Entrevista: Jeffrey Lewis

09.01.2014 — Entrevistas, Música

jeffrey-lewisEu mandei as perguntas para Jeffrey Lewis em junho de 2013 e a cada mês que passava eu tentava sem sucesso que Jeffrey me mandasse as respostas. Elas vieram mais de meio ano depois, mas a espera com certeza valeu a pena. Para quem não sabe, a tese de graduação do curso de literatura de Jeffrey foi sobre Watchmen e junho de 2013 foi a época das manifestações que rolaram em São Paulo e em todo o país, então, além de falar um pouco sobre sua vida, de seus heróis no mundo da música e dos quadrinhos, Jeffrey também comenta o uso da máscara do V de Vingança nas manifestações ao redor do mundo e fala sobre a sua visão da democracia. Uma entrevista que flui bem porque Jeffrey se expressa bem, fala livremente e imprime a sua opinião, tanto pela música frenética quanto pelos seus desenhos. Um ser livre.

De quebra, Jeffrey nos enviou em primeira mão a capa da nona edição de seu comic, o FUFF, que sairá nas próximas semanas.

Suppaduppa: Como você está, Jeff? Aonde você está nesse momento?
Jeffrey Lewis
: Eu estou em casa em New York. Faz muito frio lá fora, então eu abaixei todas as cortinas, o que deixa o apartamento bem escuro. Com as cortinas levantadas entra tanto frio pelas finas janelas que eu prefiro não ter nenhum raio de sol no apartamento do que todo aquele ar frio! Então as luzes estão acesas mesmo em um dia ensolarado à 1 da tarde.

SD: Você pode nos dizer um pouco sobre você? Onde você nasceu e onde você vive atualmente? Como é um dia normal para você?
JL
: Nasci em New York e hoje eu vivo a cinco quadras de onde eu cresci. Toda manhã eu faço uma xícara de café e bato cerejas e bananas com alguma outra coisa no liquidificador e bebo isso de café da manhã. Essa é a única coisa saudável que eu faço.

SD: Quando você começou a tocar algum instrumento?
JL: Quando eu era um adolescente, tipo 16 anos, eu tocava piano, mas eu nunca fiquei muito bom no instrumento. Mais tarde, perto dos 20 anos, eu comecei a brincar com um violão e percebi que podia fazer muito mais com pouco conhecimento em um violão/guitarra do que em um piano. Eu podia fazer músicas de verdade com poucos acordes. Eu não conseguia fazer isso num piano.

SD: Desde 2001, você tem contrato com a Rough Trade, certo? Você acha que é mais conhecido no Reino Unido do que nos EUA?
JL: A essa altura eu acho que mais americanos conhecem o meu trabalho do que os britânicos. Parece que a maioria das pessoas que visitam o meu site e compram coisas são dos EUA e também acho que a minha lista de e-mail dos EUA é maior que a do Reino Unido, mas os Estados Unidos são muito maiores que a maioria dos meus shows aqui parece menor que os do Reino Unido. O Reino Unido é onde eu tenho mais fãs por metro quadrado então é fácil tocar lá! E outra coisa, o meu primeiro disco saiu pela Rough Trade em 2001 e eu não tive um lançamento nos EUA até 2007, porque a Rough Trade nunca teve uma boa situação de lançamento e distribuição para mim por aqui. Eu faço turnê pelo Reino Unido desde 2001/2002, mas comecei a tocar fora de New York só em 2004/2005.

SD: O Jarvis Cocker disse uma vez que ele o considera um dos maiores liricistas da sua geração. E essa declaração vem de um dos maiores liricistas de sua geração, pelo menos para mim. Você acha que você e o Jarvis compartilham de alguma coisa em comum no mundo da música e das letras?
JL
: Eu não sei. É muito gentil da parte do Jarvis dizer isso, mas provavelmente isso não é verdade e Jarvis provavelmente sabe que a América tem um monte de ótimos liricistas e eles são muito melhores do que eu. Eu não sei se existe muitas semelhanças entre as letras de Jarvis e as minhas. Eu acho que ele tem uma sensibilidade muito britânica que é muito diferente da minha. Mas ele sempre foi muito legal comigo. Isso foi muito gentil de sua parte. Eu o agradeço.

SD: Você já gravou um disco com a Kimya Dawson (The Moldy Peaches), com a Diane Cluck e, mais recentemente, com Peter Stampfel. Algum plano para outras parcerias?
JL
: Eu agora tenho dois álbuns com o Peter Stampfel. Essa tem sido uma boa e frutífera parceria, talvez a gente faça mais. Eu não tenho nenhum plano específico, mas talvez outras coisas aconteçam.

