Secret Chiefs 3 – Book of Souls: Folio A

25.11.2013 — Música, Resenhas

Secret Chiefs 3

Book of Souls: Folio A

(Web of Mimicry; 2013)


Nós estávamos esperando por este há anos. Onze anos. Foi preciso mais de uma década para que o perfeccionista Trey Spruance conseguisse finalizar e botar de pé sua obra mais aguardada pelos fãs até então, a parte dois da trilogia Book of Truth, que começou com Book of Horizons em 2004. A pergunta é: valeu a pena esperar tanto por um disco?

Book of Souls: Folio A é a primeira parte do sexto álbum de estúdio do Secret Chiefs 3 – se deixarmos de fora, claro, o Le Mani Destre Recise Degli Ultimi Uomini, que é um disco do Tradicionalists, uma das sete bandas satélites, e Xaphan, apenas com composições de John Zorn – e, sem dúvida alguma, é o trabalho mais sonoramente completo e impressionante já colocado na prateleira por Spruance desde Disco Volante, do Mr. Bungle.

À princípio, e pra quem vem acompanhando o grupo há tempos, Folio A parece mais uma coletânea e isso até faz um pouco de sentido: das 13 faixas, apenas duas são completamente inéditas, já que as demais ou estão em outros lançamentos, compilações e sete polegadas, ou foram tocadas exaustivamente nas turnês do Secret Chiefs.

O disco também é permeado por interlúdios entre as faixas: são seis ao todo. Enquanto alguns têm apenas poucos segundos de duração, outros basicamente são pequenas canções que fazem muito sentido e dão fluidez ao álbum, nos preparando sempre para o que vem em seguida.

Nas primeiras vezes que passamos um tempo na companhia de Folio A, dá pra reclamar desses fatores acima. Seis interlúdios apenas? Nenhuma música do Holy Vehm (a banda satélite que representa o metal)? De repente, bum. Tudo começa a se encaixar, pelo menos sonoramente. E é aí que Book of Souls se torna e se mostra um trabalho realmente grandioso e gratificante em todos os sentidos.

Diga o que quiser, mas antes reserve, por favor, um tempo para ouvir o Secret Chiefs 3 com um bom par de fones de ouvido, especialmente neste álbum. A qualidade de tudo, a atenção que foi dada no estúdio aos detalhes, o respeito com cada trechinho de som e a quantidade de camadas sonoras, tornam a experiência impressionantemente rica. Dois ótimos exemplos são as belas canções “Potestas Clavium” e “Scorched Earth Saturnalia”.

Claro, Book of Souls é um disco complexo. São muitos os instrumentos, as referências, as influências, as inspirações. Todo um ecossistema que não dá pra assimilar logo de cara. Se você não está acostumado ao universo de Trey Spruance, naturalmente vai estranhar. Mas, por outro lado, também dá pra dizer que Folio A é o trabalho mais sonoramente coerente de toda a discografia da banda, e há dois momentos inegavelmente mergulhados do universo “pop”.

O primeiro deles é o cover da música-tema do filme Halloween, a obra-prima de John Carpenter (tanto a trilha quanto o longa). O segundo é “La Chanson de Jacky”, de Jacques Brel, brilhantemente interpretada por Mike Patton, que alterna entre o inglês e o francês. Ah, e há outros três membros do Mr. Bungle emprestando seus talentos para o disco, o que pode aquecer o coração de muita gente por aí.

Folio A é só a primeira parte de Book of Souls. É também mais do que suficiente para que fiquemos empolgados com o que vem por aí e, desde que não fiquemos sentados por outros 11 anos, poderemos ter em mãos, num futuro próximo, uma pequena grande obra-prima da música contemporânea. Por enquanto vamos ficar com a primeira parte, certamente uma das pérolas de 2013.

Nota
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9.5