Entrevista: Matt Pryor (The Get Up Kids / The New Amsterdams)

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Gosto de e-mails. E eles parecem perigosamente nostálgicos perto do Gtalk, ou do Skype ou Messenger. Mas gosto daquelas letras em negrito, indicando mensagens novas na caixa de entrada. E esse negrito é ainda mais especial quando traz respostas de alguém tão conectado ao meu passado. O remetente é o Matt Pryor, voz do Get Up Kids e do New Amsterdams, e eu tenho medo de ele não ter respondido minhas perguntas sobre passado, história, desilusão amorosa e ingenuidade. Ele é de poucas palavras, mas não ignorou o que foi perguntado. E por mais que eu queira saber as respostas para essas mesmas perguntas que eu quis ter feito há 10, 12 anos, eu sei que o que importa é o tempo presente, no qual ele ainda compõe, grava, produz, canta. Ele pode até matar algumas curiosidades sobre juventude, mas ele também nos desafia a adivinhar qual será o próximo passo. E aí, o tempo acaba se tornando atemporal se você está trocando emails com Matt, relembrando situações e se perguntando como é que algumas muitas músicas ainda fazem tanto sentido, mesmo depois de tantos anos.

Racionalidades a parte, o Suppaduppa te convida a ler essa entrevista ouvindo, no player abaixo, algumas das músicas de Matt. Você pode ter uma sensação calorosa de que conhece esse cara muito bem.

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Suppaduppa: Oi Matt. Onde você vive agora e como é sua rotina?
Matt Pryor: Eu moro em Lawrence, no Kansas, e tenho passado bastante tempo com minha família e meu jardim.

SD: Quando você compõe e o que tem feito para se divertir?
MP: Eu tô dando um tempo nas composições. Pra me divertir, gosto de cozinhar e de jogar kickball. [Naquela noite, ele iria fazer uma paella]

SD: Vou lhe perguntar algumas coisas sobre o passado… espero que não se importe!
MP: Sem problemas.

SD: O Get Up Kids, assim como o New Amsterdams, cresceu de experiências D.I.Y. (faça você mesmo) e de muito trabalho, viagens e ajuda mútua. Essa maneira de conduzir as bandas era uma herança da cena hardcore norte-americana?
MP: A gente não tinha nenhuma conexão real com a cena hardcore mas ela pareceu nos abraçar. Nossa maneira de fazer turnês veio da vontade de tocar música quando não havia muitas oportunidades para isso em Kansas City. Então, tivemos que viajar para encontrar lugares para tocar.

“Ainda acho que não faz sentido [o termo emo]. A música tem que ser emotiva para que possa te despertar reação, te comover. Eu não entendo como nossas músicas eram mais “emotivas” que outras canções de outras pessoas. Só que esse nome pegou, o que você vai fazer?”

SD: Como foi a primeira turnê da Vagrant? Eu li no Nothing Feels Good que o Get Up Kids foi definitivo para que o Rich Egan [criador da gravadora Vagrant] acreditasse na possibilidade de excursionar com bandas novas pelos Estados Unidos.
MP: Nós não participamos da turnê da Vagrant.  Fomos o show principal em Chicago quarto vezes, mas não tinha nenhuma relação com essa turnê da Vagrant.

SD: Naquela época [1995], vocês tinham noção das mudanças que estavam provocando e que se tornariam tão essenciais para muitos jovens?
MP: A gente via que os shows iam ficando cada vez maiores, mas foi só isso.

Get Up Kids

SD: Naquela cena, vocês foram um dos pioneiros a explorar o poder orgânico de guitarra e baixo  aliados a sons eletrônicos extraídos de teclados. Quando ouvi bandas queridas como o Death Cab For Cutie ou o Postal Service pela primeira vez, eu imediatamente me lembrei da mistura de orgânico com eletrônico em “Mass Pike”. Vocês tinham consciência de que aquela foi uma música muito especial?
MP: Não, a gente estava tentando emular The Rentals e passamos a explorar bastante os sintetizadores mais antigos.

SD: Quando você percebeu que a música do Get Up Kids estava sendo rotulada como emo? Você se sente confortável com esse rótulo?
MP: Não, e ainda acho que não faz sentido. A música tem que ser emotiva para que possa te despertar reação, te comover. Eu não entendo como nossas músicas eram mais “emotivas” que outras canções de outras pessoas. Só que esse nome pegou, o que você vai fazer?

SD: Isso fazia sentido pra você?
MP: Não.

SD: O Braid lançou recentemente um EP, e há pessoas que acreditam que essa sonoridade vai voltar. O que você acha?
MP: Nem cheguei a pensar sobre isso. Mas fico feliz que o Braid esteja de volta. Eles são uma grande banda.

SD: Você poderia nos falar um pouco mais sobre a linha do baixo de “How You’re Bound”? Eu sei que essa é uma música muito especial para vocês e foi definitiva para reunir a banda [o GUK chegou ao fim em março de 2005, mas acabou voltando em 2008]
MP: Essa linha de baixo foi originalmente inspirada na sombria linha de baixo de “Single Ladies”, da Beyoncé. O resto da música foi levemente inspirada em uma canção do Yo La Tengo.