SD: Você é um músico muito prolífico com um lançamento novo todo ano praticamente. No começo de sua carreira, a sua música era mais simples e lo-fi e agora você tem uma banda completa com você. Como o seu processo de composição mudou ao longo do tempo?
JL
: Quando o meu irmão Jack vivia em New York era mais fácil gravar com ele. Nós trabalhávamos juntos, mas ele se mudou para Oregon alguns anos atrás e agora eu estou trabalhando com um novo baixista aqui em New York. Eu não escrevo mais tantas canções solo, mas ainda faço turnês sozinho. Muitas vezes eu escrevo uma canção e quero tocá-la com a minha banda ao invés de tocá-la sozinho, então eu faço uma linha de baixo ou toco com o grupo para ver o que acontece.

SD: Quando você tem uma ideia em sua mente, você sabe de antemão se aquilo se transformará numa música ou numa arte?
JL
: Às vezes, mas às vezes pode se transformar em uma das duas.

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SD: Você ilustrou recentemente o livro Gender and Sexuality for Beginners (2013). O que você pode nos dizer sobre esse trabalho?
JL
: O livro foi escrito pela minha amiga Jaimee (Garbacik) de Seattle. Ela tem feito bastante trabalho com os jovens homossexuais (queer youth) e programas locais com os menos favorecidos (local outreach programs) e ela fez muita pesquisa para esse livro. Eu apenas ilustrei quando achava que o desenho de uma pessoa, lugar ou coisa poderia iluminar o texto. Também fiz uma tirinha no início de cada capítulo para tentar resumir o capítulo em questão.

SD: Quando você começou a desenhar?
JL: Eu tenho desenhado a minha vida toda, mas isso não é estranho. Eu acho que toda criança desenha então todo mundo tem “desenhado a vida toda” se  essas pessoas continuarem a desenhar. Eu sempre me identifiquei como um artista ou um cartunista, mas quando eu tinha 18 anos mais ou menos eu fiquei mais sério sobre o assunto porque eu percebi que poderia melhorar muito se trabalhasse bastante. Antes disso eu desenhava quando queria, mas entre os 18 e os 22 anos eu me forcei a desenhar praticamente o tempo todo e eu melhorei muitíssimo. Após os 22 anos eu estava ficando mais envolvido com a música, então os desenhos diminuíram. Eu tenho aperfeiçoado de lá para cá, mas nada perto do que melhorei naquele período de explosão de desenhos entre os 18 e 22 anos.

SD: Ao escutar as suas músicas nós temos dicas do seu gosto musical, por exemplo, quando você cita Will Oldham ou Leonard Cohen. Não sei se eles são seus heróis musicais, mas quem são os seus heróis dos quadrinhos?
JL: Isso é engraçado. Eu realmente não considero o Will Oldham ou o Leonard Cohen grandes influências para mim. Só porque eu os citei em minhas canções não quer dizer que eu seja influenciado por eles. Na realidade, eu nunca tive um único disco do Leonard Cohen (ok, isso não é totalmente verdade já que encontrei uma cópia de The Future na rua, então eu tenho esse). Eu considero o Donovan, Pearls Before Swine e muitas bandas de rock de garagem dos anos 60, como a série de compilações da Nuggets e da Back From the Grave, como as minhas influências musicais. Eu tenho muitos desses LPs e eu nem consigo me lembrar o que eu achava o que era rock and roll antes de eu ter esses discos. Esses lançamentos são a definição de rock para mim. Enfim, os meus heróis dos quadrinhos são o Rick Veitch, Daniel Clowes, Alan Moore, Chester Brown, Joe Matt, Joe Sacco… e mais perto de casa, aqui em New York, eu sou influenciado pela Gabrielle Belle e por David Heatley.

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SD: Você tem um super-herói favorito?
JL: Quando eu era criança o meu favorito sempre foi o ROM Spaceknight. Eu ainda desenho o ROM nos meus cadernos de esboços.

SD: O Wikipedia diz que a sua tese de graduação foi sobre o Watchmen e que você inclusive lecionou sobre o assunto na Bélgica. O que fez você estudar o Watchmen especificamente? Foi um marco na sua vida quando você o leu?
JL: Esse ainda é o único comic que vale esse tipo de análise e eu ainda acho que eu fui o único que estudou com sucesso esse livro nessa extensão. Estou atualmente trabalhando num livro a respeito.

