Especial HC/DC: Parte 4 – Entrevista Scott Crawford (Salad Days: The DC Punk Revolution Documentary)

Pôster do documentário vendido para arrecadar fundos / Foto: Scott Crawford

Pôster do documentário vendido para arrecadar fundos (Foto: Scott Crawford)

Em agosto do ano passado, fiquei sabendo que a cena hardcore de DC ganharia um documentário só pra ela. O assunto já tinha sido abordado nos filmes American Hardcore, Punk’s not Dead e Instrument, mas ainda não tinha se discutido a relevância absoluta de Washington como berço de uma explosão artística completamente original na década de 80.

Salad Days: The Birth of Punk in the Nation’s Capitol, do diretor Scott Crawford, vai se debruçar exclusivamente sobre os anos 80 do hardcore em DC e suas lições mundiais, como o Bad Brains, o Minor Threat, o Fugazi e a Dischord Records.

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ESPECIAL HC/DC

Parte 1 – Não teve cão, caçou com gato

Parte 2 – Entrevista Ian MacKaye

Parte 3 – 10 discos da Dischord

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Scott poderá contar algumas das mais belas histórias da música independente. Ele tem dois grandes trunfos: Jim Saah, amigo de longa data, fez grande parte do acervo de imagens do hardcore. Mas a grande vantagem de Scott é que ele presenciou tudo isso in loco.

Embrace / Foto: Joseph Henderson

Embrace (Foto: Joseph Henderson)

Repare na foto acima, de um show do Embrace. Na plateia, um garotinho de camisa branca, aberta, é flagrado em pleno êxtase, olhando fixamente para Michael Hampton e Chris Bald. Esse é Scott, com 13 anos na época.

Para ele, a cena hardcore de Washington mostrou que o que ocorria na capital dos EUA era único. A época era propícia: os americanos viviam a gestão do presidente Ronald Reagan, e a insatisfação invariavelmente vazava por meio da música.

O documentário ainda está em fase de produção. Scott já entrevistou cerca de 75 pessoas, incluindo Ian MacKaye (leia nossa entrevista com ele), Thurston Moore (Sonic Youth), Dave Grohl (Foo Fighters), Jeff Ament (Pearl Jam), Alec MacKaye (Faith, Ignition, Untouchables), Joe Lally (Fugazi), J Mascis (Dinosaur Jr), Bobby Sullivan (Soulside) , Dante Ferrando (Iron Cross, Gray Matter, Ignition) e Fred Armisen (Portlandia).

Além de mergulhar nas próprias memórias de 30 anos atrás, o diretor também colhe depoimentos de donos de gravadoras e zineiros e recorre a um volumoso acervo de fotos e filmagens.

O Suppaduppa conversou com Scott sobre o que ele testemunhou na época e sobre o documentário, previsto para ser lançado no ano que vem. Scott busca ajuda financeira para a pós-produção, por meio de um crowdfunding. Quem quiser contribuir pode fazê-lo aqui.

Suppaduppa: Oi Scott, tudo bem? Quantas entrevistas você já fez para o Salad Days?
Scott Crawford: Olá! Devo ter feito mais de 40 entrevistas. [Nota: atualmente, já são 75]

SD: Você tem alguma favorita, ou um momento mais emocionante?
SC: Minha entrevista com Ian [MacKaye] foi muito boa. Acho que o ponto de partida é que as pessoas eram realmente apaixonadas por esse período da música e acho que ainda são, até hoje. Você percebe isso quando começa a perguntar sobre aquela época e sobre as experiências dos entrevistados.

