Show: Secret Chiefs 3 – Sesc Belenzinho, São Paulo – 19/04/2012

20.04.2012 — Matérias, Música


É difícil ser objetivo na tentativa de traduzir a experiência de um show, especialmente quando se trata de uma de suas bandas preferidas de todos os tempos. Foi com esse pensamento que deixei o SESC Belenzinho, em São Paulo, na noite desta quinta-feira (19), após presenciar o que fez o grupo norte-americano Secret Chiefs 3 na Comedoria.

A banda liderada por Trey Spruance, que foi guitarrista e compositor do Mr. Bungle, subiu ao palco sem muito barulho por volta das 21h30 no belo espaço de uma das mais belas unidades do SESC. Mas, com duas áreas reservadas para a venda de comes e bebes, mesas espalhadas em um amplo salão e vidros por onde era possível ver a parte externa do local, temi que o som e o clima não fossem os ideais para abrigar o som do Secret Chiefs 3. De vez em quando, porém, é bom estar enganado. Felizmente essa era uma dessas ocasiões, quando as expectativas, que por alguns segundos variam consideravelmente, são alcançadas e superadas sem que você tenha tempo para pensar.

Logo percebi que o quinteto havia subido no palco sem muito barulho para fazer barulho. É impressionante como o som do Secret Chiefs 3 ganha uma pressão extra ao vivo e como os momentos pesados ficam ainda mais poderosos. Como é o som do grupo, você me pergunta? Bem, essa é uma das perguntas mais difíceis de responder para quem nunca os ouviu antes. Não dá muito bem pra classificar o que acontece quando tudo está junto e uma só sonoridade ecoa pelas caixas, mas entre as influências estão coisas como trilhas de Bollywood, música típica de países do Oriente Médio, trilhas sonoras, death metal e rock experimental. Mas, sendo bem sincero, citar um monte de referências assim realmente não tem muita serventia e qualquer descrição acaba parecendo conversa pra boi dormir.

No palco a conversa é outra, já que o show tem muito mais a ver com sentir do que explicar. Trey Spruance sempre teve uma preocupação muito grande com a produção de sua música (desde os tempos do Mr. Bungle), o que fica ainda mais perceptível ao vivo. Tudo é tão pensado para soar exatamente como se deve que os timbres chegam macios e redondos para quem está um degrau abaixo. O que é ótimo, pois a banda – especialmente seu líder – parece estar completamente à vontade e se divertindo com a apresentação, mesmo com roupas que devem esquentar tanto quanto terno e gravata em um dia de calor. Surpreende a limpeza sonora das músicas e a equalização perfeita dos instrumentos dá confiança aos músicos para que a única preocupação seja se entregar às canções.

Trey merece pelo menos um parágrafo para destacar sua trajetória. É incrível como desde o meio dos anos 90 ele vem construindo um som único com o Secret Chiefs. O que começou como um trio (com dois membros do Bungle), logo se transformou em sete bandas satélite (The Electromagnetic Azoth, UR, Ishraqiyun, Traditionalists, Holy Vehm, FORMS e NT Fan), que estão a serviço da criatividade do compositor, cada uma representando, de certa forma, uma das vertentes do som que o Secret Chiefs pretende fazer. Certamente um caminho que não foi fácil, claro, mas hoje os resultados são de tirar o chapéu. Ou você vai me dizer que já ouviu algo semelhante por aí?

Veja um trecho da apresentação:

Mas não dá para ir a um show do Secret Chiefs e não iluminar sua banda, já que a complexidade sonora é tão grande que somente músicos do mais alto nível conseguiriam estar ali. A começar por Ches Smith, assombroso baterista que chama a atenção pela precisão nos tempos rítmicos e na violência sonora quando as canções pedem – em muitos momentos é ele o grande homem da apresentação. Ao fundo, quase imperceptível, fica o excelente Toby Driver (Kayo Dot, maudlin of the Well) e, nos teclados, Matt Lebofsky. Por fim, temos Timb Harris (Estradasphere), o homem capaz de tocar praticamente qualquer instrumento de olhos fechados e que entrega a performance mais teatral – e visceral – do show. Trey, por sua vez, toca guitarra “comum”, saz elétrico, guitarra de 9 cordas (metade guitarra, metade saz), teclados, sampler e, sempre que pode, pula, gira e faz suas danças pelo salão, mesmo com a dificuldade técnica de tudo.

Tudo é tão unificado que quase dá para esquecer de comentar sobre o repertório do show, o que seria um pecado. Entre as músicas apresentadas estiveram composições quase todos os discos do Secret Chiefs 3. E, felizmente, o maravilhoso Le Mani Destre Recise Degli Ultimi Uomini não fica de fora (com coisas impossíveis de serem reproduzidas ao vivo, Trey usou um sampler para soltar certos detalhes das canções). Book M é lembrado em “Ship of Fools (Stone of Exile)”, “Combat for the Angel” e “Vajra (Rat Puriya)”, enquanto de Book of Horizons ouvimos “The 4 (Great Ishraqi Sun)” e “Book T: Exodus”, cover de Ernest Gold e uma das mais aplaudidas. Outras ótimas intepretações que apareceram no setlist são a ótima música-tema do Halloween, de John Carpenter e “Radar” (Bernard Herrmann), do 7″ lançado no fim do ano passado. Foi com o lado A (“Saptarshi”) deste compacto, aliás, que o grupo encerrou sua apresentação.

Ficou claro que a passagem de Trey Spruance com o Secret Chiefs 3 por São Paulo não será esquecida tão cedo. Por pouco mais de uma hora, o grupo transformou a Comedoria do SESC Belenzinho em um porão macabro ou numa caverna no meio do nada. Dificilmente foi possível prestar atenção em alguma outra coisa a não ser no palco. Mas, mais do que isso, as composições ricas em camadas, detalhes e muitos tons de preto e cinza conseguiram levar aos presentes a real sensação de que ninguém estava realmente ali ou que sequer pertenciam ao lugar. Em uma palavra: mágico.

O setlist:

“Zombievision”
“Personnae: Halloween” (John Carpenter)
“The 15”
“Fast”
“The 4 (Great Ishraqi Sun)”
“RFID Slaverider / Agenda 21 / Codex Alimentarius”
“Vajra (Rat Puriya)”
“Combat for the Angel”
“Radar (The Day the Earth Stood Still)” (Bernard Herrmann)
“Sophia’s Theme”
“Bereshith”
“Tistriya”
“Book T: Exodus” (Ernest Gold)
BIS
“Ship of Fools (Stone of Exile)”
“Saptarshi”