Entrevista: Lee Fields

29.11.2012 — Entrevistas, Música


O fim do ano está chegando e com ele se aproxima aquela confraternização familiar, onde a única felicidade pode estar naquele tio que fala o que pensa, que bebe um pouco a mais, que extrai o melhor sentimento de todos da mesa com poucas palavras e distribui o genuíno amor. Lee Fields me parece um pouco esse tio. Ele usa palavras engraçadas, discorda e concorda na mesma resposta, ignora questões, mas a cada história que conta vemos um homem totalmente honesto e passional como a música que faz. The real cheese. Essa entrevista já é uma das mais importantes para nós não só porque estamos falando de um cantor soul maravilhoso, de alguém que começou sua carreira nos anos 70 e ainda lança discos lindos, que não devem em nada aos grandes lançamentos da fatídica década, mas porque a conversa flui como se estivéssemos compartilhando um turkey leg ou apenas comendo nozes antes da ceia. Lee Fields põe na mesa as paixões que viu e viveu e recebe de volta a mais genuína alegria de todos dispostos a eternizar o soul/a alma.

Suppaduppa: Apesar de ter muita coisa escrita por aí sobre você, nunca li nada muito aprofundado em português. Portanto, gostaria que você fizesse um resumo rápido sobre suas origens. Onde nasceu, como era sua vida, o seu cotidiano, e quando começou a cantar.
Lee Fields: Eu nasci em Wilson, Carolina do Norte, e a vida foi boa naquela época. Minha família não tinha muito, mas foi muito bom. Eu comecei a cantar quando tinha cerca de 14 anos de idade após ganhar um show de talentos no meu colégio em Wilson.

SD: Como é a sua vida atualmente? Onde vive e o que costuma/gosta de fazer quando não está cantando?
LF: Minha vida é ótima atualmente! Estou tendo a melhor época nesse estágio da vida. Quando não estou cantando, eu gosto de fazer churrascos e consertar e fazer coisas pela casa, aparar a grama e outras coisas. Eu moro num subúrbio de Nova Jersey, chamado Plainfield.

SD: Você mexe muito com o lado emocional e romântico do ser humano em suas canções. Você se considera uma pessoal passional?
LF: Sim, eu me considero uma pessoa bastante passional porque viver é ser passional se você quiser apreciar as grandes oferendas da vida.


SD: Nos últimos anos tem surgido muitos grupos inspirados pelo soul e funk dos anos 70, você consegue ver como o estilo evoluiu ao longo das décadas? O que antes era um estilo bem restrito, parece ser uma grande fonte de inspiração para gente do mundo inteiro.
LF: Eu acho que a evolução da música dos anos 70 vem de diferentes artistas dando um approach bem pessoal na música soul e funk.

SD: Como a sua música evoluiu desde que começou até hoje? Você alguma vez parou de fazer música e de gravar?
LF: Minha música evoluiu na medida que eu comecei a me informar, a ter um olho mais vigilante conforme o mundo mudava. Evoluiu também ao escutar as pessoas falarem sobre seus relacionamentos pessoais.

Eu nunca parei de fazer música, mas as coisas andaram um pouco devagar nos anos 80.

SD: E o The Expressions? Como você apresentaria a sua banda de apoio? São todos ligados aos seus primeiros lançamentos pela Desco, nos anos 90?
LF: Eu sempre apresento minha banda atual, o The Expressions, como uma das mais talentosas com quem já tive a oportunidade de trabalhar. E, sim, todos os músicos já tiveram bandas em comum uns com os outros.


SD: Tem algum artista ou banda que era uma grande influência para você décadas atrás e que você ainda escuta e gosta muito? Você pode falar um pouco sobre a passagem do tempo para o soul? Como é escutar aos antigos discos funk e soul hoje em dia?
LF: Sendo que a musica soul vem da alma e a alma é do Espírito, e o Espírito é infinito, então é possível dizer que o soul não tem tempo de validade. Escutar à musica que eu costumava escutar anos atrás ainda é ótimo para mim, ainda me dá muito prazer.

SD: A música gospel já fez ou faz parte da sua vida?
LF:  A musica gospel é e sempre será parte da minha vida.

SD: Discos como Problems e Let’s Get a Groove On tinham uma marca funk mais forte do que My World e Faithfull Man, por exemplo, onde você parece encarnar o cantor soul mais explicitamente. O que mudou ao longo desses anos?
LF: Na verdade, eu acho que My World e Faithful Man são álbuns mais soul que The Problem. O grupo decidiu por um outro approach. Em outras palavras, nós decidimos colocar mais baladas e ser um pouco mais intimista. O soul continua lá. Acredite, o soul continua lá.

SD: Como foi a gravação de My World e, tecnicamente, o que mudou para Faithful Man?
LF: Na verdade, com Faithful Man houve uma mudança nos equipamentos de gravação. Nós gravamos em um período de tempo bem menor com equipamentos de gravação mais precisos. Eu tenho que elogiar ao engenheiro de som do disco, Jeff Silverman. Ele foi capaz de usar toda sua técnica de gravação para elevar a qualidade de som a um outro nível.

SD: Uma das melhores coisas do novo disco são os backing vocals. Eles parecem mais evidentes e dão um ótimo balanço ao álbum. Quem faz esses backing vocals?
LF: Os backing vocals são de alguns membros do Expressions, Nicole Wray, originalmente do time de Missy Elliott, e eu.

SD: É muito comum um disco de soul começar com uma música com um refrão muito potente, com um single. E “Do You Love Me (Like That Way You Do)” e “Faithful Man” são duas das suas canções mais potentes. Você também enxerga assim?
LF: Sim, eu concordo totalmente. Bom, é nossa tradição. Ha ha ha.


SD: Você escuta ao soul feito atualmente? Existe algum artista ou grupo que destoa ou sempre estaremos olhando para trás quando falamos de soul e funk?
LF: Sim, eu ainda escuto soul hoje e também escuto a todos os tipos de música para estar sempre atualizado, no “topo das coisas”, você sabe do que estou falando.

SD: Diversas faixas suas já foram usadas para batidas de canções hip-hop. Qual a sua relação com o hip-hop? Você gosta de ouvir sua música reutilizada por outros artistas? Qual foi a sua reação quando o movimento hip-hop começou a crescer no começo dos anos 80?
LF: Eu amo o hip-hop. Para ser sincero, eu amo todo tipo de musica. Eu gosto quando um artista usa uma musica minha. Você sabe, eu só quero estar na mix. É assim que os artistas continuam aí por um longo tempo.

SD: Artistas como Sharon Jones, Charles Bradley, Aloe Blacc e outros já vieram tocar no Brasil e a resposta do público sempre foi muito positiva, você pretende vir ao pais um dia?
LF: Sim, eu adoraria tocar no Brasil um dia. Espero que seja logo. Eu descreveria meus shows como emocionantes para corações e almas de pessoas com o espírito do amor e também com muita energia e emoção