SD: Você teve alguma dificuldade para entrar em contato com alguém ou esbarrou em alguma história cuja versão conhecida não coincidia com o depoimento?
SC: Quando se está fazendo um filme assim, em que você tenta contar uma história de 30 anos atrás, há muito revisionismo. Nem todo mundo conta a história totalmente. E quase todo mundo conta uma história diferente. Então, você tem que encontrar a verdade e descobri-la em um ponto comum. Felizmente, eu já tinha minhas memórias pessoais sobre determinados eventos. É engraçado conversar com gente que presenciou o mesmo que eu, mas que tem uma perspectiva completamente diferente. Além disso, você tem que filtrar as informações. Eu vivenciei a cena de DC quando tinha 12, 13, 14, 15 anos. Vi as coisas de forma diferente se comparada à média de idade do pessoal, que era 20 anos.

Assista ao trailer:
SD: Você morava em Washington naquela época?
SC: Sim, nasci lá. Agora moro em Anápolis. Fica a uns 64 km de D.C.

SD: A ideia do documentário apareceu agora ou já existia?
SC: Isso é algo que eu queria documentar de qualquer maneira, fosse em um livro ou em um filme. Eu sabia que tinha vivido algo que realmente mudou minha vida e queria fazer algo com isso. E então pensei que essa história seria mais bem contada visualmente, por meio de um filme. Então eu lancei a ideia para as pessoas que também estiveram em DC na época, para “sentir” o que achariam de um documentário sobre isso e aí vi que valia a pena fazer. Ninguém jamais fez um documentário sobre o punk rock de DC, ainda que tenha aparecido em outros filmes, mas ele nunca foi discutido. Então eu queria usar minha própria experiência  entrevistar os personagens daquela época. Muitos estavam na minha lembrança de adolescente, e agora eu os entrevisto, 30 anos depois, e conheço outra perspectiva sobre o assunto.

SD: Você era tão novinho. Conseguia entrar nos shows?
SC: Sim. Bom, eu nunca vi um show do Minor Threat, mas vi o Embrace várias vezes, assim como o Rites of Srping, Beefeater, Dag Nasty e o Fugazi, claro. Eu tinha uma bandas nos anos 80 e toquei com o Fugazi algumas vezes. Não fizemos sucesso. A banda se chamava Darkest of Noon – é um nome horroroso! O primeiro show a que assisti foi do Void. Mais tarde eu fiquei amigo de alguns membros da banda e sempre ia aos shows com eles. Eu só fui aprender a dirigir com 24 anos, então eu sempre dependia de outras pessoas para dirigir.

SD: Então você tinha uma “turma” para ir a todos esses shows?
SC: Sim. De certa forma, eles cuidavam de mim, o que era muito legal.

Soulside em show de 1988 Foto: Alexis Fleisig

Soulside em show de 1988 (Foto: Alexis Fleisig)

SD: Quando você tinha 13, 14 anos, o hardcore era a única coisa ouvida pelas pessoas em Washington ou a cena foi tão underground que apenas algumas pessoas a conheciam?
SC: Era ouvido por uma comunidade bem pequena de pessoas, mas o fato de existir lojas de discos ajudava bastante. Uma em particular era a Yesterday and Today, onde Ian, Brendan [Canty, do Rites of Spring e do Fugazi] e Guy [Picciotto, também do Rites of Spring e do Fugazi] trabalharam. Era o lugar onde você via todas essas pessoas dessas bandas fantástica. E quando você estava lá, você ouvia o que eles estavam escutando. Em 85/86, muito do que os caras estavam ouvindo não era hardcore, mas sim, muita coisa britânica… eu me lembro deles colocando The Chameleons e The Smiths na loja, acredite ou não.

SD: Você esteve em algum show do Rites of Spring para o Revolution Summer?
SC: Sim, e não foi apenas um show. Me lembrei de vários em que as pessoas jogavam flores no palco. Eram shows bem pequenos, para 100, 150 pessoas. Eu estava conversando sobre eles esses dias e acho que o que realmente me impressionou quando eu era moleque é que você realmente achava que todo show do Rites of Spring poderia ser o último. Com sorte, você podia ver que ainda tinha sobrado a bateria o fim de algumas apresentações. Acho que, quando foi chegando perto de a banda acabar, eles foram parando de quebrar os instrumentos porque sentiram que era isso que o público estava esperando. O show era simplesmente cru, cada nota parecia ser a última. Nunca tinha visto nada igual.

