10 momentos musicais históricos dos filmes de John Hughes da década de 80

27.08.2013 — Matérias, Música

john-hughes-4
Às vezes as pessoas tentam definir um filme, um disco ou um livro como sendo o grande representante de suas vidas. Às vezes a gente acredita para valer que determinada pessoa entende os nossos mais profundos sentimentos, que um fulano sozinho é capaz de traduzir todas as nossas angústias e ideologias em uma obra de arte, que as nossas vidas não seriam nada sem os nossos ídolos. Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off), como a grande maioria das obras “unânimes”, talvez seja um dos exemplos mais usados de “filmes da vida” para quem cresceu nos anos 80/90. Na verdade Curtindo a Vida Adoidado é talvez um dos filmes mais assistidos e amados de toda uma sorte de pessoas à procura de um herói numa segunda-feira ociosa. O filme provavelmente está no topo da lista de melhores filmes de milhares de jovens adultos e com certeza é assunto até hoje nos almoços da Berrini, da Vila Olímpia, da Barra da Tijuca, de São Petersburgo e na Chicago de John Hughes. Fato.

Mas Ferris Bueller não é nem de perto o personagem mais forte e marcante dos filmes de John Hughes. Toda a autoconfiança e a fama escolar de Ferris o transformou no herói que eu, particularmente, não me interesso muito e que ao longo de toda a década de 80 também pouco interessou a John Hughes, o gênio (herói) dos filmes da sessão da tarde. O foco de John sempre foi nos geeks rejeitados, na filha esquecida no dia de seu aniversário, nos moleques com mil problemas com os pais, na menina baterista e meio sapatão, no mecânico/artista que não quer fazer faculdade, no gordo inconveniente ou então no tio quarentão que só quer saber de boliche e apostas. John se especializou em retratar os perdedores, principalmente os adolescentes, de um jeito maravilhoso e esse post é para jogar luz nos filmes que ele escreveu e/ou dirigiu ao longo dos anos 80 e como as músicas utilizadas foram de suma importância para cravar de vez os filmes de John como os preferidos de toda uma geração de perdedores e vencedores. E vice-versa.

Confira a nossa lista com 10 momentos musicais históricos dos filmes de John Hughes dos anos 80 e entenda um pouco mais como a sua arte despretensiosa virou sinônimo de comédia de fim de tarde para muitos, mas de pura sabedoria para a gente.

1. Spandau Ballet – “True” (Sixteen Candles / Gatinhas e Gatões)

Parece simplório colocar os adolescentes de John Hughes lá ou acolá, entre os nerds ou os populares, mas é o que acaba acontecendo nos seus primeiros filmes. Porém, em Gatinhas e Gatões, Molly Ringwald é uma menina normal. Não está nem lá e nem cá e por isso está nos dois lados, interagindo e conectando os dois mundos. E, quando no famoso baile, Spandau Ballet embala a dança a dois do amor de Molly com a menina perfeita é quando começamos a entrar nos momentos emocionantes do filme, logo interrompido por uma dancinha maravilhosa de Anthony Michael Hall.


2. Simple Minds – “Don’t You (Forget About Me)” (The Breakfast Club / O Clube dos Cinco)

A entrada de The Breakfast Club, ou O Clube dos Cinco, é uma das mais icônicas dos anos 80 justamente pelo hit do Simple Minds, “Don’t You (Forget About Me)”, que desembocará nas áspas do David Bowie, explicando muito bem o filme e como John Hughes dá uma verdadeira vida aos seus adolescentes. “…and these children that you spit on as they try to change their world are immune to your consultations. They’re quite aware of what they’re going through…” Revelador, no mínimo.


3. Karla DeVito – “We are Not Alone”  (The Breakfast Club / O Clube dos Cinco)

Essa é certamente uma das três cenas musicais mais amadas dos filmes de John. Uma cena que não deixa dúvidas sobre a época. Você me pergunta: quem é Karla DeVito? Não faço ideia, mas “We Are Not Alone” é bregamente grandiosa e por definir tão bem uma época a cena é a que mais volta à mente quando falamos de John e dos anos 80, porque só nos anos 80 uma música tão bizarra quanto essa faria tamanho sucesso.


4. Oingo Boingo – “Weird Science” (Weird Science / Mulher Nota Mil)

A música-tema de Weird Science, ou o clássico Mulher Nota Mil, foi feita pelo Oingo Boingo e isso por si é suficiente para a canção entrar nesses melhores momentos. E quando a música entra de fato em cena juntamente com os créditos iniciais e os efeitos especiais sabemos que estamos prestes a assistir a um dos filmes mais inspirados da década. Mulher Nota Mil é um dos meus preferidos dessa lista porque quando lidamos com um John destemido e com a imaginação livre temos algumas das cenas mais genuinamente engraçadas.


