Show: Bob Mould — SESC Pompeia, São Paulo — 04/10/2013

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Em um curto espaço de tempo, Bob Mould e Grant Hart honraram uma dívida musical com o Brasil que latejava desde a década de 80. De 1979 para cá, o Hüsker Dü, lá do estado norte-americano de Minnesota, perpetua uma rara característica em que o “ser” e o “parecer ser” coincidem. Não há decepção com o culto, já que embalagem e conteúdo fazem justiça um ao outro, configurando uma das bandas mais influentes (anote aí a lista: do hardcore; da cena alternativa que se abria nos anos 80; do college rock que invadia as rádios universitárias na década de 90, e do hoje polêmico indie).

A banda acabou em 1987, e o débito com o público brasileiro, que jamais vira o Hüsker Dü por aqui, foi parcelado em duas vezes.

O primeiro pagamento veio no dia 15 de setembro, assinado por Grant Hart em um show gratuito no Cine Olido para pouco mais de 200 pessoas. Se ainda tinha gente que achava que lugar de baterista é no fundão, alicerçando o espetáculo, o preconceito foi desmontado em poucos minutos. Grant Hart não só tem uma carreira solo consistente e com flertes com o eletrônico e uma guitarra altamente barulhenta, como também é o autor de muitos dos clássicos do Hüsker Dü – vide “Don’t Wanna Know if You Are Lonely”, executada à queima-roupa no Cine Olido e correspondida por uma plateia boquiaberta com o presente.

E ontem, no SESC Pompeia, coube a Bob Mould encerrar a dívida. O problema é que, nas mãos dele, o débito era maior, acrescido dos juros trazidos por uma outra banda de Mould, o Sugar, que em 1992 lançou Copper Blue, uma das pedras-fundamentais da sonoridade dos anos 90.

O acerto de contas não poderia ter sido mais didático: Bob e a banda que o acompanhava – o baterista Jon Wurster, do Superchunk, e o baixista Jason Narducy – sobem ao palco da choperia do SESC e entregam as cinco primeiras músicas de Copper Blue. “The Act We Act” e “A Good Idea” chegaram um pouco tímidas, até que “Changes” começou a despertar o “monstro” de uma comoção reprimida há décadas. A emoção do público, como se veria ao longo do show, seria dividida em blocos.

Nesse primeiro pacote, as melodias primorosas são apenas paliativo para uma guitarra, bateria e baixo amplificados sem economia. Experimente pensar que Bob Mould é um grisalho quase-senhor fofinho e os combos de Marshall dispostos no palco vão lhe dar um enfático argumento contrário.

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Bob então cumprimenta o público e pede licença para mostrar o trabalho que originou a turnê: o disco Silver Age, da carreira-solo. Ainda que “Star Machine” e “The Descent” tenham desfrutado de uma recepção empolgada, a energia da plateia, que galopava vertiginosamente, começava a esmorecer, talvez porque o vocal, baixo em alguns momentos, saía em desvantagem.

Depois de “Steam of Hercules”, que encerra esse bloco, Bob Mould desfere, em tom professoral, uma crítica ao polêmico comportamento de assistir ao show por meio da lente de uma câmera. De fato, elas eram dominantes no ambiente – incluindo a minha, para fazer fotos para o Suppaduppa, mas com a recomendação de só fotografar até a terceira música. Nem precisou chegar nela: na segunda, eu já não conseguia conciliar a firmeza na mão com a interação inevitável com o show. Melhor guardar.

Em uma plateia heterogênea como aquela, que ia dos 19 aos 40 anos, câmeras eram mais que esperadas. Esse choque geracional agrega possibilidades, como reter, digitalmente, momentos do show e compartilhá-los. Mas também subtrai sensações como o contato, sem intermediação, com o olhar do artista. Quem se permitiu ser olhado foi recompensado: Bob, Jason e Jon esbanjavam sorrisos, trocavam olhares, se alegravam com a recíproca. Registros que o player de vídeo não terá a oportunidade de oferecer.

A bronca é recebida com aplausos, mas esses são calados abruptamente pela injeção de “Hardly Getting Over It”, em que a convivência com a morte é cantada como um pedido de ajuda. O efeito foi semelhante ao de “Diane”, entoada por Grant Hart no Cine Olido como um presente para uma plateia respeitosa.

Passado o momento contemplativo, os riffs iniciais de “Could You Be the One”, do Hüsker Dü, detonam o ponto mais vibrante do show. As vozes ecoam com mais firmeza pela choperia e Bob Mould ganha centenas de backing vocals. “I Apologize”, na sequência, encoraja o primeiro mosh, o que funciona como um despertador para uma plateia ainda contida – em grande parte, pelo choque de gerações – diante de um show como aquele. Pois é sempre bom lembrar que Bob Mould e companhia deixaram um tal de Black Flag de queixo caído em uma turnê em 1980.

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O set é encerrado por “Keep Believing”, um retorno à carreira solo de Bob Mould. A música é temperada por uma guitarra mais agressiva e virtuosa, e ela transforma o momento do bis em puro noise. Entram os três novamente e puxam, para catarse do público, “If I Can’t Change Your Mind” e “Something I Learned Today”. Nova saída do palco, e o retorno é premiado com “Flip Your Wig”, faixa-título de um dos discos mais bem-sucedidos na transição do hardcore acelerado para arranjos com mais quebras e mais generosos com a melodia.

O fim, então, chega com “Makes No Sense at All”. O público já andava distribuindo sorrisos, mas quem parece sair de alma lavada são os músicos. Dívida bem paga, problema resolvido. Quanta ingenuidade. Mal sabem que agora criaram um débito eterno com um público que, mesmo servido de shows medíocres e fogo de palha em boa parte do ano, sabe reconhecer o valor de um espetáculo em que as regras são relevância do artista, pontualidade e preço acessível.

SETLIST
“The Act We Act” (Sugar)
“A Good Idea” (Sugar)
“Changes” (Sugar)
“Helpless” (Sugar)
“Hoover Dam” (Sugar)
“Star Machine”
“The Descent”
“Round The City Square”
“Steam of Hercules”
“Your Favorite Thing”
“Hardly Getting Over It” (Hüsker Dü)
“Could You Be The One” (Hüsker Dü)
“I Apologize” (Hüsker Dü)
“Celebrated Summer” (Hüsker Dü)
“Chartered Trips” (Hüsker Dü)
“Keep Believing”

BIS
“If I Can’t Change Your Mind” (Sugar)
“Something I Learned Today” (Hüsker Dü)

SEGUNDO BIS
“Flip Your Wig” (Hüsker Dü)
“Hate Paper Doll” (Hüsker Dü)
“Makes No Sense At All” (Hüsker Dü)

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