SD: Tem um show ou uma banda favorita daquela época?
SC: Bom, eu amava Marginal Man e Rites of Spring. Acho que os shows do Revolution Summer ficaram na minha cabeça porque eram muito intimistas, para poucas pessoas. Também tinha shows maiores muito bons, como os do Marginal Man, Government Issue e Scream. Mas tinha muita briga nesses. Já os shows do Revolution Summer não tinham muit publicidade, então você realmente tinha que estar no meio para saber, e eram apresentações em clubes menores, até memso em centros comunitários. O público dos shows menores era muito diferente. Não consigo pensar em um show, em particular. Provavelmente, os dos Rites of Spring e do Embrace. Fugazi também tinha shows tão incríveis quanto.

Flyer de show do "Revolution Summer" em benefício a Scott Wandling, gerente do clube 930 / Foto: Arlington Public Library

Flyer de show do “Revolution Summer” em benefício a Scott Wandling, do clube 930 (Foto: Arlington Public Library)

SD: Por que você diz que o hardcore de DC mudou sua vida?
SC: Deus, nem sei por onde começar. Acho que, uma vez que você descobre o punk rock, você é tomado por ele e nunca mais pensa da mesma maneira. Mas a cena de DC era uma comunidade com muita inteligência, paixão, energia e comprometimento. Eu pude apreender todas essas qualidades bem cedo. O movimento tomou conta de diferentes partes da minha vida e me modificou de maneiras que eu sequer percebi.

SD: O Michael Azerrad descreve a transformação da roda de pogo em um ato violento no livro Our Band Could Be Your Life. Aconteceu isso, de fato?
SC: Você vai ver isso no documentário, tem uma parte só sobre esse assunto e essa transformação. Nem sei como eram as rodas de pogo quando você ia aos shows, e nem sei como são hoje em dia, mas eram realmente insanas e tinham aquelas pessoas que as usavam somente como um pretexto para a violência. Uma desculpa para ir a um show e ficar batendo nas pessoas. Quem fazia as rodas de pogo somente para descarregar violência sequer pensava na música. Acho que DC é realmente a única cidade que conseguiu controlar o slam dancing, ou como você preferir chamar. Esse controle começou com o Rites of Spring e com o Embrace, pois essas bandas não queriam que você pogasse ou desse um stage dive. Elas queriam que você as ouvisse. Se você quisesse dançar, tudo bem, desde que não invadisse o espaço de outras pessoas ou as machucasse. É uma questão de ser responsável por você e por quem estava ao redor. E esse controle começou por volta de 1985 em DC. Daí, no fim da década, como Fugazi, é como se você nunca tivesse visto alguém pogando. E se alguém fizesse, Ian colocaria a pessoa de lado ou afastá-la da plateia, só para ridicularizar a pessoa. Em um show do Fugazi, você veria 1.000 pessoas dançando durante a apresentação, mas nem sei como comparar isso, eles realmente conseguiram deixar o público compenetrado nos shows. Se você procurar vídeos online, vai ver que todo mundo sabe as letras e está dançando, mas ninguém está se machucando. Então o pogo fugiu do controle muito rapidamente, o que possibilitou várias brigas, já que você está lá, assistindo a uma banda de que gosta, e então alguém lhe dá uma cotovelada na cara. Isso faz com que você perca a vontade de ir aos shows.

