Top 25 Suppaduppa — Discos de 2013: 1 – 10

18.12.2013 — Matérias, Música

top-paint-1

bookofsouls

1

Secret Chiefs 3

Book of Souls: Folio A

__________

Foram necessários onze anos até que Book of Souls: Folio A visse a luz do dia e, como sabemos, são raros os projetos que justificam tanto tempo assim para serem finalizados – e poucos conseguem um resultado minimamente decente. Mas desde que o Mr. Bungle foi desmanchado e o Secret Chiefs 3 vem emplacando trabalhos impecáveis – inclusive com uma passagem pra lá de memorável pelo Brasil no ano passado –, a banda, liderada pelo cerebral e perfeccionista Trey Spruance, chegou em um nível de execução tão perfeito e extremo que é até covardia tentar compara-los a outros grupos ditos “virtuosos” dos tempos modernos. Folio A, a primeira parte de Book of Souls e a de número dois da trilogia Book of Truth, é brilhante em todos os sentidos: a gravação é impecável, as composições são ricas em textura, beleza e complexidade, os interlúdios são instigantes e necessários, a execução (novamente ela) é perfeita. A quantidade de instrumentos e músicos envolvidos na criação dessa obra magnífica por si só já chama a atenção, mas são as faixas repletas de detalhes de tirar o fôlego que merecem todos os holofotes no fim do dia. Se você acompanha a banda há tempos, este é o primeiro grande presente que irá receber da trupe de Trey (já que, esperamos, Folio B não deve demorar muito pra chegar). Se ainda não acompanha ou sequer sabe do que estamos falando, está mais do que na hora de comprar um bom par de fones de ouvido e botar o Secret Chiefs 3 em alto e bom som pra tocar. (Flávio Seixlack)

saint-pepsi-hit-vibes

2

SAINT PEPSI

Hit Vibes

__________

Cedo ou tarde, o vapourwave iria evoluir para algo menos fechado e bizarro e mais agradável e dançante. Dentre as vários evoluções da música de cassete sampleada, desacelerada e modificada, há o SAINT PEPSI, que em 2013 lançou uma meia dúzia de ótimos discos, todos seguindo mais ou menos a mesma estética e técnica. O melhor e mais divertido deles é sem dúvida alguma Hit Vibes, uma ode às emoções do passado, das festas sem telefones celulares com câmera, das festas sem celulares, das festas com bips, festas que são festas e nada mais. Para um pensamento qualquer com uma pequena e leve distorção, o SAINT PEPSI deve ser como o rei das comemorações daqueles tempos nebulosos que exigiam seus melhores passos de dança para conquistar a garota mais bela e charmosa do baile. Cabelos arrumados, vestimenta nos trinques, atitude de quem quer se dar bem. A vida com Hit Vibes é maravilhosa, como um VHS contendo a seleção dos melhores momentos dos nossos sonhos. (Flávio Seixlack)

yeezus-new-cover

3

Kanye West

Yeezus

__________

O que Kanye West quer nos dizer com Yeezus? Depois de nos entregar dois discos “fáceis”, grandiosos e certamente mais agradáveis aos ouvidos (um com Jay-Z e My Beautiful Dark Twisted Fantasy, que permanece como um dos meus álbuns favoritos de hip-hop de todos os tempos), o rapper de Chicago, talvez o artista de maior evidência dos últimos anos – seja por sua música, seja pelas polêmicas que saem de sua boca –, volta com um álbum sujo, pesado, feio, curto, vazio, sem beats com samples de soul (sendo a maravilhosa “Bound 2”, que encerra o disco, a exceção) e com uma porção de letras que cutucam algumas feridas que ninguém mais quer cutucar. Goste ou não de Kanye West, hoje em dia são raros os sujeitos dentro da arte que conseguem fazer basicamente o que querem, tendo a capacidade e a ousadia de assumir um papel arriscado ao botar a cara à tapa a cada novo passo dado. Um MC que nem sempre está aqui para agradar, mas cuja simples presença incomoda até mesmo quem não quer saber de rap. Yeezus é brilhante porque, talvez pela primeira vez na carreira de Kanye West, traduz também na música seu lado mais encardido. Sem firulas, sem truques, apenas um monte de feiúra moída cuja gordura é retirada antes de ser levada ao forno, permanecendo por menos tempo que o necessário lá dentro, dada a crueza do impactante resultado final. (Flávio Seixlack)

