Entrevista: Juana Molina

17.02.2014 — Entrevistas, Música

juana-molina-3Aos 51 anos de idade, Juana tem um vasto e precioso currículo. Os trabalhos mais reconhecidos são o programa humorístico (Juana y sus Hermanas) que criou e atuou com muito sucesso no início dos anos 90 e mais seis excelentes discos e de sonoridade bem peculiar e única. Mas o que se sobressai nessa breve conversa que tivemos com Juana não são as suas conquistas ou “desconquistas”, mas o conhecimento e sabedoria extraídos de ambos. Pelos personagens que criou, pelas escolhas que fez ou pela música que faz, Juana simplesmente transborda autoconhecimento e se eu tenho uma esperança nessa vida, agora, é de um dia ter a clareza que Juana tem com as coisas que a cerca.

Mesmo morando em países vizinhos, a sua música não é muito conhecida no Brasil. Por essa razão, você pode nos contar um pouco sobre você? Onde você nasceu, onde vive atualmente e qualquer outra informação que queira compartilhar.

Eu sei. O Brasil é um país muito grande com milhares de ótimos músicos e não é muito comum que pessoas cantando em espanhol sejam muito conhecidas por aí.

Eu nasci em Buenos Aires e ainda vivo por aqui. Eu morei na França quando era adolescente, mas decidi voltar quando eu completei 20 anos.

juana-apartamento

Na revista Apartamento você mostrou viver ao redor de muitas plantas. As plantas são uma parte importante na sua casa e na sua vida?

Plantas são vida. Natureza é vida. E apesar do fato de nós sermos parte da natureza, é estranho ver como a gente vai contra isso. Eu simplesmente não entendo porque as pessoas preferem cimento a grama.

Queremos saber também sobre o seu trabalho como atriz. Você começou sua carreira atuando em programas humorísticos. Como isso começou? Você atuava quando era criança?

Eu tinha uma habilidade natural herdada por parte de pai. Eu e meus primos costumávamos imitar e zuar as pessoas. A minha avó fazia os seus irmãos mais novos sentarem ao seu redor após ela voltar do cinema e então ela interpretava o filme todo personificando cada um dos personagens do filme. Eu me lembro de ela imitar a mulher da padaria, da mercearia e a maioria das atrizes e apresentadoras de televisão. Então eu fazia a mesma coisa, mas isso se transformou em uma carreira.

Você criou todos os personagens de Juana y Sus Hermanas sozinha? Você era uma grande fã do Woody Allen ou o nome era só porque soava parecido com Hannah and Her Sisters?

Surgiu porque soava similar a Hannah and Her Sisters. E, sim, eu criei todos os personagens. Não sou capaz de personificar alguém que não tenha vindo das minhas próprias observações.

E como foi reviver todos aqueles personagens para o comercial da Claro depois de tantos anos?

Eles estão sempre vivos. É apenas uma questão de decidir quando fazer eles atuarem. Quando atuo, é como ser eles mesmos [os seus personagens]. Então eles não podem morrer.

Como foi a transação de ser uma atriz para uma música?

Na verdade eu comecei a atuar para ter dinheiro para poder fazer música, mas eu fui pega na minha própria armadilha. Eu nunca imaginei que a minha carreira como atriz pudesse ir tão bem. Após sete anos, eu percebi quão longe estava da minha meta principal, então voltei imediatamente para a música antes que fosse tarde demais.

Você costumava tocar algum instrumento quando era criança? Qual foi o primeiro instrumento que aprendeu a tocar?

Meu pai me ensinou a tocar violão quando tinha cinco anos de idade e tenho tocado desde então. Eu nunca fui uma boa aluna, eu sou mais autodidata apesar de ter feito aulas de violão algumas vezes. Quando eu era adolescente, eu comecei a escrever as minhas primeiras canções. Na realidade, as músicas do meu primeiro álbum (Rara, de 1996) foram escritas antes do programa de TV.

Você esteve numa turnê européia recentemente. Como foi a recepção do novo disco, Wed 21?

Eu estou muito feliz. Pela primeira vez na minha carreira musical eu toquei para pessoas que cantaram as canções junto comigo nos shows. Tem algo nesse disco que, por algum motivo, deixa as pessoas mais felizes.

Como é o seu processo de composição? Você toca todos os instrumentos dos seus shows e como você faz nos seus discos?

Eu suponho que todos tenham um processo similar. Você começa tocando a primeira coisa que vem à mente: uma sequência de cordas, uma melodia, um ritmo. Geralmente eu começo tocando algo no violão e daí todo o resto vem. É só uma questão de trabalhar e trabalhar até eu ir além do trabalho do dia-a-dia e entrar num túnel onde tudo é falado e ouvido ao mesmo tempo. Os instrumentos desaparecem, o computador desaparece, eu desapareço.

Nos shows eu dou um jeito de tocar tudo sozinha, mas em Wed 21, a dinâmica das canções me forçaram a reunir uma banda. Eu não gosto de tocar com faixas pré-gravadas então eu precisei de outras pessoas para construir as músicas do jeito que eu queria.

Em 2007, você tocou no Brasil no mesmo festival que a Joanna Newsom tocou. Você acha que a língua pode ser uma barreira na hora de fazer a sua música mais conhecida mundialmente? Você já considerou escrever músicas em inglês?

Eu não acho isso, eu SEI disso!!! Mas para mim existe uma falsidade em cantar em inglês. Quando eu canto, eu não penso a respeito. Eu estou na música, quando canto qualquer coisa. Não importa. Mas se eu tiver que cantar em inglês, parte de mim estaria alerta, prestando atenção em algo que não é realmente importante. Cantar para mim é acompanhar o restante dos instrumentos. É um todo e eu não quero interferências na minha mente.

Quem é sua atriz favorita?

Bette Davis.

Tags: