Spoon – Transference

27.01.2010 — Música, Resenhas

Spoon
Transference

(Merge; 2010)

Sei que o texto parece longo e por isso muita gente vai apenas ler essa frase, ver a nota lá embaixo e tirar suas próprias conclusões sobre o disco, sobre mim e sobre o site. Para esses, aviso: Transference é muito bom. Para os demais, eu continuo…

…lembrando que o Spoon nunca foi uma banda muito melodiosa. Britt Daniel, vocalista e principal compositor do grupo, além de ter a fama de frio no contato com seu público e com a mídia sempre fez músicas duras, friamente calculadas e econômicas. Ele não desperdiça um segundo do seu precioso tempo (seu e dele) com firulas ou modismos e vai direto ao ponto com canções marcantes e de produção sempre impecável.

Portanto, se você estava à espera de músicas grudentas como "Cherry Bomb" e "Finer Feelings" ou extremamente pop como "The Underdog", vai se dar mal em Transference pois, escutando-o do início ao fim, fica ainda mais claro que Ga Ga Ga Ga Ga (2007) fora um pequeno lampejo, ou um grande disco, de melodias pop que não representam em sua totalidade os mais de quinze anos de carreira desse grupo.

O começo de Transference mostra o Spoon bem despreocuado em agradar. "Before Destruction" começa em um anti-clímax, devagar e cadenciado; "Is Love Forever?", com pouco mais de dois minutos, mostra um Daniel se fazendo de besta com seu canto quase fora do tempo e com ecos no refrão; "The Mistery Zone" é levada por um baixo bastante repetitivo enquanto guitarra e piano se revezam no preenchimento dos espaços, canção precisa que termina sua repetição abruptamente, antecipando "Who Makes Your Money", música cheia de delay com um baixo brincando ao fundo em um timbre lindo, praticamente um backing vocal.

As melodias vocais mais pop começam a dar as caras apenas no primeiro single, "Written In Reverse", com Britt variando do canto falado a um extremamente fino e acompanhado por um piano livre ao fundo em uma canção que cresce muito no refrão; em "Trouble Comes Running" Daniel relembra um Joe Strummer pronto para fazer dançar um punhado de pessoas num bar empoeirado do Texas; "Goodnight Laura", uma breve balada ao piano, é bela do começo ao fim, mas soa apenas como uma introdução para "Out Go The Lights", uma linda canção repleta de arranjos de guitarra bem encaixados, que conversam e desconversam com o vocal, que crescem e preenchem momentos preciosos e que silenciam nas principais partes cantadas.

De qualquer disco do Spoon você pode extrair um single para tocar em rádios do mundo inteiro, uma bela melodia para preencher uma trilha sonora de qualquer filme hollywoodiano, uma outra para tocar em pistas de qualquer canto do globo e uma quarta para ser "referência" para algum comercial brasileiro. Não raramente todas essas características pop estão em uma só canção, porém, em Transference, elas aparecem espalhadas. Todas as canções com potencial de single são escorregadias e você precisa de tempo para saborear seus detalhes.

O único ponto negativo que consigo encontrar ao longo de Transference é quando o comparo com todos os demais álbuns do grupo, onde algumas durezas musicais eram mais impactantes. Se havia falta de melodia e de quebra de ritmo, eles compensavam com riffs de guitarra e teclado grudentos e sujos e de timbres fortes; se a música, ao contrário, era bem melodiosa, a repetição e a simplicidade musical dominavam. Sempre houve a preocupação de deixar uma balança invisível equilibrada, em Transference não há balança alguma. Este é o mais frio dos discos do Spoon e ele é bom exatamente por isso. Mas se você é muito fã de trilhas hollywoodianas, ou um ouvinte assíduo da Oi FM ou um publicitário com todos os clichês em seu ser, geralmente essas características estão todas na mesma pessoa, bom… neste caso é provável que você nem tenha chegado até o final deste texto.

Denis Fujito

Nota:

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