Dr. Dog – Shame, Shame

23.04.2010 — Música, Resenhas

Dr. Dog
Shame, Shame
(Anti-; 2010)

Bom, se você ouve o Dr. Dog desde o Easy Beat – ou até antes, quem sabe? – já reparou a essa altura, uma quinta-feira de abril de 2010, quase um mês após o lançamento do novo disco deles – que a banda perdeu qualquer resquício experimental e/ou psicodélico, duas características que foram passear rumo ao vulcão da Islândia e nunca mais voltaram, dando lugar a um "country" pop muito mais vivo e visível, quase escancarado e sem vergonha. Não "sem vergonha" de vagabundo. "Sem vergonha" de ser o que é. OK. Gosto do experimental. Gosto do country. Gosto do psicodélico.

É no mínimo curioso analisar com atenção os passos que o Dr. Dog deu até hoje desde o início de sua carreira (avaliado em quatro itens numéricos não corretamente divididos):

1) Esqueça o primeiro álbum (2001). Não dá nem pra achar ele em boa qualidade na internet. Talvez você seja amigo do Dr. Dog e possa mandar uma cópia em vinil dourado para este site.
2) Toothbrush (2002) e Easy Beat (2005): os dois melhores discos da banda. Mal gravados e mal produzidos. Psicodelia, sunshine pop, country e muitas outras delícias sonoras que ainda hoje nos fazem sorrir (ou chorar). Clássicos que um dia serão reconhecidos como tal pela importante crítica especializada.
3) We All Belong (2007): a mudança. Fez o Suppaduppa pensar: "agora o Dr. Dog vai alcançar as massas!" Foi quando a banda resolveu abandonar o lo-fi de vez e abraçar de vez o pop-folk-country-rock sem qualquer tipo de medo. Provoca sorrisos amarelos em fãs antigos. E não alcançou as grandes massas.
4) Fate (2008): aqui eles só dão continuidade ao que fizeram no disco anterior. Mais do mesmo. Belas canções, melodias e letras bonitas. Um bom disco, viu.

O que me faz pensar se essa mudança no som do grupo aconteceu para alcançar audiências maiores e menos exigentes ou se tudo foi por acaso. Vale a pena (?) refletir um bocado nesse sentido, o que talvez não te leve a absolutamente lugar algum – mas, tudo bem. Tudo bem mesmo. De verdade. Não procure sarcasmo ou ironia nesta resenha. Porque no final do dia o que você vai ouvir é só um álbum bonito e ponto final. Shame, Shame é assim: bonito. Fácil. Leve. Como uma refeição feita para o verão, uma salada verde acompanhada de um suco de melancia. Quase todas as músicas têm cerca de três minutos e tudo está em seu devido lugar. Não há sequer uma nota feia, alguém desafinando ou um solinho desagradável. Como eu disse, é um disco bonito. Shame, Shame.

Os baixos ("I Only Wear Blue") também chamam a atenção e mostram o potencial dessa grande banda. O sr. Tables (Toby Leaman) caprichou dessa vez. Ele sempre foi muito caprichoso, sabemos disso. Mas sinto falta de mais solos de guitarra (lembra do Easy Beat?) e de maior espontaneidade por parte dos integrantes do Dr. Dog. Tudo parece pensado, até mesmo as partes mais divertidas. Me sinto abandonado aqui e até meio triste. Sozinho no escuro tentando ler um livro de páginas negras. Mas é pouco antes das 10 da manhã e talvez o sono esteja atrapalhando minha análise elaborada deste álbum tão importante no ano de 2010.

O tempo vai passando e enquanto eu tento resenhar o álbum, ele vai fluindo maravilhosamente bem dentro do meu iTunes (eu ainda não encomendei o vinil, me desculpe). Talvez a tentativa de Shame, Shame ser tão suave aos ouvidos seja muito boa. Talvez nem tanto. Talvez você possa escolher qualquer uma das 11 canções só pelo nome e jogá-la na trilha sonora de uma novela global do horário nobre, com sucesso. Talvez o disco flua bem simplesmente porque nada ali chama muito a sua atenção – como os momentos desafinados prestes a desmoronar no Toothbrush ou nos pianos e solos ridiculamente bizarros do Easy Beat.

Acho melhor parar por aqui. Me sinto confuso. Me sinto órfão e ao mesmo tempo feliz. Shame, Shame me deixa feliz. E faz com que me sinta órfão. Me satisfaz por 39 minutos. Mas, e depois? E amanhã? E daqui 10 anos? E o fim do mundo que se aproxima? Ah, como eu queria gostar muito mais desse álbum. O Dr. Dog é uma das bandas do meu coração, que fique bem claro para os furiosos internautas que twittam e facebookam com dedos em chamas. Mas é uma pena, uma pena que o meu quinteto favorito da Filadélfia não consiga ser o que já foi ou ao menos ser melhor do que hoje em dia é.

– Six

Nota:

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