Especial HC/DC: Parte 3 – 10 discos para cair de amores pela Dischord

Arte de Ryan Nelson (Foto: Dischord)

Em 32 anos, era de se esperar que a Dischord ultrapassasse seu papel de documentar a cena de DC ao fazer uma curadoria que aponta para a vanguarda. O post hardcore poderia ter vindo como caminho natural, mas mais uma vez a cena de DC surpreendia com uma grande pulverização de sonoridades.

O maior emblema desse movimento de olhar adiante é o Fugazi, que não cessa de experimentar. E já que estamos falando de todo o material fonográfico da Dischord, apontamos 10 discos que justificam uma introdução ao acervo da gravadora e que também servem de motivos para mostrar como a gravadora é sintomática de um tempo – seja memória, ou futuro.

A proposta não é elencar os 10 discos mais fundamentais, mas sim, dar um recorte da diversidade existente no catálogo da gravadora. Tem opção para todos, inclusive para quem não gosta de hardcore.

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ESPECIAL HC/DC

Parte 1 – Não teve cão, caçou com gato

Parte 2 – Entrevista Ian MacKaye

Parte 4 – Entrevista Scott Crawford

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Rites of Spring

End on End

(Dischord #16; 1985)

Se o seu coração bate pelo Fugazi, pode saber que vai ter espaço para o Rites of Spring depois que você ouvir o único disco deles, End on End. De “Spring” a “Drink Deep”, você vai ser ver envolto(a) em uma massa de desespero e instabilidade emocional conduzida epicamente por Guy Picciotto. Você pode pensar em exagero, mas pode também se lembrar de alívio e energia. E uma atitude mais enérgica era o que DC precisava por volta de 1984, quando o hardcore já flertava com o caricatural. A vida do Rites of Spring nos palcos foi bem curta – só 15 shows (e uma infinidade de instrumentos quebrados). Se colocado em alto e bom som, esse disco pode dar uma fiel impressão do que deveria ter sido uma 16ª apresentação deles.

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Embrace

Embrace

(Dischord #24; 1987)

Quando a diversão se transforma em um violento e despropositado circo de horrores, diz a sensatez que é preciso colocar o pé no freio e mirar outra direção. Assim o fez o Embrace, banda de 1985 que reunia Ian MacKaye e três membros do Faith, a banda do irmão de Ian, Alec MacKaye. O hardcore de D.C. tinha sido infestado por um slam dancing mais brutalizante do que ritualístico, o que só afastava a criatura do criador. Desacelerar, no caso, foi uma postura também adotada musicalmente: o veloz “1,2,3,4”, até então uma unidade, foi entrecortado por tempos quebrados, o que garantiu que a guitarra ou o baixo escorressem pelos refrões. O hardcore fagocitava a rapidez que o celebrou e incorporava arranjos assumidamente melosos, o que lhe rendeu a alcunha de emotional hardcore. E assim, em um batismo sem padrinhos, convidados e lembrancinhas, o emo ganhava o mundo até ser perigosamente distorcido, anos depois.

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One Last Wish

One Last Wish

(Dischord #118; 1986)

Em 1986, o Rites of Spring e o Embrace chegaram ao fim e deixaram um saldo melódico tão positivo que já não se concebia a cena de Washington sem umas boas doses de sing-alongs. Guy Picciotto, Brendan Canty e Eddie Janney então se juntaram ao ex-Embrace e Michael Hampton e formaram mais uma existência fulminante: o One Last Wish, que não durou nem um semestre. Em quatro meses de vida, o quarteto deixou um tratado musical delicioso e com uma bela ênfase ao baixo do Janney. Sem contar as letras, ácidas e pungentes. Comece por “One Last Wish” e “My Better Half” que vai ficar tudo bem.

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Minor Threat

Out of Step

(Dischord #10; 1983)

Primeiro e único álbum do Minor Threat, Out of Step é um maravilhoso rito de passagem para a vida adulta. É um álbum rápido (só 21 minutos), cru, vigoroso, imponente e pretensiosamente seguro de si. As letras, desta vez, não só denunciam dúvidas típicas da fase, como lealdade e comprometimento, como também afirmam convicções próprias em um mundo pouco tolerante às diferenças. Entrou para a história da música como um ícone, fartamente justificado pelo conteúdo e também pela embalagem, com a brilhante capa da ovelhinha.

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Fugazi

Red Medicine

(Dischord #90; 1995)

Ainda que 7 Songs, de 1988, tenha inaugurado a discografia do Fugazi como um meteoro que divide o ordinário do especial, Red Medicine chega quase 10 anos depois fazendo um bem-sucedido exercício de originalidade. É um disco não-linear, que explora o noise e a distorção com uma contrapartida melódica que marcaria boa parte dos lançamentos de post-hardcore. A faixa-destaque é “Bed for the Scraping”, que marca um duelo inesquecível de baixo e guitarra em movimentos ascendentes e descendentes, preenchendo a música de sensorialidade.

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Three

Dark Days Coming

(Dischord #33; 1989)

O violão inicial de “Swann Street”, a música mais poderosa de Dark Days Coming, agrega sabores mais acessíveis à cena de Washington e rompe definitivamente com o hermetismo do hardcore. Com letras mais pessoais,  o álbum é um grande comentário do cotidiano e da sensação de não pertencer ao mundo. Vindo de mais uma banda de curta duração, esse disco merece estar na lista por marcar tão bem a transição do cru para o fermentado, da estética preto-e-branco para cores mais vivas. Soa como um típico sopro de juventude.

q and not u

Q and Not U

Different Damage

(Dischord #133; 2002)

Os rapazes do Q and Not U cresceram ouvindo as bandas da Dischord e digeriram toda a influência da cena com temperos similares àqueles usados pelo Dismemberment Plan (também de Washignton) na década anterior. As seções rítmicas extremamente quebradas evocam o math rock e são compensadas por uma grande musicalidade nas letras cantadas por Chris Richards. Produzido por Ian MacKaye, Different Damage é um disco ousado, sem padronagens usuais e de grande acento melódico.

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Medications

Completely Removed

(Dischord #165; 2010)

Prova viva de que a Dischord sabe detectar e lapidar bandas talentosas é esse segundo disco do Medications. Veja bem, é 2010, são 30 anos da gravadora e muitas ondas de originalidade chegaram e foram embora. O que se pode fazer de tão autoral em um cenário tão ricamente explorado quanto isso? A resposta do Medications vem nos arranjos, que rejeitam qualquer solução fácil. E ainda assim, o disco chega maravilhosamente pop, recheado de referências ao country, à invasão britânica e ao math rock. A trinca de abertura – “For WMF”, “Long Day” e “Seasons” – ilustra bem a essência criativa do álbum.

Scream_-_Still_Screaming-LP

Scream

Still Screaming

(Dischord #9; 1983)

Fora de DC, o Scream ficou conhecido por ser a ex-banda de Dave Grohl (Nirvana/Foo Fighters), mas o disco de estreia, esse que achamos ser capaz de conquistar o seu coração, é com o baterista anterior, Kent Stax. Ele bebe em uma fonte conterrânea, o Bad Brains, mas apela para um som ainda mais suingado e cheio de reverberações. “Fight/American Justice”, uma música que vale por duas, faz uma transição tão emocionante do hardcore para o dub que deixaria Martin Luther King orgulhoso.

soulside

Soulside

Hot Bodi-Gram

(Dischord #38; 1989)

Nascido em 85, o Soulside já tinha avançado sobre o hardcore tradicional da cena de DC e investido em melodias e quebras rítmicas que mais tarde poderiam colocar a banda como uma parte integrante dos anos 90. Em diversos momentos de Hot Bodi-Gram, o segundo disco, a ênfase se desdobra sobre uma inversão ousada: a guitarra de Scott McCloud é vertiginosa e faz um movimento interessante de suporte para o baixo, como bem exemplificado em “Punch the Geek”. De bônus, Alexis Fleisig dá viradas sensacionais na bateria.