Entrevista: Matheus Chiaratti

06.03.2012 — Eles, Nós/Eles


Conheci o Matheus numa festa na qual ele estava fotografando e, de primeira, já fui com a cara dele. Ele é daquelas pessoas divertidas que você quer sempre por perto. Aí, descobri que ele, na verdade, trabalhava na revista Vice e fotografava nas horas vagas. Depois, percebi que tínhamos vários amigos em comum, então trocamos ideias, Flickrs, e-mails e desde então acompanho o que ele faz. E claro, virei fã de carteirinha. Nessa entrevista, Matheus fala sobre suas inspirações, a preferência pela luz do dia para usar suas câmeras e como a fotografia “nada mais é do que uma confissão em imagens”.

Suppaduppa: Fale um pouco sobre você. O que gosta de fazer, o que não gosta de fazer, o que gostaria de estar fazendo agora.
Matheus Chiaratti: Eu gosto de Elis Regina, gosto também de comprar livros bonitos e vinis, de pesquisar imagens inspiradoras no Flickr. Não gosto muito do verão, a luz estoura, e a gente sua. Eu queria estar em Salta ou em Málaga, ou mais simples ainda, gostaria de estar rodeado de gente criativa o tempo todo.

SP: Como e quando começou o seu interesse por fotografia?
MC: Meu interesse começou com a minha avó, comprei uma câmera para fazer retratos dela. Achei que assim pudesse manter uma lembrança que eu um dia não teria mais. Achei que com o tempo a morte apagasse a imagem da minha cabeça. E fiz isso com muitas outras coisas que eu queria reter no tempo. Acho que para mim, a fotografia é isso, eu sempre tentei deter os momentos que pudessem se esvair da minha memória rapidamente… ou estender a minha permanência neles. Me frustrei, mas é um vício e uma busca.

SP: Pelas suas fotos, percebo que usa vários tipos de câmeras. Quais são as suas preferidas?
MC: Eu gosto mesmo é da Polaroid, mas não sei, nas novas chapas se perdeu a cor antiga, amarelada, datada, com cara de anos 80. A minha Zenit é xodó, mas pesa muito. No fim, fico com uma Canon Prima que tem zoom, compacta.


SP: As pessoas, em diferentes ângulos, são um tema recorrente nas suas fotos. É o que mais gosta de fotografar?
MC: Gosto de fotografar gente, em um lugar bonito, instigante, que dê indícios de uma historinha ou te faça querer estar ali. Gosto de fotografar gente que eu gosto, é como um retrato, pintura mesmo, alguém que você possa invadir seu olhar, e buscar algo seu, meu, próprio.

SP: Quando você acha que a foto saiu como deveria? É uma preocupação sua que a foto fique exatamente como imaginou? Ou sai tirando sem se preocupar muito?
MC: Antes não era, simplesmente fotografava instintivamente, mas acabava perdendo muita foto. Hoje em dia, para cada situação, luz, pessoa, uso uma câmera e um filme diferentes. Eu quero saber antes a imagem que quero ter, me faz ter mais controle e me deixa mais seguro.


SP: O que mais diria que está entre seus temas preferidos na hora de tirar fotos?
MC: Eu acho que o tema vai aparecendo, meus amigos são um tema, o sítio da minha avó é meu tema favorito, hotéis, mato e viagens. A gente é muito complexo para ter um tema só, e no final, você se descobre na fotografia, e vê que nada mais é do que uma confissão em imagens.

SP: Você trabalha na revista VICE, certo? Trabalhar lá fez com que entrasse em contato com alguns fotógrafos e artistas interessantes? Cite alguns que te inspiram / seus preferidos.
MC: O legal na VICE é que no mesmo prédio há um estúdio, onde eu posso conhecer fotógrafos que admiro, como Hugo Toni, por exemplo. Também pude conhecer o Mario Testino. Você acaba inspirado por tanta gente talentosa por perto.

SP: O que mais te inspira, não só na fotografia, mas em um aspecto mais amplo?
MC: A poesia me inspira, eu tento buscar poesia em tudo, nem sempre é fácil, ainda mais vivendo em uma cidade onde não há tempo, e a instanteneidade acaba desviando o olhar, ofuscando. É preciso tempo e concentração para achá-la.

SP: Qual são seus lugares preferidos para fotografar?
MC: Já tive momentos que só fotografava em hotel, depois em campos, depois em quartos. Eu acho que tem um pouco dos dois, contraditório até, ou um lugar muito aberto, descampado, ou um lugar muito fechado, íntimo.


SP: Como você acha que a fotografia se relaciona com o seu dia a dia?
MC: Eu busco imagens que digam algo de mim, da minha individualidade, não todo o dia, infelizmente. Nem sempre é muito cômodo carregar uma câmera na mochila, também sou meio tímido em fotografar na rua, comigo é mais íntimo, emocional. Se eu pudesse, eu fotografava todos os dias, todos os meus amigos.

SP: Prefere fotografar de dia ou de noite? Por que?
MC: Eu prefiro não usar flash, gosto da luz do entardecer, do flare. Ou do amanhecer, dia, sempre.

SP: Você se lembra das câmeras que seus pais/pessoas próximas tinham quando você era criança? Tem alguma história dessa época relacionada com fotografia?
MC: Eu era fascinado por uma camera que encontrei na gaveta da minha mãe, uma igual ao que o Andy Warhol usava, Yashica não sei o que, mas nunca funcionou, e nem teve conserto. O que me instigou mesmo foram umas fotos que encontrei, na época de juventude da minha avó, um eclipse de 1947 ou uns caras correndo em uma ponte. Tenho a sensação de que o cara ainda corre, em algum lugar do tempo, em algum lugar perdido. É mágico.


SP: Lembra também do tempo quando não existiam câmeras digitais? Acredita que as pessoas tinham mais preocupação com o ato de fotografar, uma vez que não havia a chance de apagar a foto ou vê-la na hora?
MC: Eu não sei se mudou muito, as pessoas sempre foram ávidas pelas imagens, de maneira a não se preocuparem tanto com o ato. O bom da fotografia naquele tempo era a espera e a surpresa, as manchas, as queimaduras, as ranhuras, o desfoque, a luz, que você só via depois de revelado, sem a chance de refazer. Hoje em dia é diferente, mas não para mim, nem para você, nem para aqueles que gostam da surpresa. O bom é capturar imagens, qual seja o dispositivo, e manter a memória visual daquele momento, daquela pose, daquele olhar. A busca é incessante e, para mim, é meu sentido de vida.

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Matheus Chiaratti
http://matheuschiaratti.com