Wolf Parade – Expo 86

01.07.2010 — Música, Resenhas

Wolf Parade

Expo 86

(Sub Pop; 2010)


Junho fecha um semestre de bons lançamentos com o Expo 86, do Wolf Parade. Mas antes mesmo de ser um disco, Expo já era uma expectativa, uma dose grande de credibilidade e um temor incrível da decepção. Se um disco é recebido nessas condições, já se sabe que a experiência sonora (e nesse pacote, inclua a técnica e a produção) vai ter que dividir atenção com os afetos já existentes do ouvinte, que não quer ser desagradado.

E isso tudo é culpa do Apologies to the Queen Mary, lançado em 2005, ano de felicidade para a Sub Pop, para Spencer, Dan, Dante, Arlen, você, eu e o resto do mundo. Damn you, Apologies. Provocou um efeito tão arrasador ao ressignificar 2005 como um ano fundamental para aquilo que você pode (ou podia) colocar uma tag de indie rock – é o mesmo ano de Illinois (Sufjan Stevens), do Alligator (The National) e do homônimo do Broken Social Scene, só pra citar algumas belezinhas essenciais. Complicou a vida de seu sucessor, At Mount Zoomer, de 2008, que não despertou paixões avassaladoras e, dizem alguns, até conquistou uns desafetos. Diria que Apologies… arruinou minha capacidade de fazer um julgamento minimamente justo e distante do passional sobre qualquer coisa referente ao Wolf Parade, essa maravilha que vem lá do Canadá.

O Apologies… é quase perverso com seu encantamento, e qualquer passo que indique mudança parece vir carregado de um grande risco de frustração. Esse pessoal tinha feito uma coleção impecável de músicas sombrias, dolorosas e, desde então, tento resgatar aquela mesma sensação que tive quando ouvi “Dear Sons And Daughters Of Hungry Ghosts” seguida por “I’ll Believe in Anything”. É uma tentativa (frustrada) de retorno pra algo que jamais será recuperado. Meio angustiante, isso.

E aí  o esses canadenses propõem um álbum declaradamente dançante, desapegam-se dos efeitos melancólicos, traçam uma rota diferente daquela iniciada em 2005, assumem novos humores e comprovam que fazer música é assumir risco. Vírgulas sucessivas para dizer que as 11 músicas de Expo 86 são surpreendentemente boas.

O disco começa sem preâmbulos: “Cloud Shadow on the Mountain” invade o silêncio com Spencer Krug e a bateria, para deslanchar em riffs quase herdeiros do Black Sabbath. “Palm Road” sucede em tom de marcha militar pontuada pela bateria, e a memória faz uma rápida associação ao Arcade Fire.

Se pensado como um desenho, Expo 86 tem um contorno bem demarcado, com produção mais limpa do que nos discos anteriores, menos reverberações dos vocais e um apelo mais pop e direto para as músicas – versos, refrão, versos, um ou outro solo. O resultado é mais próximo do que deve ser a banda ao vivo – enérgica, acelerada, urgente, amplificada (como testemunhado no YouTube).

O At Mount Zoomer antecipava os teclados como protagonistas e, por causa deles, o Expo 86 abraça um clima ora etéreo, ora pop com um acento de David Byrne. Aliás, é incrível a capacidade do Wolf Parade de emular os anos 70, 80 e 90 e, ainda assim, ser uma autêntica cria dos anos 2000, com uma sonoridade tão própria que já dá pra dizer que “tal banda soa como o Wolf Parade”.

As faixas se sustentam pela tríade teclados-bateria-guitarras. Os graves estão lá, no baixo que rouba a cena em “Little Golden Age”, um momento apoteótico de Dan Boeckner  e uma das melhores faixas.  Essa sensação de grandiosidade também aparece na bela “Oh You, Old Thing”.

Potencialmente, todas as músicas parecem preparadas para o posto de hit. “What Did My Lover Say” e “Ghost Pressure”, divulgadas previamente, são realmente um condensado de toda a proposta do álbum. Os arranjos elaborados e a cadência lembram o art rock; o convite para a dança parte dos teclados e dos vocais, pois Dan e Spencer estão se tornando imbatíveis nessa tarefa de definir a textura das músicas pela vocalização.

No desfecho, há “Cave-O-Sapien” e uma guitarra que remete a “Dancing With Myself”, de Billy Idol. Spencer repete os seus memoráveis “Oh Oh Oh Oh” e nos acolhe: “You’re not the sunrise. You’re just alone. I’ve got you ‘til you’re gone”. Parte da angústia se foi.

“Ghost Pressure”

“What Did My Lover Say? (It Always Had to Go This Way)”
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Nota
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8.0
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