Entrevista: Aaron Warren (Black Dice)

Na ativa desde 1997, o Black Dice é um dos grupos mais injustiçados de sua geração. Mesmo fazendo um som vanguardista e arriscado, apresentando uma eletrônica cabeçuda, torta e quebrada como pouco se ouve por aí, além de influenciar nomes como o Animal Collective e lançar discos impressionantes a cada dois anos, o (hoje) trio de Nova York nunca recebeu de volta o reconhecimento e a atenção que merece. O ano de 2012 marca o lançamento do sexto álbum da carreira do grupo, o magnífico Mr. Impossible, possivelmente um dos melhores lançados nestes seis primeiros meses. Uma evolução natural do já ótimo Repo (2009), Mr. Impossible é um desafio às mentes fechadas e um abraço caloroso nos corpos abertos. Um álbum intenso e dançante, pronto para dar um nó em seu cérebro enquanto seus ossos não conseguem parar de se mover. Por essas e outras, foi um verdadeiro prazer poder entrevistar Aaron Warren, um dos membros da banda, que contou um pouco a respeito da trajetória do Black Dice e falou sobre seu novo álbum, a vida no Brooklyn e o show realizado no Brasil anos atrás.

Suppaduppa: Em primeiro lugar, como vai? Como está se sentindo neste exato momento?
Aaron Warren: Muito bem, cara, obrigado por perguntar. Apenas relaxando em casa com minha mulher e meu bebê. Me sentindo bem.

SD: Do que você mais gosta em sua rotina e do que mais odeia?
AW: Gosto das manhãs porque é quando tenho tempo para curtir com minha filha, mas odeio ter que acordar cedo! Gosto de ouvir música no metrô, porque esse é o “meu momento”. Pra dizer a verdade, gosto quando estou super ocupado e trabalhando bastante, quando tem milhões de coisas acontecendo com a banda e milhões de coisas com a família também. O único ponto negativo é que eu nunca consigo dormir o bastante. Mas na turnê é quando consigo ficar em dia com o sono.

SD: Como é essa rotina, aliás?
AW: Basicamente é família, trabalho, banda e aí algumas horas de sono. Meio que em proporções diferentes dependendo do dia.

SD: O Black Dice está na ativa desde ’97, então você deve ter visto vários tipos de modismo na música ao longo dos anos. Quais são os mais risíveis?
AW: Boa pergunta. Sim, em ’97 era meio que o screamo e o pós-rock, esse último basicamente a coisa mais abominável da música moderna em minha opinião. Então teve também o electroclash e o freak-folk, ambos muito hilários e ridículos, mas com algumas bandas boas sendo jogadas nesse saco por engano, como o ARE Weapons. Depois veio o punk-funk e, de novo, com algumas bandas boas no meio, muitas delas amigas nossas, mas verdadeiras merdas também, algumas das piores merdas de todos os tempos. Acho que dá pra dizer isso de qualquer gênero, do noise, hardcore, tanto faz. Ninguém quer ser encaixotado como o sabor do ano.

“Acho que [Mr. Impossible, disco novo do Black Dice] é um avanço sonoro e a composição das músicas está melhor. Acredito que estejamos ficando um pouco melhores enquanto ‘banda’, pelo menos para os padrões tradicionais da música”

SD: De onde vem a inspiração do Black Dice? Porque há muita coisa acontecendo no som da banda.
AW: Pra mim se tornou um projeto a longo prazo, para a vida toda. É sobre música, mas a coisa é um pouco mais profunda. É uma forma de viver a vida usando o instinto, com um pouco de esquisitice, alguma coragem e um certo descuido, mas com algo totalmente sólido, palpável e sustentável. Isso é uma coisa que eu e meus amigos construímos do nada e hoje em dia virou essa incrível plataforma para que possamos transmitir nossas ideias ao mundo. E eu tento trazer um pouco dessa abordagem para minha vida também. E isso vem, é claro, de ouvir horas e horas de punk, new wave e rock clássico em K7 quando eu era uma criança e depois adolescente. Ainda sou aquele moleque novo quando ouço música, é algo que preciso fazer todo dia.

SP: A banda toda vive no Brooklyn? O que o local significa pra vocês?
AW: Vivo no mesmo bairro desde que me mudei pra cá aos 12 anos de idade. Estou há alguns quarteirões do loft onde me encontrei com Bjorn e Hisham quando mudei pra cá em ’99. Eric vive em Bushwick e Bjorn está em Greepoint. Ainda estou em Williamsburg. Williamsburg está bem diferente de como costumava ser, está super caro e há muitos condomínios e bebês em carrinhos e coisas do tipo, então não é mais aquele lugar vanguardista que um dia foi. Mas eu ainda gosto daqui, é confortável pra mim e me sinto bem com a decisão de ficar no bairro mesmo sendo menos legal do que já foi um dia. Vivi aqui por mais tempo do que em qualquer outro lugar da minha vida, então pra mim é como um lar.