SD: E quanto ao straight edge? Você presenciou o momento em que começaram a colocar o x na mão? Essa foi uma ideia da qual alguns se apropriaram e colocaram um novo significado?
SC: [Ele hesita] Acho que o straight edge foi muito maior fora de DC. Aqui todo mundo fazia o que quisesse e não me lembro de ter visto alguém com um X na mão. Esse X nas mãos veio do fato de que você, menor de idade, só podia entrar nos shows com o X na mão para que o bartender visse que você é menor. E hoje em dia você vê o X tatuado nas mãos de algumas pessoas. O straight edge acabou ficando muito maior fora de DC e, claro, depois que apareceram o Youth of Today e bandas de Boston. Você tinha um hardcore straight edge bem militante. Eu sinto por Ian, pois a música que ele escreveu rendeu apropriações. Era apenas uma música, e foi transformada em um movimento, que virou militante. E você escuta que pessoas apanharam porque estavam bebendo uma cerveja. Eu nunca vi nada disso em DC, e acho que a cidade entendeu que era apenas uma música sobre responsabilidade pessoal, e não sobre o que as outras pessoas estavam fazendo. Tendo dito isso, vi vários shows em que houve brigas com straight edge, mas realmente penso que isso era bem maior fora de DC.

SD: Além do straight edge e do slam dancing, quais são outras características da cena de DC e o que faz dela tão especial?
SC: Vixe. Eu insisto na palavra “paixão”, mas é que as pessoas da cena realmente eram apaixonadas pelo que estavam fazendo. Não era apenas entretenimento, sabe? Era tudo pra elas, elas estavam se dedicando totalmente a essa música. Acho que a Dischord ajudou a criar uma sonoridade típica de DC só por meio dos discos lançados, especialmente em meados dos anos 80, quando você tinha bandas como Gray Matter, Rites of Spring, Embrace… você tinha esse som original da guitarra que muitos já associavam a DC na época, mas também tinha bandas como Beefeater, Scream, Marginal Man e Government Issue, todas soando completamente diferente. Então eu acho que isso remete ao comprometimento daquelas pessoas com a música e com a política – muitas dessas bandas também eram ativistas. Não consigo pensar em outra cidade em que os músicas tiveram esse compromisso de fazer a cidade cuidar da própria população e se importando tanto a ponto de criar o Revolution Summer, para recuperar valores.

SD: Tenho a impressão de que a cena hardcore de DC foi muito forte porque Washington não é uma cidade tida como “legal” ou “moderna” – adjetivos geralmente empregados a Nova York. Quem pertencia à cena quis fortalecê-la porque acreditava que a cidade era diferente?
SC: Certeza. Não tinha uma infraestrura real aqui. Sequer havia indústria fonográfica. As pessoas que estavam produzindo discos eram donas do próprio negócio. Nova York e Los Angeles tinham gravadoras, o que atraía as pessoas, que se mudavam para lá para começar as bandas. Isso não acontecia aqui. Tínhamos um hardcore punk criado por nós mesmos. Era um sentimento comum de a cidade é nossa, e fazemos nossas próprias regras.

SD: E quanto à insatisfação com a política? Vocês estavam vivendo os anos de Ronald Reagan na presidência…
SC: Acho que, se você vive em NY ou em Los Angeles e está puto da vida com Ronald Reagan, é uma coisa. Agora, se você vive em DC e Reagan está quebrando seu jardim, a reação é mais poderosa, você sente que realmente pode fazer algo contra isso e obter um bom resultado. Em 85, tínhamos uma ação chamada “Punk Percussion Protest”, que realizava protestos contra o Apartheid na embaixada da África do Sul. Na época, rolavam muitos protestos contra o Apartheid, muito com celebridades como Martin Sheen e Jessie Jackson, mas eles eram realizados distantes da embaixada e, caso essas pessoas fossem presas, eram soltas cinco minutos depois porque eram famosas. As pessoas daqui viam isso e pensavam “não, a gente realmente quer fazer algo e ver resultados disso”. Então eles pegaram baterias, latas de lixo e qualquer coisa que pudessem encontrar e foram “batucar”em frente à embaixada sul-africana. Por horas. Você vai ver isso no documentário. Não tinha como alguém da embaixada não ouvir a percussão. E você vê o Ian e mais um monte de pessoas das bandas da época fazendo barulho com as baterias. Se você morasse aqui, seria impossível ficar alienada porque tudo aquilo estava acontecendo na sua frente. É realmente diferente de qualquer outra cidade porque é aqui que as decisões são tomadas. Politicamente, é o que faz essa cidade ser tão consciente. Tem uma organização local chamada Positive Force que se tornou muito importante para a cena punk de DC, pois ela realizava shows mensais, e todos eram voltados para uma causa. E se você pertencesse a uma banda e fizesse um show, eram grandes as chances de ser uma iniciativa da Positive Force, e eles penduravam cartazes e distribuíam folhetos explicando qual era a causa. Era impossível ir a um show em DC naquela época e não ser exposto a questões sociais ou causas.

SD: Você tem filmagens ou fotos disso?
SC: Tenho várias fotos.

Flyer de shows promovidos pela Posiitve Force em 85 / Foto: Arquivo Pessoal

Flyer de shows promovidos pela Positive Force em 85 (Foto: Arquivo Pessoal)

SD: Quando você começou o documentário, quantas pessoas te ajudaram com fotos e filmagens? Qual foi seu primeiro passo?
SC: Eu tinha meu próprio acervo – não tanto quanto eu gostaria, mas estou fazendo o filme junto com o Jim Saah, que é o diretor de fotografia. Eu o conheço desde que eu tinha 12 anos. E Jim era o fotógrafo de quase tudo que circulou da cena de DC – basicamente, se você viu alguma foto legal do Minor Threat ou uma foto em preto-e-branco daquela época, são grandes as chances de ser uma imagem dele. Ele fez a foto da capa do álbum Repeater, do Fugazi. Tenho o equivalente a 10 anos de fotos do Jim que ninguém jamais viu. Elas estarão no filme. E muitas pessoas me ajudaram ao disponibilizar as fotos pessoais delas. São muitas imagens que nunca havia visto, assim como as filmagens. Algumas delas podem ser vistas no YouTube, mas temos extras que são inéditos. Temos também muitos flyers e outros arquivos que não foram divulgados ainda.

SD: Quando você começou a coletar o material para o documentário?
SC: Há cerca de dois anos.

SD: O Facebook ajuda bastante, certo?
SC: Sim, o Facebook tem sido ótimo. Não acredito que a campanha do kickstart para arrecadar fundos teria sido tão bem-sucedida sem a página do Salad Days no Facebook. Em breve, vou postar um pequeno documentário sobre os shows no Black Cat. Também teremos entrevistas com as bandas e uma música de cada. Vou colocá-lo no Facebook também. Apenas para deixar o público interessado.

SD: Você ainda precisa arrecadar fundos para a pós-produção?
SC: Sim… infelizmente, a pós-produção é muito cara. E claro, o governo morde uma boa parcela do que você ganha com o crowdfunding: um terço. Então eu provavelmente vou fazer alguma ação para arrecadar dinheiro. Quero que o documentário percorra os festivais de cinema, e isso custa dinheiro, assim como todo o licenciamento das músicas.

SD: Você está fazendo o documentário sozinho?
SC: Jim e eu, basicamente. E há várias outras pessoas ajudando com a pesquisa de imagens, com os shows e com a pós-produção.

SD: Quando o documentário fica pronto?
SC: No verão do ano que vem [coincide com nosso inverno].

SD:  Você queria aprofundar a discussão sobre o que aconteceu em DC?
SC: Essa é uma razão pela qual eu quis fazer o filme. Já escreveram sobre DC, mas nunca houve um documentário inteiro para isso, que aprofundasse o olhar sobre os acontecimentos da época, principalmente porque há muitos equívocos circulando por aí. Eu espero poder dar a pessoas como você, de outros países, uma ideia melhor sobre o que aconteceu aqui há 30 anos.

