun" e sua declaração aberta de ter um coração mais tranquilo: "I wish my heart was as cold as the morning dew/ But it’s warm as saxophones/ And honey in the sun for you".

Legal. Bonito.

Mas não são minhas canções favoritas do disco. Tracyanne é mais do que uma menina feliz, apaixonada. Ela é um tanto azeda, irônica e melancólica apesar das melodias ensolaradas dos anos 50.

"You Told a Lie" dá uma pequena mostra de como ela pode brincar com suas letras. "Are my eyes the coldest blue?/ You said once this was true". Tensão? Ela conclue: "If it is I don’t know what I’ll do/ ‘Cause I’m stuck with them/ And they’re stuck on you". Anti-tensão. Em "Swans" ela sorri da canto de boca: "There are flowers in my house/ And I bought them myself".

Melhorou. Mas não cheguei onde queria ainda.

"James", a sexta faixa, começa uma sequência de canções realmente marcantes do álbum. Levada no baixo e com poucos instrumentos, "James" mostra o outro lado (o de James), com uma Tracyanne empática, sem falsidades e triste. "James he came to my place/ He said he had to see my face/ He hopes that we can still be friends/ In his own way he’ll love me until the end". "Careless Love", em seguida, se não mostra o lado de Tracyanne dessa história com James, mostra que ela teve outra grande paixão. "Honey I’ve been struggling/ To think of you and I/ being friends". A guitarra solta riffs e a bateria é fraca, acompanhando a orquestra que cresce após cada refrão e sonoriza a tristeza de ambos os lados.

Na faixa-título, o grande ápice dessa mini sequência e do disco, o piano se repete ao longo de todos os versos, como que abrindo caminho para um refrão triunfante, que não vem. Tracyanne canta: "You kissed me on the forehead/ Now these kisses give me concussion/ We were love at first sight/ Now this crush is crushing". A esperada mudança de ritmo não chega, mas uma nova melodia, sim, e ela pondera seus relacionamentos, consequentemente, sua música, e decide. "I’ll brace myself for the loneliness/ Say hello to the feelings that I detest/ This maudlin career must come to an end/ I don’t want to be sad again".

Não à toa My Maudlin Career é o nome do álbum. Sua "carreira" em relacionamentos é a sua carreira musical. Por isso seu rumo musical é uma decisão incontestável, como seus relacionamentos. Dá até vontade de pedir desculpas por ver as duas coisas se misturarem dessa maneira, de ver tão escancarados alguns sentimentos. Por isso o Camera Obscura e as letras de Tracyanne são tão comoventes. Apesar de eu preferir os discos anteriores, eu só posso respeitar uma pessoa que faz música e escreve de forma tão transparente. E as guitarras, ahh, as guitarras do disco são excelentes.

Denis Fujito

Nota:

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