SD: Qual é seu equipamento favorito no Black Dice, algo que não pode ficar de fora?
AW: Eu meio que gosto de usar minha voz de formas que nunca usei antes. Tenho alcance e técnica vocais bem limitados, mas estou sempre tentando forçar a voz de novos jeitos, talvez mudando ao processá-la. Mas isso não é algo novo, de agora. Estou apenas começando a apreciar algo que pode ser uma das coisas mais únicas que tenho, mesmo que todo mundo também tenha.

SD: Repo é um disco brilhante, algo como uma festa onde todos estão derretendo por dentro. Quais eram os sentimentos de vocês quando estavam fazendo esse trabalho?
AW: Obrigado, cara! Não sei dizer, de certa forma acho agora que Repo é nosso “menor” disco, ainda que na época parecia ser o maior conceitualmente. Sempre sentimos que o álbum mais novo é o maior em termos da qualidade sonora e amplitude das ideias, alcance de seu apelo e todas essas coisas. Mas hoje em dia eu ouço esse trabalho e vejo o quão específico e focado em um nicho ele é. Nesse sentido, acredito que seja nosso menor disco, um verdadeiro álbum ao vivo e cru de garage rock/bodega hip-hop trash. Em um estilo totalmente festa do quarteirão pós-apocalíptica!

SD: Panda Bear disse uma vez que o Black Dice causou um grande impacto nele e em como ele cria suas canções. O que acha dessa declaração?
AW: Somos amigos do Noah [Lennox, nome verdadeiro de Panda Bear] e de todos os caras do Animal Collective desde ’99. Fizemos algumas turnês bem no comecinho de tudo com eles, acredito que a gente tenha levado eles na primeira turnê que fizeram pelos Estados Unidos. Então somos amigos, mesmo que atualmente a gente só se veja algumas vezes ao ano, tocando em shows e coisas do tipo, uma vez que todos moram longe. Mas o Animal Collective e o Panda Bear, toda a turma deles, são uma grande influência para nós também, além de pessoas totalmente sólidas e decentes, assim como artistas incríveis.

SD: Como é o processo de fazer música para o Black Dice?
AW: Acho que basicamente como o da maioria das bandas. Nos reunimos, bebemos algumas cervejas, fumamos um pouco, fazemos uma jam por algumas horas. Talvez depois de um ou dois anos de noites assim a gente consiga um disco que tenha um bom número de canções. Tocamos essas faixas, modificamos algumas ideias e entramos em estúdio.

“[O Black Dice] é uma forma de viver a vida usando o instinto, com um pouco de esquisitice, alguma coragem e um certo descuido, mas com algo totalmente sólido, palpável e sustentável. Isso é uma coisa que eu e meus amigos construímos do nada e hoje em dia virou essa incrível plataforma para que possamos transmitir nossas ideias ao mundo”

SD: O disco Mr. Impossible saiu recentemente. O que pode dizer desse trabalho?
AW: Como estava dizendo anteriormente, Mr. Impossible é o “maior” disco que fizemos até o momento. Tem um som sensacional, totalmente roqueiro, com o nosso jeito de criar pepitas pop. Claro que em alguns anos posso olhar pra trás e dizer: “é, talvez não fosse aquele álbum de festa que pensávamos ser”. Mas, neste exato momento, é nosso último volume nessa coisa futurista e alien boom box hardcore!

SD: Quais as principais diferenças entre Repo e Mr. Impossible?
AW: Realmente acho que é um avanço sonoro e que a composição das músicas está melhor. Acredito que estejamos ficando um pouco melhores enquanto “banda”, pelo menos para os padrões tradicionais da música. É um pouco mais grudento, um pouco mais focado na canção, com uma estrutura mais tradicional…

SD: Vocês já tocaram no Brasil. Como foi aquele show e do que se lembra daquela ocasião?
AW: O Tim Festival no Rio? Foi espetacular! Tocamos antes do Caetano Veloso, foi como um sonho! Mas geralmente não tocamos daquele jeito, geralmente nos apresentamos em casas de show que ficam em sarjetas e becos das grandes cidades ao redor do mundo. Queremos voltar!

SD: Voltariam pra tocar em locais menores, então?
AW: Sem dúvidas! Tocaríamos em um porão, se a gente conseguir fazer funcionar a logística. A maioria dos shows na casa de pessoas não costuma cobrir as despesas da viagem internacional, entretanto…

SD: Como será 2012 para o Black Dice? O que tem em mente?
AW: Fizemos uma turnê pelos Estados Unidos já e faremos uma pela Europa no segundo semestre. Acabamos de fazer uma trilha sonora para um museu de Portugal, foi bem legal. Sei lá, vamos tocando aqui e ali, apreciando a vida do disco. Quem sabe começaremos a trabalhar em coisas novas em breve.