SD: Pode me dar um exemplo de equívoco que você descobriu?
SC: Você mencionou o straight edge anteriormente. Uma vez fui para uma loja de discos em Nova York e o atendente me perguntou de onde eu era. Ao responder que era de DC, ele disse “ah, você é straight edge”. O que a geografia tem a ver com meu gosto pessoal? Então, acho que o straight edge gerou um desses equívocos. E quando pergunto aos entrevistados qual o maior equívoco que eles já viram sobre DC, todos respondem: straight edge. Se você pertencesse a uma banda e estivesse em turnê pelo país, a primeira pergunta que os garotos te fariam seria “você é straight edge?”. E todos tinham uma história sobre Ian, como “ouvi dizer que Ian estava bêbado uma noite dessas” ou “Oh, Ian bateu nesse cara porque ele estava bebendo”. Coisas assim, que nunca aconteceram. Isso é simplesmente imbecil.

J Mascis, Thurston Moore, Scott Crawford e Dave Grohl

J Mascis, Thurston Moore, Scott Crawford e Dave Grohl

SD: O que você acha que nomes como Dave Grohl ou Thurston Moore aprenderam a cena hardcore de Washington?
SC: Acho isso bem interessante, e você vai ver no documentário que eu entrevistei pessoas fora de DC, como J Mascis , Thurston e vários outros que não estiveram lá. Quis colher as impressões sobre a cidade e como a cena mudou a vida deles. J me contou que ele era um garoto do punk rock, mas todos estavam bebendo e se ferrando. Quando ele descobriu o que estava ocorrendo em DC, a cena fez muito sentido para ele, porque ele estava disposto a abraçar aquelas causas. Ele descobriu um novo conceito, no qual você assume uma responsabilidade pessoal. Muitas pessoas estavam crescendo e descobrindo bandas como o Minor Threat ou alguém que encontrava a identificação de muitos.  Thurston, que já era um pouco mais velho que os garotos de Washington, amava muito bandas como Void e Faith, e ele chegou a ver uma apresentação em Nova York. Ele me contou o quão fascinado ele tinha ficado com o que estavam fazendo musicalmente, assim como uma outra característica que não costuma ser muito comentada, mas que pra mim é importantíssima, que é a maneira como essas bandas se apresentavam visualmente. Basta dar uma olhada nas capas dos discos, são tão legais! Ninguém estava se embalando ou criando uma marca como eles. Ter um logo, para aquelas bandas, era essencial. Você não tinha essa preocupação sendo tão priorizada nas outras cidades. E é isso que quero mostrar no filme: nenhuma outra cidade estava fazendo o que eles estavam fazendo. Se você não é de Washington e vê isso, não há como não sentir a energia, a paixão e o comprometimento daquelas pessoas. Sem contar a musicalidade. Afinal, estamos falando de adolescentes, como o Minor Threat! E eles eram músicos muito bons… eles não estavam fazendo apenas esse hardcore 1,2,3,4… eles trouxeram coisas novas, o que certamente atraiu muita gente. Thurston não era muito fã de hardcore, mas o que estava ocorrendo em DC naquela época era muito único. Ele realmente amava o Void. Ao vivo, eles eram ensandecidos e não tem como você sair de um show deles sem ficar com uma grande imagem marcada na memória. Eles eram insanos, assim como o Bad Brains. Acho que toda a cena começou com eles, que foram os responsáveis por jogar luz sobre Washington logo no começo.

