Charlotte Gainsbourg – IRM

12.04.2010 — Música, Resenhas

Charlotte Gainsbourg
IRM
(Elektra; 2009)

O Beck é um cara profissional. Ele já figura na indústria musical há quase vinte anos, sabe bem o que faz, tem grandes referências e influências, bom gosto, não fica parado no tempo, é um grande músico que toca, grava e produz de forma exemplar.

Charlotte Gainsbourg não fica atrás quando falamos em competência. O pedigree pode não ter total relação com o talento, mas, tudo bem, pois ela tem ambos. Filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, Charlotte é uma atriz bem sucedida, uma cantora de voz doce e impactante, muito bonita e, para apimentar um pouco sua vida de sucesso, passou por um drama recente. A cantora e atriz francesa quase morreu de hemorragia cerebral, em 2007, após sofrer um pequeno acidente de esqui. No processo de recuperação, teve que passar por diversas ressonâncias magnéticas cerebrais, experiência que a inspirou a realizar este seu novo disco, IRM (sigla em francês para imagens de ressonâncias magnéticas).

Escrito, composto e produzido por Beck, IRM tem pedigree e profissionalismo de sobra, mas, sem mais delonga no "mas", como essa sobra de talento se traduz na prática?

"Heaven Can Wait" e "Me and Jane Doe" mostram que a dupla pode ser muito eficaz quando se propõe a fazer um pop direto e sem floreios; e "La Collectioneuse" é profunda nos sussurros de Charlotte em cima de um piano frágil, retomando bem o clima da música que seus pais fizeram décadas atrás. Mas, sem outra delonga, de resto, Beck mostra o músico que sempre foi e leva Charlotte pelas mãos em mais uma de suas viagens musicais de destino indefinido.

"Master’s Hands" traz algo como um banjo repetitivo em primeiro plano enquanto diversos outros instrumentos e percussão aparecem e somem numa faixa sem graça e sem identidade. Na sequência, "IRM" evoca uma base à Portishead mas sem a força e a estranheza que o trio inglês é capaz de produzir. Estranheza que Beck insiste em utilizar em seus arranjos para diferenciar sua música e, não de hoje, falha na tentativa. "Time of The Assassins" parece um cover perdido do Black Box Recorder, "Trick Pony" tem um peso forçado, "Greenwich Mean Time" vem com um efeito na voz de Charlotte que prejudica o seu único papel no álbum e "Voyage" soa interminável com arranjos de violino exagerados e sem causar o drama que sugerem.

O Beck pode até ser um cara profissional, mas música envolve muito mais do que técnica e conhecimento de sua área. Suas produções chegam aos meus ouvidos com uma falta de verdadeiro sentimento, pois, antes de ser um profissional da música, Beck é um amante da mesma (e eu o respeito por isso), mas na hora de reproduzir essa paixão com suas próprias ideias ele não me convence porque faz questão de mostrar sua consciência em cada decisão e cada arranjo a todo momento. IRM pode passar em qualquer teste técnico que você exigir dele, mas não convence em sua estranheza, nem nos momentos dramáticos, tampouco nos belos e nos perturbadores, como imagino que possam ser inúmeras sessões de ressonância magnética. IRM é competente e por ser apenas isso é uma pena.

Denis Fujito

Nota:

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