5. The Beatles – “Twist and Shout” (Ferris Bueller’s Day Off / Curtindo a Vida Adoidado)

Creio que podemos resumir toda a glória de Ferris Bueller com essa cena na qual o jovem Matthew Broderick protagoniza e lidera toda uma parada de rua cantando “Twist and Shout”. Uma cena gloriosa e tão impactante que até o seu amigo Cameron Frye, desconfiado dos movimentos de Ferris o filme todo, se rende e sorri um sorriso verdadeiro.


6. Otis Redding – “Try a Little Tenderness” (Pretty in Pink / A Garota de Rosa Shocking)

Das três cenas mais famosas que comentei, acho que essa é a mais bonita. “Try a Little Tenderness” na voz de Otis Redding é cem vezes mais bonita que o pote de ouro no fim do arco-íris possível com Karla DeVito e muito mais emocionante e empolgante que “Twist and Shout”, John Cryer é carismático e o seu personagem mais ainda. Pretty In Pink não foi dirigido por John, mas dá para ver toda a sua ideologia de vida na história e na personalidade da personagem representada por, sempre ela, Molly. Uma cena lindíssima que garante um lugar muito melhor para John Cryer em nossas mentes. Aliás, John Hughes já garantiu um lugar bem bonito em nossas memórias para Macaulay Culkin, John Cusack, John Candy, Steve Martin, Alec Baldwin e etc.


7. The Rolling Stones – “Miss Amanda Jones” (Some Kind of Wonderful / Alguém Muito Especial)

“Miss Amanda Jones” aparece para sonorizar os preparativos para o ápice de Some Kind of Wonderful, com o triângulo amoroso se arrumando para a grande reviravolta. Uma simples passagem no longa, mas uma cheia de energia. Bela escolha.


8. Ray Charles – “Mess Around” (Planes, Trains & Automobiles / Antes Só do que Mal-Acompanhado)

John Candy, você é maravilhoso. Planes, Trains & Automobiles marca o início dos filmes sem adolescentes de John Hughes e a “estreia” é em melhor estilo e até um tanto apelativa com a dupla Steve Martin, homem de família, e John Candy, gordinho aloprado e inconveniente. Mesmo o emocionante final do filme não apaga o relacionamento hilário que cresce entre dois dos maiores humoristas da década. Porém, quando Steve resolve tirar um cochilo viajando na terceira parte do filme, em um automobile, John Candy brilha sozinho com uma interpretação de “Mess Around”, de Ray Charles, simplesmente inigualável. É patético tentar descrever coisas engraçadas, mas essa cena, particularmente, entra em qualquer lista de comédia da minha vida.


9. Kate Bush – “This Woman’s Work” (She’s Having a Baby / Ela Vai Ter Um Bebê)

She’s Having a Baby é certamente o filme mais fraco dessa lista, mas a escolha da canção para essa cena acima foi a mais precisa de toda a lista também. “This Woman’s Work”, da Kate Bush, tocando enquanto um jovem Kevin Bacon sofre solitário no hospital à espera de alguma resposta sobre a condição de sua mulher é sem dúvida um dos sofrimentos mais emocionantes de toda a filmografia de John Hughes.


10. Hugh Harris – “Rhythm of Life” (Uncle Buck)

A partir de Uncle Buck, John parece se preocupar menos com as músicas de seus filmes. Basta pensar em Curly Sue (A Malandrinha), Home Alone (Esqueceram de Mim) e tantos outros, que focam na trama com a trilha totalmente em segundo plano. Porém, se ao longo do filme não somos presenteados com um grande momento musical, logo no fim entra “Rhythm of Life”, de Hugh Harris, para fecharmos esse post com a chamada chave de ouro. O filme é de 1989, John Candy tem mais uma vez uma atuação irrepreensível, os personagens secundários são hilários, como é o caso da criancinha chamada Macaulay Culkin, e lá no fim “Rhythm of Life” aparece bem anos 80 e recheado de linhas de saxofone grandiosas como um pequeno lembrete.

John, se aprendi a amar essa década extravagante e sua Chicago tão destacada em cada detalhe (na escola, na camisa do Chicago Cubs, nas ruas), você é um dos responsáveis por isso. Tenho memórias de dezenas de cenas marcantes e muitos dos seus personagens estão para sempre cravados na minha mente e não poderia terminar esse post sem uma homenagem bem brega. Principalmente porque eu acredito na total autonomia das pessoas e invariavelmente recebi as suas mensagens disfarçadas de humor, de besteirol de emoção exagerada e sorri com o canto da boca.

The-Breakfast-Club-Cast-Photo