SD: Você considera a cena hardcore de DC uma revolução?
SC: Considero. Quero que o filme mostre como essa cena surgiu, no início dos anos 80, como ela terminou, no fim da mesma década, e como isso levou aos anos 90 e, obviamente, culminou na explosão da música undeground na década de 90. Não acredito que haja outras pessoas, ou outra cidade, que tenham capturado tão bem a essência do DYI (do it yourself) quanto Washington em termos de gravadora – temos a Dischord – e controle dos shows, como o Fugazi estabelecendo o preço dos ingressos. Ainda temos um grande senso crítico e ativismo por parte das pessoas da cena… tudo isso só acontecia lá, pelo menos em um sentido colaborativo. O straight edge começou lá, assim como outras coisas. Como tudo isso não teria mudado o mundo? E mudou. E tudo aconteceu nos anos 80. Pensa na palavra “emo”, criada naquela época. Agora, meus filhos dizem pra mim “para de ser emo, pai”. É uma palavra que faz parte do vocabulário popular agora. Então, o que aconteceu em DC foi claramente revolucionário e modificou a vida de muitas pessoas, não só daquelas que moravam lá. Hoje, inspiradas pelo que aconteceu em DC, temos pessoas gerindo agências, ou ONGs, e você vê que houve frutos daquela época. Os resultados aparecem de maneiras muito diferentes na cultura popular. Foi algo muito poderoso.

Ian MacKaye durante depoimento para o Salad Days

Ian MacKaye durante depoimento para o Salad Days

SD: E quanto à revolução nos dias de hoje? Está adormecida? Como anda a cena de Washington?
SC: Eu acho que a cena está mais forte do que nunca. A Positive Force continua muito envolvida. No fim da década de 80 você tinha várias outras gravadoras/selos surgindo, como Teenbeat, Simple Machines e outras que vieram depois. Se vou a um show hoje em dia, sinto a mesma energia e comprometimento daquela época. Temos bandas boas e bandas ruins, o que sempre existiu. É só pensar na Maximum Rock’n’Roll, que continua forte na cena. Eu costumava odiar quando diziam que o punk rock morreu com o Sex Pistols. Do que você está falando? Há tantas bandas fantásticas na ativa! Eu já ouvia isso na década de 80, e continuo ouvindo. Enquanto houver uma garotada fazendo música, o punk rock vai continuar vivo. Pode ser que não haja tanto destaque como naqueles anos, mas ainda existe uma cena.

SD: Por que escolheu o nome Salad Days?
SC: Primeiro, obviamente, por causa da música do Minor Threat. Mas gosto também da referência ao fato de que, aqui, Salad Days faz alusão a um período específico das nossas vidas. E eu queria que o público soubesse exatamente que a história não é atual, mas sim, de outro período. E aquela música significava muito pra mim. Acho que os dias ou anos de glória podem ser agora. Não é um filme nostálgico ou sobre os dias gloriosos do passado. Quero mostrar que sim, houve um momento da história que modificou as vidas de muitos, seja de quem viveu aquilo diretamente e também de quem não participou. Mas ainda estamos fazendo escolhas certas em nossas vidas. É por isso que ao fim do trailer você vê o Mark Andersen [fundador da Positive Force] dizendo que Salad Days é agora.

SD: Você já trabalhava com cinema? O que faz regularmente?
SC: Sou um jornalista e um designer visual. Tive uma revista de música por 10 anos, que acabou em 2008. Era como uma Spin Jr., para pessoas mais velhas. Então eu juntei tudo e depositei no filme. Ainda faço alguns trabalhos de design como freelancer, e no resto do tempo, trabalho no documentário.

SD: Quais documentários e livros te inspiraram?
SC: O último grande documentário que vi foi o Joy Division, de 2007. Costumo assistir documentários quase todos os dias para ter uma ideia do que as pessoas estão fazendo. Gosto muito também do livro Our Band Could Be Your Life.

A produção do documentário encorajou Scott a tirar a “poeira” de mais de 20 anos de sua banda, Darkest at Noon. Com imagens do filme e acompanhado por Matthew Ryan, Alexis Fleisig, Geoff Sanoff e Eric Schopmeyer, ele gravou uma música para a trilha do Salad Days e dirigiu o clipe.

Assista: