Fucked Up – David Comes to Life

10.07.2011 — Música, Resenhas

Fucked Up

David Comes to Life

(Matador; 2011)


Como é bonita essa mania de grandeza do Fucked Up. Porque ela surge silenciosa, cresce no boca a boca e quando estoura, passa longe daqueles arquétipos insuportáveis de música de modinha. Até porque a empolgação de Pink Eyes (ou Damian Abraham) no palco nem combina com esse tipo de sazonalidade.

A pretensão deles chega empacotada em David Comes to Life, um disco conceitual abraçado pela Matador com o carinho de quem sabe que descobriu ouro.

E aí a história muda porque o Fucked Up já começa metalinguístico no próprio nome. Afinal, “fodido!” é a única coisa que você pode dizer de uma banda com mise-en-scène e descendência hardcore que cresceu tocando nos porões do Canadá. E daí que é o Canadá, né. Ali, a criatividade é mais volumosa do que a neve no inverno.

A história toda do David Comes to Life se desenrola em quatro atos sem muita restrição a gêneros, musicalmente falando (alguém aí se lembrou do Zen Arcade, do Hüsker Dü?). Se estiver buscando algo da urgência hardcore que marcou os primeiros trabalhos da banda, vai encontrá-la deliberadamente diluída nas duas linhas que conduzem o álbum do começo ao fim: o vocal dilacerante e nada econômico de Pink Eyes e as construções melódicas, que já apontavam uma preferência pelo hardcore melódico. E esse tem sido o DNA do Fucked Up, somado ao fato de que a banda é um sexteto que ainda conta com um baterista elegante (ainda que suas baquetas conquistem algo muito mais ruidoso do que uma batida chique) e uma baixista vaidosa (ela sempre carrega um secador de cabelo nas turnês e não dispensa os vestidos vintage) que oferece backing vocals capazes de causar séria dependência.

David Comes to Life é mais um experimento do que uma mudança definitiva, ainda mais pra uma banda que já tem uma década de carreira erguida no meio independente e pode se dar ao luxo de mudar de direcionamento quando quiser. Não que a gente precise temer uma mudança drástica como a de um Roxy Music ou de um Scritti Politti da vida. Se analisarmos as cinco primeiras faixas – “Let Her Rest”, “Queen of Hearts”, “Under My Nose”, “The Other Shoe” e “Turn The Season” – , encontramos reminiscências de músicas anteriores, como “David Christmas” e “Triumph of Life”.

Portanto, mesmo que o Fucked Up desagrade com seu épico amoroso e declaradamente sentimental de David Comes to Life, não vão faltar guitarras altas, urgência, um gogó poderoso e uma proximidade gigantesca do público (o que inclui o vocalista pagando cofrinho exaustivamente nos shows) pra garantir que o hardcore não ficou preso nos anos 90.

Ah, uma curiosidade: o Google Tradutor nem se dá ao trabalho de traduzir “Fucked Up” para o português. Mas o espanhol não falha: jodido.

“Queen Of Hearts”
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Nota
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9.5
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