Senufo40InsertFront

4

Andrew Pekler

Cover Versions

__________

Cover Versions, de Andrew Pekler, é um trabalho exuberante. São 300 discos que ele selecionou e, com simples e coloridos adesivos retangulares e circulares tampou todos os escritos da capa transformando cada arte em uma belíssima colagem. Mas como essa lista é de melhores discos, Andrew também separou frações sonoras desses LPs e criou diversas canções/colagens ao transformar essas frações insignificantes soltas em uma exotica/found sound, mais uma vez, exuberante. Um trabalho complexo e atual que coloca na sua frente tudo o que você quiser discutir sobre a música atual e o faz num visual único e elegante. Cover Versions é uma obra de arte completa. (Denis Fujito)

josephine-foster-im-a-dreamer-review

5

Josephine Foster

I’m A Dreamer

__________

Nos quase dez anos de carreira, Josephine Foster já fez de tudo. Ela já lançou um disco só com poemas de Emily Dickinson, um com canções infantis, um só de canções folclóricas em espanhol e muitos psicodélicos. Nesses anos, ela consolidou a sua arte no imprevisível. Sua música podia e pode tomar qualquer rumo, podia e pode ir atrás dos mais profundos sentimentos. I’m a Dreamer é o disco mais tradicional (americana em sua essência, mas com elementos de blues e jazz) da diversa carreira de Josephine e por mais que ele não surpreenda a cada faixa, não introduza elementos bizarros no caminho, ele é surpreendentemente para cima. As linhas de piano meio honky tonk de Micah Hulscher e o baixo bem central dão a I’m a Dreamer um ar sério ao mesmo tempo que brincalhão, pois sabemos que ela não é essencialmente tradicional. Uma mistura de sentimentos que explica o nome do disco. A Josephine livre e sonhadora acabou de lançar o disco mais forte de sua carreira. (Denis Fujito)

ChicagoTentet_WelsBox

6

Vários Artistas

Long Story Short

__________

Em 2011, o saxofonista alemão Peter Brötzmann foi convidado para ser o curador de um festival que aconteceu em Wels, na Áustria. O resultado, lançado apenas em 2013, é Long Story Short, um box com 5 CDs contendo mais de seis horas de free jazz em seu nível mais intenso e de qualidade mais elevada. Um total de 18 diferentes configurações se apresenta no palco – algumas com Brötzmann, outras não. Entre elas está um trio de músicos orientais tocando instrumentos chineses e japoneses, a performance de Keiji Haino usando apenas voz e guitarra e o piano solo de Masahiko Satoh. Qualquer ocasião com Brötzmann no palco deixo tudo mais especial, mas dá pra destacar aqui os quase 52 minutos do tema tocado ao lado de Bill Laswell, Hamid Drake e Maallem Mokhtar Gania, certamente um dos pontos altos de um álbum cheio de momentos monstruosamente impressionantes. Sim, chega a ser praticamente impossível ouvir Long Story Short na íntegra sem um descanso, tanto pela intensidade do conteúdo quanto por sua duração. Independente disso, o trabalho é daqueles para se ter sempre por perto e apreciar em pequenas doses, pois jazz desse nível não costuma aparecer em qualquer esquina, ainda mais quando está abraçado por um curador e músico com as credenciais de Peter Brötzmann. (Flávio Seixlack)

