Scout NIblett – The Calcination of Scout Niblett

02.02.2010 — Música, Resenhas

Scout Niblett
The Calcination of Scout Niblett

(Drag City; 2010)

Scout Niblett nunca escondeu seu lado sombrio em suas canções. Seja nas guitarras com um quê de Black Sabbath, nas baterias primitivas e batidas com raiva ou em suas letras, ela estampa sem cerimônias o teor perturbador de sua música. Foi assim no mais simples e melodioso Sweet Heart Fever (2001), também no estranho e cheio de guitarras tortas de Kidnapped by Neptune (2005) até o mais belo e repleto de duetos com Will Oldham de This Fool Can Die Now (2007).

Em The Calcination of Scout Niblett, seu sexto disco de estúdio, porém, Scout consegue multiplicar sua aura sombria ao tocar seu grunge solitário em um caminhar tão devagar que cada faixa ao mesmo tempo que ganha um ar infantil tem seu clima sombrio pronto para explodir a cada espaço em branco.

Essa intensidade, que afastaria muitos artistas de seus ouvintes, cai como uma luva na cantora e The Calcination of Scout NIblett finalmente traz a roupagem ideal para a louquinha que víamos cantando sem rumo por aí. A música tem seu território bem pavimentado e ela não exagera em sua homenagem, apenas produz algo extremamente pessoal e brinca com as memórias ainda um tanto frescas do grunge enquanto te conquista com linhas de vocais mais melodiosas, como "Bargin" e "Duke of Anxiety", duas das canções mais marcantes de sua carreira.

Mas o fator que leva este novo álbum a um novo patamar na carreira de Emma Louise, nome de nascença de Scout, é sua convicção, sua interpretação. Embora seja inquestionável o quanto ela sente a música ao cantá-la, Emma, dessa vez, deixa transparecer mais suas forças sendo expelidas pelos dedos, seja nos primeiros versos decididos de "Just Do It", na fragilidade de "I.B.D.", ou na brincadeira de palavras de "Lucy Lucifer", verdadeira canção de ninar extraída de um filme de  suspense, ou na guitarra pesada e distorcida de "Strip Me Pluto". A todo momento que posa firme e forte com sua Fender, Emma se mostra também suscetível a se despedaçar e enlouquecer de vez.

Hoje, ela pegou minhas preocupações momentâneas, fez uma grande bola com papel higiênico molhado e arremessou na parede. Com um olhar confrontador, mas sem tom de julgamento, ainda me perguntou: "é isso mesmo?". Eu retruco um "sim" sem convicção; ela sorri e vai embora, firme. Por mais suscetível que Emma Louise esteja, acho difícil alguém sair mais inteiro que Scout Niblett ao final disso tudo.

Denis Fujito

Nota:

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