Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy

07.12.2010 — Música, Resenhas

Kanye West

My Beautiful Dark Twisted Fantasy

(Roc-A-Fella; 2010)


Não gosto do Kanye West. De tudo aquilo que Kanye West representa para o mundo. Não gosto da sua figura enquanto artista, do seu discurso muitas vezes patético, das suas aparições na mídia e da sua autoconfiança exagerada. Acho, inclusive, que ele se perdeu musicalmente em seus últimos dois álbuns, Graduation (2007) e 808s & Heartbreak (2008). Mas quando o rapper e produtor norte-americano decide dar um pouco mais de atenção à música, o resultado pode ser, imagine só, surpreendente. My Beautiful Dark Twisted Fantasy é o melhor disco de 2010.

É confusa minha relação com Kanye. O considero talentoso, mas não um gênio, e sua arrogância me faz sempre julgá-lo com desconfiança. Seus dois primeiros discos são excelentes. College Dropout (2004) é uma estreia memorável, um verdadeiro e puro álbum de rap, enquanto Late Registration é como a trilha sonora imaginária perfeita para um mundo fantástico e cheio de beleza. O show no Brasil que vi foi morno e, ao mesmo tempo em que poderia ter sido pior, também acredito que poderia ter sido muito melhor.

Portanto, quais seriam as chances de ver Kanye West voltar a surgir com um trabalho espetacular? Pare um minuto para pensar. Nulas? Quase nulas. Seria inimaginável, pelo menos pra mim. E, sim, existe um grande hype que rodeia My Beautiful Dark Twisted Fantasy como um grupo de perigosos fantasmas, mas cada uma de suas 13 canções age como Bill Murray em Ghostbusters, de prontidão para exterminá-lo sem piedade. Basta apertar o play e ouvir com atenção.

Como quase todo bom disco, My Beautiful Dark Twisted Fantasy não convence logo de cara. Quem gosta de rap sabe que o álbum soa exagerado, com produção muito grandiosa e cheio de vozes cantadas, fugindo das partes que tem mais respeito dentro do gênero. Também não é R&B. Nem música pop, não essencialmente. Como classificar, então, o quinto álbum de Kanye West? E como aceitar que, apesar de tudo isso, este é um álbum de hip-hop, de música pop ou simplesmente de música que é bem sucedido em todos os aspectos que tentei levantar para derrubá-lo?

O mais difícil é apontar destaques individuais, uma vez que o disco é como um grande bloco de inspiração e criatividade, ainda que permeado por detalhes que preenchem os ouvidos a todo momento, principalmente na companhia de um bom par de headphones. É o caso do maravilhoso sample de “Devil In A New Dress” – uma das faixas mais bonitas de 2010 -, do piano mesclado com sintetizador em “Runaway”, ou ainda do coro em “All Of The Lights”. Sem contar o discurso de Chris Rock e da voz de Gil Scott-Heron que encerra My Beautiful Dark Twisted Fantasy de forma brilhante.

Apesar de exagerada – como já disse anteriormente -, a produção é espetacular no que diz respeito à variedade e riqueza em detalhes. São teclados, sintetizadores, pianos, guitarras, baixos, baterias, batidas, samples e vozes que parecem ter sido pensados um a um de forma fria e calculada, para que nada ficasse fora de seu devido lugar. Kanye produziu a maioria das faixas mas, esperto que é, também contou com a ajuda de nomes como RZA, Jay-Z, No I.D. e, especialmente, Jeff Bhasker.

Impossível também não citar as participações que, de fato, são especiais. Apesar de não ofuscarem o brilho de Kanye como personagem principal, os colaboradores do disco são indispensáveis. Incrivelmente, o rapper conseguiu tirar o melhor de cada um deles,  seja com Rihanna, Nicki Minaj, Alicia Keys, John Legend ou Fergie, por exemplo. Por outro lado, Kid Cudi, Raekwon, Jay-Z, Rick Ross, Pusha T aparecem dando o seu melhor e incrementam as canções com suas rimas de forma natural.

Kanye West não escapou simplesmente da mediocridade com My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Este é um trabalho que redefine o hip-hop e a música pop, traçando uma linha entre o que foi produzido antes e o que será feito em seguida. A produção ambiciosa faz todo o sentido aqui. As participações são precisas. Tudo soa atemporal. Não há desperdícios ou momentos em vão. São 13 faixas definitivamente redondas e bem acabadas. Perfeitas. Kanye West pode ser um grande filho da puta e eu sou o primeiro a apedrejá-lo em praça pública quando necessário. Mas é o filho da puta mais talentoso e inteligente de 2010, capaz de me fazer deixar de lado todos os seus grandes defeitos para constatar que My Beautiful Dark Twisted Fantasy é uma obra-prima.

Ouça uma faixa do álbum:

“Devil In A New Dress (feat. Rick Ross)”

Nota
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10
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