The Mountain Goats – The Life of The World to Come

20.10.2009 — Música, Resenhas

The Mountain Goats
The Life of The World to Come
(4AD; 2009)

Atrás de seu jeito bobo e desengonçado, John Darnielle esconde sua habilidade mais do que incrível com as palavras. Não só nas letras de suas, literalmente, centenas de canções, John domina a palavra falada também. Em todas as suas entrevistas que já vi, ele parece que vai fazer papel de bobo, vai gaguejar ou que um passarinho vai aparecer e bicar seus olhos, quando não mais que de repente ele solta alguma frase engraçada, espirituosa ou bonita. Mais do que simpático, John é rápido e inteligente. E todas essas características aparecem facilmente em sua música.

Por isso não consigo pensar em outra pessoa mais propícia do que o próprio para cantar músicas baseadas em salmos, versos e personagens da Bíblia. John Darnielle é o cara certo e ele não desaponta.

Musicalmente, o Mountain Goats abre mão da produção mais trabalhada e se aproxima de Get Lonely (2006), dos discos lançados pela 4AD, e reaparece com uma formação mais simples, com apenas um violão, baixo, bateria e eventuais pianos. Não só. John abre mão também de suas canções mais frenéticas, quase punks acústicos, e foca em algo bem mais leve e bonito. Fora "Psalms 40:2", a única mais pesada, todo o restante de The Life of The World to Come é extremamente bonito.

E quando eu digo extremamente, eu quero dizer que as canções são muito fodas de bonitas. Mas acho que você não quer ler sobre todas, vou falar só sobre as minhas preferidas.

"Genesis 3:23", depois da mais tensa "Psalms 40:2", vem numa levada para cima, enquanto John canta saudosista: "Break the lock on my own garden gate/ When I get home after dark/ Sit looking up at the stars outside/ Like teeth in the mouth of a shark/ I used to live here".

A partir daqui, contrapondo (ou não) com a leveza musical, começam a aparecer canções envolvendo a morte. Em "Philippians 3:20-21" ele questiona: "And nice people said he was with God now/ Safe in his arms/ But the voice of the angels that he heard on his last days with us/ Smoke alarms". Para em seguida, em "Hebrews 11:40", lidar com a "ascensão" cristã. "It gets dark and then/ I feel certain I am going to rise again/ If not by faith then by the sword/ I’m going to be restored". "Isaiah 45:23", a penúltima música, fecha o tema com o refrão "And I won’t get better but someday I’ll be free/ Cause I am not this body that imprisons me". Não sei se você vai ler versos tão sintéticos e bonitos sobre a morte tão cedo.

(E que tal o começo de "Romans 10:9": "Wake up sixty minutes after my head hits the pillow I can’t live like this". Ninguém pode, John.)

Mas é "Matthew 25:21", canção que John fez sobre o câncer de sua sogra, que eleva a questão a pontos mais sensíveis por ser extremamente pessoal. Para tanto ele aparece sozinho com seu violão e canta: "Tried to brace myself/ You can’t brace yourself when the time comes/ You just have to roll with the blast/ And I’m an eighteen wheeler headed down the interstate/ And my brakes are going to give/ And I won’t know till it’s too late/ Tires screaming when I lose control/ Try not to hurt too many people when I roll". O final de "Matthew 25:21" é mais intenso ainda, mas isso eu deixo para você descobrir.

As histórias de The Life of The World to Come não são fáceis, você não vai digerir tudo de primeira ou em uma resenha. Apesar de muita leveza aqui e ali, as partes densas são de partir o coração. O coração que vai bater nos últimos segundos de "Ezekiel 7 and The Permanent Efficacy of Grace", última faixa, insistindo que, sim, há uma preocupação com a morte por todo o disco, por toda a Bíblia, mas se você escutou The Life of the World to Come do começo ao fim, você está mais vivo do que nunca neste planeta aqui. E ao contrário de The Shape of Jazz to Come (1959), clássico de Ornette Coleman, John quer destacar que não existe uma forma ou estética a se extrair do livro, não há um estilo de vida, mas, com certeza, há uma outra vida por vir.

Denis Fujito

Nota:

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