The New Pornographers – Together

14.05.2010 — Música, Resenhas

The New Pornographers
Together
(Matador Records; 2010)

De vez em quando eu me sinto deslocado. Acho que estou no lugar errado por qualquer esbarrão que um estranho dá em mim. As pessoas são de outro mundo e as coisas também. Fatos bizarros e sentimentos estranhos. Não é assim com todo mundo vez ou outra? Não demora e o instinto de se defender aflora. Sou excluído mas excluo porque, né, tudo tem limite nessa vida e o meu é esse aqui ó. Espero que o outro veja, porque eu deixei bem claro.

Mas sabemos que as coisas não funcionam bem assim. As pessoas não tem noção. Elas te puxam e te empurram e não estão nem aí para a palavra limite. Aparentemente essa é a graça do negócio. A exclusão, no final das contas, é a cola que te faz unir a um punhado dentre bilhões de pessoas do mundo.

Em 2003, numa bela tarde de uma época um tanto conturbada, quando eu andava meio excluído e excludente, eu acabei entrando em uma dessas megastore e logo avistei um daqueles tocadores de CDs entre as prateleiras para o pessoal escutar aos lançamentos selecionados pela loja. Dentre esses álbuns estava Electric Version, o segundo do New Pornographers. Algo naquela capa azul me fez dar play nele. Acabei escutando o disco praticamente do início ao fim, e com um sorriso de orelha a orelha, eu sai da loja e voltei para o mundo me sentindo bem mais em sintonia comigo mesmo.

Não se tratou de uma epifania. Aquelas treze canções apenas devolveram um eu flutuante de volta aos meus tênis. Por cerca de quarenta minutos de música pop como não tinha escutado antes, eu pertencia novamente aos meus tênis. E isso, meu amigo, na época foi uma baita de uma descoberta.

Sei que essa introdução pode lhe parecer inútil, mas, veja bem, o novo disco do New Pornographers chama-se Together. E ele vem logo depois do excluído por ser diferente dos anteriores Challangers (2007).

Não só pelo lado pessoal, mas muito por culpa dele, Electric Version tavez será meu disco preferido do grupo para sempre. O que não quer dizer nada em termos artísticos. Ou melhor, não quer dizer nada para você. Mas que começa a ter importância quando leio por aí que Together não é tão "bom" ou "grudento" como os três primeiros do grupo. Por isso vou apontar algumas coisas que comprovam por a (Neko Case) + b (Carl Newman) + c (Dan Bejar) que Together é, sim, um baita de um disco, além do primeiro no qual essa soma tem resultados realmente agregadores.

O primeiro item é Neko Case. Sua participação nos vocais foi se tornando mais importante a partir de Twin Cinema (2005) e em Together ela explora todas as qualidades de seu canto ("Sweet Talk Sweet Talk", "My Shepard" e "Valkyrie In The Roller Disco") para levar as melodias de Carl Newman a um patamar que ele seria incapaz de fazer. O segundo item, o próprio Carl Newman, deveria ser o primeiro, pois dessa trinca ele é o único que não carrega um projeto solo como seu principal. O New Pornographers é o seu projeto, mas ele ainda assim é o segundo pois fica bem na sombra. Os grandes hits, os belos riffs e as dezenas de melodias grudentas partem todas dessa cabeça ruiva e o mérito de Carl é o quanto suas canções ficaram mais complexas com o passar dos anos sem perder seu impacto pop ("Moves", "Crash Years" e "Up In The Dark" são ótimos exemplos). Dan Bejar, o terceiro, é um item à parte. Em Electric Version, suas três canções se misturavam bem com as de Carl. Mas a partir daí suas composições ganharam uma característica tão única que, juntas, formam um ser com vida própria dentro dos discos do New Pornographers. "Silver Jenny Dollar", "If You Can’t See My Mirrors" e "Daughter of Sorrow" são tão características e estranhamente viciantes que chegam a perturbar.

Pela coesão do todo, Together serve como a reinclusão do New Pornographers ao seu habitat natural na música pop. O grupo não entende a exclusão porque é uma banda liderada por um cara normal de mais que nunca teve grandes ambições com sua música. Carl Newman contou recentemente em uma entrevista ao site Quietus que nunca esperou nada do seu grupo. "Na maior parte do tempo, quando você é um músico, você já está feliz apenas por não ter que ter um trabalho normal (…) se eu voltasse no tempo dez anos e alguém me dissesse: ‘é aqui que você mora, essa é a pessoa com quem você está casado e isso é o que você realizou’, eu diria: ‘wow. eu sou um sucesso!’", Carl pondera, e conclui como sua tia faria num almoço de domingo: "Enquanto você está vivendo a vida, você nem sempre se sente assim, mas você tem que se lembrar disso. Como Joe Walsh disse: ‘a vida tem sido boa comigo até então’".

O New Pornographers tem sido bom comigo e disso eu não esqueço.

Denis Fujito

Nota:

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Ouça uma faixa do álbum:


"Sweet Talk Sweet Talk"

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Resenha: A.C. Newman – Get Guilty

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