10 impactantes canções do Afghan Whigs para nos prepararmos para o novo disco do grupo

28.01.2014 — Matérias, Música

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A Sub Pop anunciou ontem que o Afghan Whigs quebrará o silêncio de dezesseis anos sem um disco novo em abril, com Do to the Beast. Mas antes de partirmos para o material novo, vamos recapitular em 10 canções a rica discografia de uma das bandas mais impactantes dos anos 90. O grupo que misturou uma boa dose de blue eye soul nas guitarras pesadas do início da década deixou sua marca também nas letras como poucos de sua época e para mostrar isso selecionamos dez canções, em sua grande maioria famosas, mas que juntas formam uma bela retrospectiva para a gente se preparar para o novo álbum.

1. “Retarded” – Up In It (1990)


No fim dos anos 80 e começo dos 90, ainda era possível ver que o Afghan Whigs estava moldando a sua música enquanto Greg Dulli moldava suas letras. “Retarded” abre Up In It como uma pedrada na cabeça. A acidez de Greg ainda aparecia muito mais punk (“Who you call retarded now? / I said who you call retarded now? / I see you standing proud / Come one down and swallow hard”), mas a energia que a música empreende é assustadoramente alta. Do disco mais alt rock do grupo, saiu esse hino chamado “Retarded”.

2. “Conjure Me” – Congregation (1992)


No centro do furacão grunge, o Afghan Whigs mostrou em Congregation como eles se encaixavam bem no meio da lista de artistas da Sub Pop e, ao mesmo tempo, destoavam de toda a cena grunge. As guitarras fortes e cheias de reverb são marcantes em “Conjure Me”, mas é Greg Dulli que faz a separação entre o Afghan e os demais mais simples, pois poucos foram tão diretos, ácidos e reais em suas letras como Greg e os Whigs. “Conjure me” é o começo do refinamento da poesia de Greg sobre a dinâmica de seus relacionamentos que culminaria em Gentlemen.

Please understand, my love,
I find this sickening.
My head is ice, my love.
My skin is thickening.

But, oh, my love,
We could still be friends.
And, oh, my love,
With me you must contend.

I’m gonna turn on you before you turn on me.
I’m gonna turn on you, can you conjure me?

3. “Let Me Lie to You” – Congregation (1992)


Na primeira balada dessa lista, temo dizer, continuamos com o prenúncio do inferno que pode ser ter um relacionamento amoroso om Greg. O prenúncio de Gentlemen. “Let Me Lie to You” é uma prolongada, melancólica e linda tortura onde Greg tenta mostrar todo o seu carinho à sua maneira. “You open it / and discover your lover between the legs of another / and he’s loving it / Let me lie to you / I’ll be king when I deceive you / But you must never question me / Just quietly believe”, mas essa faixa não teria metade de sua beleza e melancolia prolongada de forma tão precisa se não fosse o lindo solo de Rick McCollum no meio da canção.

4. “Come See About Me” – Uptown Avondale EP (1992)


No mesmo ano de 1992, os  Whigs resolveram colocar na mesa quais poderiam ser suas influências mais claras com covers de Freda Payne, Supremes e Al Green num único EP, chamado Uptown Avondale. Se antes tínhamos algumas dicas da influência da música negra nos teclados e pianos de Congregation, na guitarra muitas vezes quebrada de McCollum e no blue eye soul de Greg Dulli, agora temos a prova física. Mesmo a leve “Come See About Me”, clássico nas vozes das Supremes, ganha um ar mais sexual nas mãos do Afghan Whigs. Daqui em diante, influências e referências da música negra serão uma constante na carreira do grupo e “Come See About Me” é uma das mais simbólicas de todas.

5. “When We Two Parted” – Gentlemen (1993)


Gentlemen é um álbum conceitual sobre um relacionamento entre uma parte poderosa e outra submissa, no qual Greg, obviamente interpreta a primeira. Gentlemen é um álbum forte, sofrido, impactante do início ao fim e mais uma infinidade de adjetivos e por isso o clássico imbatível do grupo. Essa mixtape poderia ter sido toda feita só com canções desse disco e por isso foi difícil deixar “Be Sweet”, “Debonair”, “I Keep Coming Back” e outras de fora, mas as três canções que seguem vão fazer valer. a começar por “When We Two Parted”, canção que volta a acalmar os ânimos com pouca paz. A parte submissa (baby) a essa altura do disco já está bastante mal e Greg então apenas afirma “Ótimo, então eu tenho que me vestir e interpretar o assassino novamente. É o meu favorito, tem personalidade”. Daí em diante, ele é frio como um indiano que enfia a cabeça no meio da boca do crocodilo, frio como o seu personagem precisa ser, frio como Gentlemen exige: “Baby you can open your eyes now / And please allow me to present you with a clue / If I inflict the pain / then baby only I can comfort you”. Dói.

