10 discos britrock de 2003

13.03.2013 — Matérias, Música

Em março de 2013, faz exatamente 10 anos que eu, ou uma versão bem jovem minha, foi para Londres. A sensação de uma vida que se passou ao longo desses dez anos ou de que aquela era exatamente uma versão minha é tão forte, quanto mentirosa. Porque aquele menor de cabelo repartido no meio, cara estourada e cheio dos ideais foi logo vendo que a vida era muito mais que um intercâmbio com imigrantes ricos e cheirosos e assistir a “bons shows”, a vida era também entregar panfletos, morar com falsificadores de passaporte e chorar por não ter dinheiro para ver os bons shows. Então eu tentava me virar. Ouvia CDs na HMV, Virgin e Tower Records, todas hoje extintas para provar que em dez anos pode se passar uma vida, via shows esporadicamente e saía com imigrantes pobres e razoavelmente cheirosos. Aquele sou eu e escutar aos discos que adorei é uma viagem, uma vergonha emocionante. Convido, então, cada um a entrar nessa intimidade (talvez uma das maiores já expostas por mim no Suppaduppa) e relembrar comigo alguns dos hits e álbuns que fizeram o britpop do primeiro semestre de 2003.

__________

Radiohead
Hail to the Thief
(Parlophone; 2003)

Não teve lançamento mais simbólico para o britpop do que Hail to the Thief em 2003. Isso eu vi com os meus próprios olhos. Após Kid A e Amnesiac balançarem as estruturas dos fãs do britpop, a primeira coisa que se ouviu em Hail to the Thief foi a guitarra de Johnny Greenwod ser plugada no amplificador. E se o que se ouviu na sequência, ao longo das 14 faixas, não foi a melhor coisa que o grupo fez após Kid A eu quero que um raio parta minha cabeça ao meio. Muitos discordam e discordarão, mas a mistura bem elaborada do britrock que eles aperfeiçoaram com o eletrônico que eles aprenderam a fazer é preciso no single “There There”, em “Where I End and You Begin”, “The Gloaming”, “Myxomatosis“ e “Scatterbrain”.

The Thrills
So Much for the City
(EMI / Virgin; 2003)

Muitos dirão que o The Thrills era muito meloso e bonitinho, mas em uma lista de brit pop dos anos 2000 teremos muita balada melosa e hits bonitinhos, canções perfeitas para se colocar na mixtape dedicada à sua paixão platônica. E por mais que So Much for the City seja muito correto, alguns hits desse álbum são simplesmente inesquecíveis. Tive a oportunidade de vê-los tocar em um pocket show da Virgin Records e a diversão para aquelas dezenas de pessoas que enchiam uma loja de CDs era tamanha que eu tinha certeza que fazia parte da maior descoberta musical do ano. Apesar do equívoco, ainda considero “Santa Cruz”, “Big Sur” e “Don’t Seatl Our Sun” um dos melhores inícios de álbuns do britpop.

Athlete
Vehicles and Animals
(EMI; 2003)

Falando em fofurice, Vehicles and Animals, o álbum de estreia do Athlete, talvez tenha sido o ápice do ápice do pós-Coldplay em 2003. E eu sinto vergonha de falar sobre esse disco dez anos depois e admitir que eu curtia, mesmo entendendo que eu era jovem e facilmente influenciável, mas a verdade é essa mesmo. Eu conheci o grupo em uma das muitas tardes que passava em lojas de discos procurando e procurando discos que nem eu sabia quais. Vehicles estava em um desses players com 10 álbuns, ouvi, gostei e comprei esse CD recheado de canções genuinamente alegres. Simples assim. E escutando ao álbum agora (passando umas boas faixas), a minha vergonha passou. Um pouco.

Mogwai
Happy Songs for Happy People
(Matador; 2003)

Não diria que Happy Songs for Happy People foi um dos álbuns que mais vendeu no Reino Unido em 2003, mas havia uma festa particular para ele nas lojas. O meu amor por Rock Action, um ano antes, era tão grande que eu imaginava que todo inglês ouvia Mogwai em casa. Não era verdade, pessoal. E por mais que tenha escutado a Happy Songs diversas vezes na vida, esse sem vergonha, ironicamente, ou não, esse é um dos poucos discos dessa lista que não possuo. Comprei CDs do Sparklehorse, do Songs: Ohia e de muitos tristões, me afundei na melancolia do clima nebuloso e na solidão em terras distantes, mas não o fiz com Happy Songs for Happy People.