SD:  Quando e por que vocês decidiram voltar? Quem chamou quem? Teve alguém que precisou ser convencido da ideia?
MP: O Rob [Rob Pope, baixista] toca com o Spoon e eles estavam aqui pra um show. Nós todos saímos juntos depois da apresentação e já tinha passado tempo suficiente para que não mais estivéssemos esquisitos uns com os outros [a banda acabou por desentendimentos entre os membros]. A gente era amigo de novo. A reunião floresceu naquele momento.

SD:  Às vezes, a reunião de uma banda para produzir música nova acaba sendo um tabu. Vocês quebraram esse preconceito quando lançaram o Simple Science (2010), um EP recebido com carinho pelos fãs antigos, mas bonito o suficiente para atrair novos adoradores. Só que o disco There Are Rules (2011) já estava em fase de produção, então vocês não estavam exatamente preocupados com a aprovação do público, certo?
MP: Existem dois tipos de pessoas que gostam de uma banda. Aquelas que só gostam dos dois primeiros discos e aquelas que embarcam com a gente quando exploramos novos territórios. Você não consegue agradar todos, então é melhor fazer algo de que você goste.

SD: Você se dá bem com o Jim, o Rob, o Ryan e o James?
MP: Geralmente sim.

SD: O disco On a Wire (2002) foi uma grande quebra em algumas das ideias e sonoridades praticadas pelo Get Up Kids. Na sua opinião, por que os críticos reagiram tão negativamente ao álbum? Na época em que foi lançado, vocês se identificavam com aquelas músicas?
MP: A gente quis fazer algo diferente e isso foi recebido com choque por algumas pessoas. A gente poderia ter suavizado as mudanças, mas aí já é querer revisitar a história.

SD: Uma vez li que o processo de composição para o Get Up Kids era difícil porque ali havia cinco compositores. O New Amsterdams foi um alívio para a vontade de escrever mais e de se expressar mais?
MP: Sim. As duas situações são legais. Você pode ganhar muita inspiração ao compor com outras pessoas. Mas, em algumas horas, é preciso dar um tempo.

“O Rob [Rob Pope, baixista] toca com o Spoon e eles estavam aqui pra um show. Nós todos saímos juntos depois da apresentação e já tinha passado tempo suficiente para que não mais estivéssemos esquisitos uns com os outros [a banda acabou por desentendimentos entre os membros]. A gente era amigo de novo. A reunião [do Get Up Kids] floresceu naquele momento”

SD: Você pretende criar algum outro projeto paralelo?
MP: Já tenho. É o Lasorda.

SD: Você sempre escreveu músicas confessionais. Como elas te ajudaram a lidar com problemas ou situações complicadas?
MP: Às vezes, elas ajudam. Mas tem vezes em que elas me deixam mais irritado ainda. Depende da música.

SD: Poderia apontar uma música (do GUK ou do New Amsterdams) que te ajudou a superar uma situação ruim?
MP: Ah, não dá pra escolher uma música só.  Todas me ajudaram muito de alguma maneira.

SD: Por outro lado, tem alguma música tão confessional a ponto de deixá-lo completamente exposto?
MP: Não, porque geralmente eu escrevo de forma tão abstrata que ninguém consegue saber do que eu estou falando exatamente.

The New Amsterdams

SD: É doloroso ouvir músicas tão íntimas, escritas quando você era tão novo, numa idade em que você estava se tornando adulto e enfrentando situações complicadas?
MP: Não, mas algumas das performances vocais são péssimas e algumas letras, vergonhosas.

SD: Como você lida com o passado? O Matt de hoje preserva alguma característica do Matt daquela época?
MP: Eu acho que o passado desafiadoramente te molda, mas você não pode viver nele. Você tem que continuar olhando pra frente.

SD: Quais são seus planos agora? Há algum disco vindo, do GUK ou do The New Amsterdams?
MP: Eu tô dando uma pausa grande para colocar minha cabeça no lugar. Parece que o Get Up Kids fará alguns shows no ano que vem. Vamos ver.

SD: O que você tem escutado e assistido?
MP: Um monte de podcasts. “WTF?”, “Mohr Stories”, “Radiolab”, “Wiretap” e o disco novo do Avett Brothers.

SD: Sabe que, mesmo quando vocês tiverem 50 anos, vai ser difícil eu olhar pra você, Jim, Rob, Ryan e James como caras mais velhos, pois vocês têm uma ingenuidade e uma energia que sempre vão remeter a juventude. E eu espero que vocês tenham essa impressão de si mesmos…
MP: Você é a primeira pessoa a nos chamar de ingênuos, e eu adorei isso porque, naqueles anos, essa ingenuidade era completamente verdadeira. Só que, naquela época, a gente achava que sabia tudo.