6. “What Jail Is Like” – Gentlemen (1993)


Mas quem acha que Greg Dulli é apenas um machão incorrigível nunca ouviu “What Jail Is Like”. Não com atenção pelo menos. Logo no começo, acuado e se debatendo em um canto, ele inicia a canção avisando: “I’ll warn you, if cornered, I’ll scratch my way out of the pen / Wired, an animal / The claustrophobia begins / You think I’m scared of girls / Well, maybe / But I’m not afraid of you”. Uma sutiliza de imagens que traz à tona todo o desespero do personagem de Greg que até alivia o mais sensível às suas palavras. “What Jail Is Like” extrai uma série de sentimentos que ele faz acreditar serem tão ruins quanto a prisão. Eu acredito.

7. “My Curse” – Gentlemen (1993)


Bom, a história é que quando o grupo foi gravar “My Curse”, Greg Dulli não aguentou o sofrimento de suas próprias palavras na canção. Coincidentemente ou não, ele chamou sua amiga Marcy Mays para cantar em seu lugar e o resultado é uma das músicas mais sofridas de todos os tempos. A faixa explica o fetiche, a obsessão e a culpa em forma de confissão e isso é duro de ouvir e muito mais duro de fazer. Mas entra aqui um pouco do masoquismo que todos nós temos em menor ou maior escala. “My Curse” é a porrada do knock out de Gentlemen.

You hurt me baby
I flinch so when you do
Your kisses scourge me
Hyssop in your perfume
Oh, I do not fear you
And slave I only use
As a word to describe the special way I feel for you

You look like me
And I look like no one else
We need no other
As long as we have ourselves
But I won’t cry about it
Every time you get obsessed
Every time I came undressed

All ugly thoughts are gone
I’m sure we’ll all be friends
I’ll try to break your back
You’ll try to make amends
Curse softly to me baby
And smother me in your love
Temptation comes not from hell but from above

And there’s blood on my teeth
When I bite my tongue to speak
Zip me down, kiss me there
I can smile now
You won’t find out ever
Hurt me baby
I flinch so when you do
Your kisses scourge me
Hyssop in your perfume
Oh I do not fear you
And slave I only use as a word to describe
The way I feel when I’m with you
If I have to lie about it everytime I came undressed

8. “Going to Town” – Black Love (1996)


Em Black Love o amor pelo funk e soul são muito mais claros e “Going to Town” é um funk incendiário que finaliza com uma das “catch phrases” mais marcantes de Greg Dulli: “There is a cost / When you say / Now we got hell to pay / Don’t worry, baby. That’s okay / ‘I know the boss’”. Em uma entrevista para a Quietus, Greg fala exatamente sobre essa frase: “é como uma grande fala num filme ou uma linha em um livro que se destaca na página e faz valer todo o capítulo. É uma recompensa (pay of). Qualquer pessoa que curta esse tipo de recompensa é bem vindo

9. “Summer’s Kiss” – Black Love (1996)


Quando Black Love foi lançado, parece que Greg Dulli já tinha tirado o peso de Gentlemen de suas costas e com isso a evolução do grupo foi toda musical. O disco traz o funk e o soul para mais perto das guitarras de McCollum e o resultado é um álbum bem para cima, exaltado e bonito. “Crime Scene, Part One”, ‘Double Day”, “Step Into the Light” e “Blame Etc” são ótimos exemplos, porém, é “Summer’s Kiss”, lá no fim, que merece o destaque por exorcizar os demônios de Greg através dos gritos. Uma faixa apoteótica.

My love, this dream I have each night
I stare into a blinding light
Alone, I stare

Demons, be gone
Away from me
And come on down to the corner
I got something i want you to see

10. “66” – 1965 (1998)


E quando em 1998, dezesseis anos atrás, o Afghan Whigs lançou 1965, mal sabiam todos que eles já estavam muito mais perto de 2014 do que dos anos 90. Pois 1965 é um disco pop com uma dose de R&B que pouco vimos no alt/indie rock atual e, por isso, um lançamento único na carreira do grupo. Nos shows atuais, o Afghan Whigs tem tocado novas covers e dentre os artistas preferidos da banda está Frank Ocean. Uma escolha que se torna bastante óbvia, principalmente se tivermos 1965 na cabeça. O álbum tem o charme do R&B e Frank Ocean poderia pensar em retribuir a gentileza e tocar “Somethin’ Hot”, “John the Baptist”, “Crazy”, “Omerta” ou “66” em seus shows. Essa última encerra essa lista e essa mixtape simplesmente por ser uma das canções mais viciantes e singelas de toda a carreira dos Whigs.

The Afghan Whigs by Suppaduppa on Grooveshark

Que venha o próximo disco!

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