The Darkness
Permission to Land
(Atlantic; 2003)

A verdade é que eu nunca ouvi Permission to Land do início ao fim, só “I Believe in a Thing Called Love”, como muita gente. O grande hit de 2003, pelo menos nos meses que vivi em Londres. Minha irmã disse que a música ainda toca na 89 e resume qualquer coisa que eu poderia dizer sobre a canção (e sobre a rádio). Em um desses pocket shows da HMV, o Darkness fez um show para centenas de pessoas que se amontoavam entre as prateleiras da loja para ver um ser de macacão brilhante e peito à mostra ser carregado pela massa que gritava: “I believe in a thing called love!”. É essa hora que eu digo que estava de passagem pela rua e ninguém acredita. Mas não me envergonho de estar passando na hora certa e no lugar certo porque essa música é um dos hits dos anos 2000, desculpa.

The Crimea
Tragedy Rocks
(Warner Bros; 2004)

Tragedy Rocks é de 2004, mas eu fui assistir a um show do Crimea em 2003 e saí embasbacado do pequeno Bar Fly. A voz de David McManus era bizarra e tremida, a guitarrista Julia Parker era uma virtuosa, para os meus padrões da época, e o conjunto no pequeno palco promovia um show lindo. Soube mais tarde que John Peel também era apaixonado pelo grupo e, devo dizer, John Peel não estava errado! “White Russian Galaxy”, “Lottery Winners on Acid”, “Baby Boom” e “Bad Vibrations” foram algumas das canções que me fizeram apaixonar por esse grupo até hoje desconhecido. “No one said it was going to be easy, darling. / It won’t get better / No one said it was going to be fun / It won’t get better

Feeder
Comfort In Sound
(Universal; 2002)

Comfort in Sound é de 2002, mas o que eu via de pôster, propaganda em revista e CDs do Feeder era uma enormidade. Ouvindo ao álbum eu não estou certo se estou no post do britpop ou do alt rock americano anos 90, mas sabendo que os dois estilos se cruzam aqui e ali eu vejo o Feeder como um bom representante do estilo norte-americano no Reino Unido. “Helium” cheta até a ter um peso meio nu-metal nas guitarras e o single “Come Back Around” um refrão digno de um Everclear, mas ainda é possível ouvir os ares britânicos em “Just the Way I’m Feeling”, “Forget About Tomorrow” e “Summers Gone”. Enfim, Comfort In Sound não soava como uma tremenda porcaria, mas, hoje, soa tão datado que não fui capaz de ir até o fim.

Super Furry Animals
Phantom Power
(XL; 2003)

Phantom Power é um baita disco. Ele acaba ficando na sombra de Rings Around the World (2001) por o mesmo conter alguns dos hits mais pop do grupo, mas Phantom Power é sensacional do início ao fim. Talvez seja forte declarar, mas esse, até hoje, é o último grande lançamento do grupo, assim como Hail to the Thief é para o Radiohead. Entre hits como “Golden Retriever”, “Hello Sunshine” e “Venus & Serena”, Gruff encaixa canções complexas e maravilhosas como “Cityscape Skybaby”, “Valet Parking” e “Father Father”. Um disco atemporal, excelente há dez anos e hoje.

Turin Brakes
Ether Song
(Astralwerks; 2003)

Eu comprei Ether Song para dar de presente para miniha irmã. Essa frase resume o som da dupla: folk à Kings of Convenience com uma boa dose de drama para meninas com vinte e poucos anos sobrevivendo o fim dos anos 90. Antes de voltar pro Brasil, porém, fui eu que escutei ao álbum. O drama de Ether Song e The Optimist LP, o álbum de estreia, podem cansar um pouco hoje em dia, mas ainda consigo ouvir a faixas como “Average Man”, “Falling Down” e “Stone Thrown” com uma alegria saudosa. Como é o clima dessa matéria.

British Sea Power
The Decline of British Sea Power
(Rough Trade; 2003)

O British Sea Power foi outro grupo que conheci nos palcos. Eles abriram o show do Interpol no Shepherd’s Bush Empire e, mesmo de longe, eu me senti arremessado na parede. Quem já viu a um show do grupo no início da carreira sabe como um dos membros andava pelo palco com um chapéu de metal batendo um bumbo em uma marcha solitária, enquanto o restante do grupo descarregava toda a energia acumulada em linhas de guitarras fortes e altas. Um dos melhores shows que vi na minha breve passagem pelo país de um dos já grandes grupos do rock inglês a realmente se firmar nos anos 2000. Não tenho dúvidas que em 20 anos, o British Sea Power será uma das bandas mais exaltadas do Reino Unido pela discografia, pela estranheza e pela energia e The Decline of British Sea Power será o hino à bandeira.