Top 25 Suppaduppa — Discos de 2012: 1 – 10

21.12.2012 — Matérias, Música

1
Swans
The Seer
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Estava semiconsciente, pronto para cerrar meus olhos pesados em mais um sono profundo, quando senti uma respiração na minha cara. Abri meus olhos e não enxerguei muita coisa no meio do escuro, sem óculos, mas sabia que ali a menos de um metro de distância, um par de olhos me encarava. Por duas horas fiquei imóvel, olhando para o teto, ouvindo The Seer fluir pela mente do início ao fim e, muitas vezes, mesmo contra a minha vontade, prestava total atenção em cada grito, em cada frase, em cada guitarra pesada, na linda melodia de “Song for a Warrior”, em cada aterrorizante segundo de “The Seer” e em cada batida do bumbo que parecia prestes a estourar a qualquer momento. Ao fim das duas horas o bumbo ainda vibrava e as vozes ecoavam pelo quarto vazio, já não sentia os olhos me encarando, mas nem por isso consegui dormir. Passados dez minutos após os primeiros raios de sol invadir o quarto, olhei ao redor e não vi nada, nenhum par de olhos a não ser os meus, que queimavam de cansaço. Mas Michael Gira e seu Swans já tinham deixado a sua marca sem deixar o medo impresso na cara ou o rastro de sangue no chão. The Seer havia chegado ao fim e 2012 já não era o mesmo. (Denis Fujito)

2
Frank Ocean
Channel Orange
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Ninguém fez mais barulho em 2012 do que Frank Ocean. Seja por ter dito em uma carta aberta ao público que seu primeiro amor foi alguém do mesmo sexo, seja por ter se desprendido do coletivo Odd Future para virar um verdadeiro artista, seja por ser querido por nomes como Jay-Z, Kanye West e Beyoncé. Quando pensamos nisso, por um minuto quase nos esquecemos do que mais importa: Channel Orange, seu segundo e maravilhoso disco. O R&B nunca foi tão moderno e necessário como em 2012, e isso deve muito a Frank Ocean e sua sinceridade musical. Canções como “Thinkin Bout You”, “Sweet Life” e “Super Rich Kids” nos fazem acreditar que ainda existem pessoas põe o coração na ponta do lápis. Como uma espécie de Stevie Wonder/Marvin Gaye dos tempos atuais, Frank Ocean nos presenteia com hits para se emocionar, cantar junto ou apenas balançar a cabeça, além de uma produção estupenda com muitos baixos, sintetizadores e momentos de grandiosidade quando necessários. Não dá para deixar de citar também a épica “Pyramids”, a grudenta “Lost” e, por fim, a participação inesquecível de Andre 3000 em “Pink Matter”, com alguns dos versos mais sensacionais de 2012. Não é difícil encontrar um (ou vários) motivos para gostar de Channel Orange. Seja ele qual for, a verdade é que este trabalho vai permanecer ao seu lado por muitos e muitos anos. (Flávio Seixlack)

3
Scott Walker
Bish Bosch
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A carreira de Scott Walker é tão singular dentro do mundo da música quanto seus próprios discos. Ele, que começou nos anos 60 com um sunshine pop tanto como artista solo quanto com o Walker Brothers, nos surpreendeu na década de 90 com o bizarro Tilt e, já nos anos 2000, com The Drift. Seria correto afirmar, portanto, que não seríamos pegos de calças curtas novamente. Certo? Errado. Porque por mais que já esperássemos algo “diferente” dessa vez, acostumados com essa “nova fase”, Bish Bosch surpreende em todos os sentidos: tanto nas letras escatológicas, abstratas e completamente de outro mundo, quanto nas melodias pesadas, quebradas, tortas e nas mudanças bruscas de gêneros entre as músicas (e às vezes dentro da própria faixa). A voz de Scott, como já se sabe, já não tem o mesmo vigor de outrora, mas nem por isso deixa de chamar a atenção com sua potência e presença. O timbre grave do cantor norte-americano ainda continua marcante e são faixas como “Corps De Blah”, “Epizootics!” e “Tar” que nos mostram que, surpreendentemente, Scott Walker talvez seja tão ou mais relevante hoje em dia do que foi no passado. Bish Bosch é uma obra-prima completamente atemporal que parece ter saído do nada, mas que significa tudo e mais um pouco. (Flávio Seixlack)

4
Neneh Cherry & The Thing
The Cherry Thing
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Pode parecer estranho um álbum composto por covers em 75% do seu total ser um dos dez melhores lançamentos do ano. Porém, quando você escutar as versões que a até então esquecida Neneh Cherry fez com o grupo The Thing você vai compreender que não estamos falando de um disco de covers, mas de um dos ressurgimentos mais inesperados e surpreendentes de 2012. As versões que Neneh Cherry e o The Thing fizeram para canções de Madvillain, The Stooges, Suicide e outros, por si só, já revelam um bom gosto tremendo na escolha, e quando percebemos que Neneh lida perfeitamente bem com cada nuance de The Cherry Thing, como, por exemplo, o turbilhão da linha de saxofone de “Dirt”, o baixo potente de “Dream Baby Dream” e a saída magistral para “Accordion” é quando estamos entregue ao charme desse álbum corajoso, que poderia resultar em um funeral tardio de Neneh Cherry, mas que marca o ressurgimento da sueca de volta à música pop, com muito respeito ao jazz do The Thing. (Denis Fujito)

5
The Congos / Sun Araw / M. Geddes Gengras
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A colaboração entre o produtor M. Geddes Gengras, o experimentalismo/psicodelismo de Sun Araw, ou Cameron Stallones, e o legendário grupo de reggae jamaicano The Congos não resultou em uma mescla de estilos e influências, mas em um disco de pequenos mantras que parecem ter sido juntados por um Black Dice lesado. Sente-se de cara o dedo de Cameron quando “New Binghi” abre o álbum com o que parece ser membros do Congos falando entre linhas de teclado tocadas a esmo. Mas a partir daí as faixas se transformam em mantras perfeitos tanto para Sun Araw impor sua psicoledia como para o The Congos cantar e batucar livremente. Essa combinação só funcionou perfeitamente porque parece não ter havido um encontro constrangedor entre americanos donos da sabedoria e jamaicanos ressabiados. “Happy Song”, uma das faixas do ano, mostra com a simplicidade que o reggae muitas vezes clama como a música fala mais alto: “Let us play the music / Let us sing the song / Let us dance and play / Music all night long”. Do que mais precisamos? (Denis Fujito)

6
Karriem Riggins
Alone Together
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Baterista de jazz, beatmaker, produtor, DJ, rapper… chame Karriem Riggins do que quiser, já que seu currículo é, de fato, muito vasto. Com toda essa rica bagagem no porta-malas, fica difícil acreditar que só em 2012 tivemos a oportunidade de colocar na estante um álbum de alguém tão talentoso quanto ele. Porque a qualidade musical de Alone Together, em sua essência um disco de beats e a estreia de Karriem Riggins, nos remete a maravilhas como Donuts, de J Dilla ou a série Beat Konducta de Madlib. Alone Together é formado por 34 faixas curtas que misturam rock, jazz, música brasileira, rap, soul, psicodelia e trilhas sonoras com muito charme e uma produção que merece ser ouvida com um bom headphone para que cada detalhe seja pescado. Queremos mais, sr. Riggins. E queremos o quanto antes. (Flávio Seixlack)

7
Mount Eerie
Clear Moon / Ocean Roar
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As palavras de Phil Elverum, em entrevista ao Suppaduppa, ao dizer que gostaria de criar uma presença forte e invisível e por isso nomeou sua banda Mount Eerie, ou montanha misteriosa, ficam batendo na minha mente sempre que escuto a um disco de Phil. Não saberia dizer desde quando ele tem essa ideia na cabeça, mas consigo perceber que com o Microphones Phil era muito mais personagem central e músico do que uma presença. Clear Moon e Ocean Roar, os dois álbuns lançados pelo Mount Eerie esse ano, ao contrário, são duas forças em forma de música que simplesmente existem e exercem sua influência. A primeira mais externada, cantada, aparece de forma sutil entre a neblina e o som de um violão obscuro, entre o canto melancólico e a lua redonda lá no alto. A segunda, mais pesada e instrumental, surge entre a imponência da floresta densa e o bumbo que bate pesado, entre o som das ondas quebrando e a guitarra persistente que some aos poucos, tensa. Ambas, juntas, formam um conjunto de canções/forças capaz de hipnotizar, envolver e mostrar ao mais descrente dos seres humanos alguns lugares escondidos de sua pobre alma que ele jamais imaginou existir e, muito menos, encarar. (Denis Fujito)

8
John Zorn
The Concealed
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Com a quantidade de discos lançados por John Zorn anualmente, é natural que nem tudo seja impecável. Para nós, por outro lado, fica complicado acompanhar o frenético ritmo do compositor e dar a merecida atenção a cada um de seus trabalhos. Mas, de vez em quando, o nova-iorquino consegue nos abençoar com um bloco musical que nos faz lembrar porque ele é um dos mais importantes nomes da música desde os anos 80, mesmo que boa parte do grande público continue ignorando isso. The Concealed é um destes álbuns. Lindamente construído e executado (por uma banda que inclui, entre outros, Joey Baron, Trevor Dunn, Mark Feldman, John Medeski), o disco é a combinação perfeita entre dois grupos de Zorn: Bar Kokhba e The Dreamers. Traduzindo, isso quer dizer que a mistura aqui é entre música judaica (klezmer), exotica, jazz e até surf music de vez resultando em beleza, elegância e luxo através de arranjos magníficos de instrumentos de cordas, piano, baixo, bateria e vibrafone. Simplesmente indispensável. (Flávio Seixlack)

9
Grimes
Visions
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A eletrônica da canadense Claire Boucher é simples, mas muito esperta. Ela, que produziu tudo em Visions, acertou por encontrar atalhos para evitar esbarrar em suas deficiências e seguiu por caminhos interessantes dentro do gênero, com beats duros e secos, poucos elementos de teclado, alguns graves e muitas vozes sobrepostas. O resultado é um disco que, com ou sem a influência do hype ao qual foi cercado, certamente está entre os grandes lançamentos do ano. O sucesso, claro, aconteceu principalmente graças a “Genesis” e “Oblivion”, inegáveis hits e duas das faixas que mais passaram por nossos ouvidos em 2012. Os clipes dessas músicas foram inclusive responsáveis por causar uma paixão arrebatadora pela desajeitada, charmosa e esquisita Grimes em muitos marmanjos por aí. Diga o que quiser, meu caro, mas fato é que Visions é o álbum de dance music que todos nós gostaríamos de ter ouvido durante os anos dourados da Jovem Pan, o punhado de canções que gostaríamos de ter dançado em boates espalhadas pelo Brasil no meio dos anos 90, o abraço apertado que gostaríamos de ter dado naquela estranha colega de classe que ficava no fundo da sala quando adolescentes. (Flávio Seixlack)

10
Chrome Canyon
Elemental Themes
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Quase não dá pra acreditar tudo o que ouvimos em Elemental Themes foi tocado por instrumentos analógicos dos anos 70 e 80. Mas aí você começa a prestar atenção nos timbres e vê que aquilo realmente só pode ter sido feito por algo de verdade e não por computadores. A música eletrônica do Chrome Canyon é muito mais orgânica do que se pode imaginar. E nos faz imaginar cenários tão belos quanto os de Blade Runner, as pistas de Top Gear, o universo de John Carpenter ou os filmes mais oitentitas de Dario Argento. Os rótulos são vários: spacesynth, eletrônica progressiva, space disco, electro-disco… Ignore todos eles e encontre o seu. Eu chamo de futuro, ou o futuro como imaginado no passado em notas musicais. Também chamo de décimo melhor disco de 2012. (Flávio Seixlack)


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