homepage_large.09fd6186

7

Melt-Banana

Fetch

__________

Os japoneses devem olhar para nós ocidentais e dar risada. Compramos bons equipamentos, cultivamos atitude por décadas, fechamos nossas caras e nossos braços com tatuagens e teimamos em fazer barulho. Então, com a simplicidade típica de quem está do outro lado do mundo, ressurge uma banda de Tóquio, um grupo de japinhas singelos sem muita pretensão que não lançava um disco há seis anos, para nos mostrar como se faz. Fetch é o exemplo perfeito de 2013 do noise mais delicioso, direto e divertido, no qual nenhum bom momento é desperdiçado. Doze curtas canções que chacoalham o cérebro, seja por conta das baterias frenéticas ou pelos vocais inigualáveis de Yuko Onuki. Há quase duas décadas na ativa, o Melt-Banana é uma daquelas bandas que ainda podem ensinar muito a todos nós não só como nunca perder o foco durante sua trajetória, mas também como elevar o nível de seu próprio som e de suas características únicas. (Flávio Seixlack)

doc069.11183v4

8

Julianna Barwick

Nepenthe

__________

Em The Magic Place, Julianna Barwick já se misturava com o ar. Flutuava. E então ela foi para a Islândia, onde gravou e lançou Nepenthe após a perda de um parente próximo. Essas fofocas genéricas de release só servem para dramatizar a situação na verdade. Sim, Julianna Barwick gravou Nepenthe na Islândia com a ajuda do produtor do Sigur Rós e participação de muitos outros islandeses e o meu medo era de me deparar com uma Julianna flutuando muito além do alcance das mãos, como uma deusa se misturando à aurora boreal. Sim, tinha medo de uma Julianna Barwick brega. Mas em Nepenthe, todos os gnomos islandeses trabalharam para dar mais corpo à música de Julianna fazendo com que ela flutuasse em um voo baixo, rasante, como uma névoa no topo da montanha quando estamos justamente no topo da montanha. Um disco solitário, triste e totalmente sem chão, no bom sentido (da tristeza). (Denis Fujito)

14056-ar8ugfbiv1

9

Kyary Pamyu Pamyu

Nanda Collection

__________

Estamos cientes de que os coreanos atualmente dominam e aperfeiçoam a arte de copiar e hoje em dia somos bombardeados freneticamente por celulares, carros, TVs e pop coreanos. Mundialmente e comercialmente falando, o Japão pode estar atrás de vários produtos coreanos, porém, com ou sem um nacionalismo de quinta categoria atuando, a Kyary Pamyu Pamyu, ainda, só poderia ter saído do Japão. Para muitos o visual infantil e exageradamente colorido, a voz “irritante” e os clipes não passam de uma piada um tanto bizarra. “PONPONPON” não foi levada a sério e o preconceito ocidental subsequente (velado ou não) estará presente no resto de sua carreira como Kyary Pamyu Pamyu. Mas o que Yasutaka Nakata (Capsule, Perfume e etc) fez na produção de Nanda Collection é o que eu chamo de um trabalho impecável. Os sons são ricos, o frenesi de Kyary é exponenciado mas em um tom mais adulto, os estilos são variados e você pode sair de uma fase do Mario Kart direto para um típico hit j-pop para cair numa fase de Katamari Damacy em poucos movimentos. Um trabalho riquíssimo que não valeria absolutamente nada se não fosse a ousadia bizarra de Kyary Pamyu Pamyu em simplesmente ser a mais japonesa das estrelas pop. (Denis Fujito)

c204d2e2

10

Nick Cave and the Bad Seeds

Push The Sky Away

__________

Sem a guitarra de Blixa Bargeld e de Mick Harvey e com Warren Ellis cada vez mais presente, é possível afirmar que o som do Nick Cave and the Bad Seeds mudou bastante na última década. Por isso, o mais recente disco do grupo, Push the Sky Away, se trata mais de atmosferas e climas que vão além das trilhas criadas pela dupla Cave e Ellis e se transformam em imediatos filmes, complexos, angustiantes, de longos takes e sempre etéreos. Um álbum que caminha lentamente e te envolve sem a beleza imediata que aparecia em The Boatman’s Call (1997) ou No More Shall We Part (2001), mas com uma beleza intrínseca e escondida muito difícil de descrever. Um lançamento maravilhoso que consegue renovar os ares do Bad Seeds mesmo já em seu décimo quinto lançamento. (Denis Fujito)

__________

TOP 25 SUPPADUPPA: DISCOS DE 2013

Parte II: 11 – 20

Parte III: 21 – 25