The National – High Violet

26.04.2010 — Música, Resenhas

The National
High Violet
(4AD; 2010)

Com as dezenas de entrevistas e perfis que pipocam a cada dia sobre o National e seu novo disco, High Violet, um fato começa a ficar em evidência para um maior público: o National é formado por cinco caras obsessivos compulsivos.

Eu só apontaria que essa obsessão não vem de hoje, mas, sim, desde Alligator. Essas novas entrevistas apenas escancaram algumas características que passam muitas vezes por debaixo das belas canções do grupo. Por exemplo, cada música do National soa extremamente trabalhada e calculada em seus arranjos e estrutura, principalmente por elas se basearem na ação e reação dos instrumentos, na repetição e nas mudanças sutis de ritmos e melodias, no vai e vem dos refrões e dos versos e nos pequenos detalhes que martelam e martelam ao fundo. Coisa de gente obsessiva compulsiva mesmo. De pessoas que fazem isso mas aquilo na sequência para compensar e depois têm que repetir três vezes isso e aquilo para poder dormir à noite.

Enquanto os guitarristas e irmãos gêmeos Dessner trabalham nos arranjos e duelam silenciosamente com seus dedilhados, e os irmãos Devendorf fazem uma base impecável com baixo e bateria bastante criativos, Matt Berninger é o encarregado de dar um corpo único à música do grupo. Com seu vocal grave, Matt, além de um irmão mais velho e um maníaco nas suas letras e repetições, parece um autista melancólico que presta a atenção mínima necessária à música que o acompanha e que canta e se excede de forma desajeitada. Apenas preocupado em dar liberdade aos seus pensamentos para poder descansar melhor sua mente à noite.

Esses são os grandes charmes do National para mim.

Dito isso, vamos às novas faixas do grupo. "Terrible Love" abre High Violet de forma promissora, com uma produção menos refinada, final intenso e barulhento e um Matt brincando com as repetições e com as palavras do jeito que gosta ("It takes an ocean not to break/ Company/ It’s quite a company/ It’s quiet company"); "Afraid of Everyone" trabalha e expressa muito bem o sentimento de perseguição e isolamento desejado; "Bloodbuzz Ohio" vem com a melhor bateria do disco e um final memorável; "Lemonworld", uma das melhores, traz uma guitarra e bateria eternas em cima das quais Matt canta e corre livremente, só parando ao perder o fôlego "doo doo doo doo"; e "Runaway", na sequência, acalma todos os ânimos e atinge forte com sua simplicidade.

O restante, porém, deixa claro que apesar de obsessivos no papel e nas entrevistas, o National mudou o foco de suas manias. Eles passam meses gravando, semanas mixando, mudam os nomes e a ordem das músicas, mudam as letras e os arranjos, contratam violinistas e trompetistas e o que for e não colocam suas partes no corte final; eles possuem possibilidades bem maiores após o sucesso de Boxer, mas parecem dispersos com todas elas em High Violet. Assim, partes notáveis como o refrão de "Little Faith" ("All our lonely kicks are getting harder to find/ We’ll play nuns versus priests until somebody cries") ou o começo de "England" ou a bateria de "Anyone’s Ghost" ou a participação de Bon Iver em "Vanderlyle Crybaby Geks" se perdem no mar de QUASE outras dezenas de boas ideias, arranjos e melodias. A falta de obsessão nos detalhes e o foco no geral torna o National uma banda mais comum, mas também, aposto, com um sono bem melhor apesar das tristezas de sempre.

Denis Fujito

Nota:

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