Ele não foi um marco quando o li pela primeira vez, eu era muito novo para entendê-lo. Eu tinha 12 ou 13 anos. Eu não entendi absolutamente nada. Na verdade, eu nem me lembro das primeiras vezes que li o livro. A única impressão que me causou era de um livro de mau gosto, violento e perturbante. Era aterrorizante para mim. Eu gostaria de lembrar da primeira vez que eu realmente o li de capa a contra-capa compreendendo e com atenção. Eu era estudante de literatura e pensei que o livro seria um bom tema para um estudo em 1996. Não tinha muito trabalho como esse sendo feito na época e foi um pouco antes da internet se tornar algo grande então realmente pareceu que eu estava fazendo algo novo, que ninguém estava fazendo.

SD: Aqui no Brasil, centenas de milhares de pessoas protestaram nas ruas semana passada (junho de 2013) e muitos usavam a máscara do V de Vingança. Hollywood fez um filme de Watchmen, contra a vontade de Alan Moore, que alcançou uma larga audiência. Mas o que vemos ultimamente por aqui são pessoas usando a máscara (inclusive em seus perfis no Facebook) e espalhando um tipo de mensagem totalitária. Após estudar o Alan Moore por anos, o que você acha disso?
JL: Eu acho que as ideias do Occupy Wall Street com certeza tem conexão com a filosofia humanitária de Alan Moore, assim como com a minha, mas o filme V de Vingança realmente acabou com a ideia do Alan Moore de um jeito maluco. No filme, parecia que o propósito da máscara era que todo mundo virasse um só e se juntasse a um movimento (mob) sem face, sem cara, onde todos parecessem e agissem de formas iguais. Essa é exatamente a ideia oposta ao individualismo anárquico de Alan, mesmo que, de uma forma ou de outra, uma ação de uma organização coletiva SEJA mais efetiva que uma campanha terrorista anárquica. V de Vingança é sobre um terrorista, o que tem um contexto bem diferente nos anos 80 do de hoje, claro. Naquele tempo isso estava ligado à ideologia esquerdista e agora parece conectado à ideologia conservadora. Eu imagino o que o Alan escreveria se ele fizesse algo parecido com V de Vingança hoje em dia.

SD: Podemos falar um pouco de política? Qual a sua visão sobre a democracia?
JL: Democracia ainda é uma ideia bastante radical e muito pouco testada. A maioria das pessoas acredita que apoia a democracia, mas se você realmente começar a questioná-las a respeito elas ficarão com medo e começarão a falar que a democracia não pode funcionar. Daí você começa a perceber que democracia ainda é um negócio muito louco para as pessoas. A maioria não acredita que as pessoas podem ser responsáveis por governar a sua própria civilização, mas a ideia que a civilização deve ser governada pelas pessoas mais fortes/espertas é uma ideia fascista. Uma ideia que a maioria diria NÃO apoiar, até elas começarem a pensar melhor a respeito e a admitir que elas preferem o fascismo à democracia. Então o que temos é um acordo entre a democracia e o fascismo, chamado de república democrática, onde você democraticamente vota em quem você considera fascistamente o mais forte/esperto e depois disso você se afasta e segue o líder. Não é necessariamente um mau acordo, mas por ser uma solução meio a meio pode acabar indo tanto para um lado quanto para outro. Na maioria das vezes tende a ir pro lado fascista da coisa.

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SD: Quais os planos para a FUFF ou existe algum outro projeto de comic no horizonte?
JL
: Eu acabei de mandar a Fuff #9 para impressão. Espero tê-las a tempo da minha turnê na Europa de janeiro/fevereiro, mas ela será daqui a duas semanas então estou sendo otimista demais. Enfim, a Fuff #9 sairá ainda em janeiro.

SD: O seu irmão Jack tem tocado com você há anos. Vocês tocavam juntos quando eram crianças? Os seus pais te apoiavam com a sua arte?
JL: Nós começamos a tocar música juntos quando Jack tinha uns 17 anos e eu uns 21 e foi assim nas minhas fitas de 1997 e 1998 e foi assim quando começamos a fazer turnês, tocando juntos por 10 anos. Mas agora o Jack está vivendo em Oregon e é muito difícil manter uma banda juntos assim, então eu tenho trabalhado com músicos diferentes de New York faz um tempo já. Porém, ainda toco com Jack quando o vejo.

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