Entrevista: Phil Elverum (Mount Eerie)

02.08.2012 — Entrevistas, Música

Em grande parte da minha vida, foi durante a madrugada que melhor lidei comigo mesmo. O silêncio da noite ajuda a pensar: a música, mesmo que baixinha, ecoa alto no fundo da mente; os movimentos são econômicos e silenciosos para não acordar ninguém; e o pensamento mais focado e preciso. A madrugada avança e eu estou terminando de ler e editar essa entrevista com Phil Elverum, uma grande companhia para noites comigo mesmo. Os ciclos se abrem e fecham a todo momento.

Não existe muita troca e justificativa em uma entrevista por e-mail, portanto a vergonha de achar que ele morava no meio do mato continua vergonha e a lamentação de parecer ter caracterizado sua música como solitária apenas continuará existindo, mas o resultado desses pequenos desentendimentos, dessas situações da vida, só deixam essa conversa com Phil muito mais importante para mim. Pois para além do que ele têm a dizer em perguntas diretas, sem muita conversa, ainda é sua arte que salta aos olhos. Sua música, suas fotos e, agora, suas respostas. Tudo vira um grande presente para quem presta atenção em Phil, pois quando abrimos os ouvidos e olhos para sua arte conseguimos admirá-la longamente e entrar numa longa viagem interna, onde Phil não é protagonista, apenas instigador ou uma presença misteriosa, forte e invisível, que podemos apenas sentir pairando no ar.

Suppaduppa: Você ainda vive em Anacortes, Washington? Há quanto tempo você está morando aí e como é a vida na floresta?
Phil Elverum: Eu vivo em Anacortes, mas não na floresta. Eu moro em uma estrada semi-movimentada no meio da cidade. Eu nasci aqui e fiquei até os 18 anos, quando me mudei para Olympia, Washington, onde vivi por cinco anos. Depois disso que voltei e comecei a morar no meio da cidade.

SD: Você pode descrever um dia normal para você? Existe uma rotina?
PE: Eu não tenho uma agenda precisa. Às vezes eu tenho que sair correndo logo depois do café da manhã e trabalhar no estúdio na mesma rua que a minha. Outras vezes eu passo duas horas lendo enquanto tomo um café e como algo e depois vou trabalhar no computador por horas e horas. De vez em quando eu vou nadar. Outras eu vou até o lago. Eu vou ao correio quase todos os dias para enviar pedidos e lidar com outras coisas. Eu estou sempre ocupado. Eu quase nunca me permito um tempo para não fazer nada, apenas ler ou tirar férias. Eu também odeio a sensação de estar na frente de um computador, mas eu sempre estou na frente de um agendando turnês, lidando com outras pessoas, fazendo a arte dos meus discos, etc. Eu vou dormir às duas da manhã.

SD: Você faz gravações ao ar livre? Você gosta de usar sons naturais em sua música?
PE: Eu não faço gravações externas. Na verdade, em Ocean Roar tem algumas gravações de crianças no parque, mas eu não fiz in loco. Meu estúdio fica do lado oposto a um parque então eu só tive que abrir a porta do estúdio e colocar o microfone na porta. Em alguns discos do passado eu usei pássaros e um pouco de vento, mas, geralmente, eu não quero ser tão literal com os sons da “natureza”. Eu quero fazer uma música que represente uma experiência completa em estar vivo, não só a “natureza”.

SD: Em Clear Moon e em Wind’s Poem é possível escutar uma forte influência de black metal. Você foi uma criança metaleira?
PE: Não, longe disso. É uma coisa recente, de 6, 7 anos para cá que ando curioso com o metal.

SD: Você fez uma seleção de vídeos no YouTube (veja aqui) que diz muito sobre sua música atual e o Burzum é também uma das favoritas do Suppaduppa. Se o interesse por metal é uma coisa atual, como ele começou?
PE: Como acontece com a maioria das pessoas, a minha introdução ao black metal norueguês veio pelas histórias sobre igrejas queimando e assassinatos. É um nicho de música underground bem fascinante e estranha. Na verdade, ouvir a música após as histórias foi um pouco decepcionante. Mas eu encontrei algumas músicas do Burzum que eu gostei, não pelo seu peso ou pela maldade, mas pela psicodelia de uns aspectos repetitivos. E o vídeo para “Dunkelheit” é muito bonito.

SD: Se você tivesse que recomendar livros em uma lista como essa que fez de vídeos do YouTube, como seria essa lista?
PE: Ultimamente, eu tenho lido livros históricos sobre Anacortes e os primeiros colonos do estado de Washington, então não sei se seria muito atrativo para as pessoas do resto do mundo. Mas tem sido ótimo ler os diários e textos originais desses primeiros colonos falando sobre a interação com os povos nativos, as árvores gigantescas e a floresta, e realmente conhecer o exato lugar sobre os quais eles estão escrevendo. Talvez minha recomendação seria para que as pessoas lessem sobre as histórias de suas cidades para entenderem como as primeiras pessoas viviam, pois talvez valha a pena considerar uma vida nessa “mellow scale” novamente.

SD: Pela primeira prévia de Ocean Roar, “Pale Lights” (ouça aqui), parece que esse álbum será bem mais pesado que Clear Moon. O que você pode antecipar sobre esse novo álbum? Ele realmente tem um som mais poderoso que Clear Moon?
PE: Definitivamente ele é mais pesado. São canções mais longas e mais instrumentais. É mais sobre o sentimento do caos opressivo e do barulho, como o som de ondas quebrando incessantemente.

SD: A capa, o encarte, o vinil e a arte de Clear Moon são muito muito bonitos, como costuma ser com seus discos. Você faz tudo sozinho?
PE: Sim. Obrigado. Tem algumas exceções no passado, mas geralmente eu faço toda a arte sozinho.

SD: Como tem sido gerenciar sua própria gravadora, a P.W. Elverum & Sun?
PE: Eu gosto de poder tomar todas as decisões de como um disco será feito, mas ao mesmo tempo eu não gosto de todo o tempo no computador que isso requer.

SD: Você também tira fotos. Como isso começou? Você está trabalhando em algo relacionado a fotografia nesse momento?
PE: O meu primeiro trabalho foi em uma darkroom de uma loja de câmeras. Foi quando comecei a tirar fotos. Eu tenho outro livro de fotos que pretendo lançar, mas ainda não comecei a juntar o material. Quero lançar alguns discos ainda.

SD: A capa de Clear Moon traz uma foto que você tirou na Noruega. Você pode falar um pouco mais sobre esse páis?
PE: Eu amo ir para a Noruega, normalmente. Essa foto foi apenas uma foto de sorte que tirei da janela da van enquanto dirigia de Oslo para Bergen quando estava em turnê alguns anos atrás. Eu fui para lá e fiquei um bom tempo no inverno de 2002/2003 e desde então voltei mais algumas vezes. É muito bonito, irreal e épico. Culturalmente, rola um sentimento de que estamos saindo com as crianças ricas e cool que são altas e cheias de saúde. Isso não é totalmente preciso, mas é o sentimento inicial.

SD: Que lugares ao redor do mundo você gostaria de visitar novamente?
PE: Eu visitei a Finlândia em abril deste ano e estou muito empolgado para voltar para ficar por um período maior. Mas, basicamente, eu fico empolgado em viajar praticamente para qualquer lugar, principalmente pros lugares mais frios.

SD: Qual é sua câmera preferida? E filme?
PE: Eu não tenho favoritos. Eu costumava usar sempre uma câmera velha e esquisita, chamada Mercury Univex II, mas não tenho usado tanto filme mais porque o modo de processamento do filme mudou e eu não consegui encontrar um processamento novo que funcione para mim.

SD: E o seu instrumento favorito e por quê?
PE: Eu amo o som de um baixo distorcido, ou gongo distorcido. São muito ricos, substanciais e complexos.

SD: Você descobre muitos artistas novos pela internet?
PE: Eu não descubro muitos artistas novos de um modo geral. Descubro alguns, mas na verdade eu não escuto a tanta música assim. Eu tenho amigos que me recomendam bandas de vez em quando. Tem tanta coisa no mundo para se prestar atenção. Eu, por exemplo, poderia passar o resto da minha vida tentando ler todos os livros que já tenho nas minhas estantes.

SD: Geneviève Castrée, sua esposa, canta em Clear Moon. Vocês costumam trabalhar juntos?
PE: É bem raro nós trabalharmos juntos. Nós somos muito protetores com nossos projetos individuais e gostamos de mantê-los privados quando estão em fase de produção. Mas a música que ela canta, chamada “Over Dark Water”, é perfeita para o seu estilo.

SD: Vocês têm planos de lançar alguma coisa juntos?
PE: Não

SD: Além de música e fotografia, você também pinta. Como você separa o tempo entre suas atividades?
PE: Tento não separá-las. É tudo parte do mesmo projeto.

SD: A solidão de sua arte é o aspecto que mais me atraiu em sua música e esse sentimento se mantém intacto, apesar de sua música ter mudado. Você acha que este é um sentimento que sempre aparecerá em sua arte?
PE: Eu não sei. Não parece solitária para mim, exatamente. Eu não pretendo fazer música solitária. Isolamento e individualidade são partes essenciais da minha existência, então eu faço músicas que falam da perspectiva de um indivíduo olhando para o resto do mundo à distância, mas não é exatamente solitário ou triste para mim, apenas realista. Nós ainda estamos presos dentro de nossas próprias perspectivas.

SD: O Mount Eerie é uma montanha de verdade? Onde fica e por que você nomeou sua banda assim?
PE: Sim, é uma montanha perto de Anacortes, onde vivo. Eu dei esse nome para minha banda porque gostaria de linkar minha música/arte com um lugar específico do globo, mas também porque a palavra “eerie” (estranho/misterioso) é interessante e assustadora. A ideia de uma “montanha misteriosa” pairando atrás de sua casa no escuro pode ser uma descrição do que estou tentando fazer com as minhas músicas. Eu quero criar um sentimento de uma presença forte e invisível ou uma ideia lembrada de grandiosidade. É abstrato e difícil para descrever, mas talvez você tenha pegado a ideia.