10 trilhas sonoras de Ennio Morricone para filmes de suspense/terror

19.02.2014 — Matérias, Música

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O italiano Ennio Morricone já fez tantas trilhas sonoras que fica difícil saber por onde começar, especialmente para aqueles que desejam se aprofundar em seu rico e vasto universo musical. A lista desta publicação reúne 10 – e é bom deixar claro que ela poderia ser duas ou três vezes maior sem muito esforço e sem perder a qualidade – de seus principais trabalhos feitos para filmes de suspense e terror. Claro que o ponto de partida da listagem abaixo não poderia ser outro que não a trilogia giallo para Dario Argento, três obras-primas do cinema e da música daquele país. Apesar de na tela grande as películas causarem medo e/ou desconforto em alguns, nem sempre as trilhas acompanham essa pegada: Morricone muitas vezes entrega faixas de extrema beleza para momentos de grande desespero, uma característica bastante presente em suas obras e algo que o distancia dos demais compositores da mesma época. (PS: Não costuma ser muito fácil achar alguns desses discos por aí, mas a grande maioria deles está disponível no Rdio, assim como dezenas de outras incríveis trilhas sonoras europeias que nunca viram a luz do sol fora do continente).

10 discos de Ennio Morricone para filmes de terror/suspense by Suppaduppa on Grooveshark

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Il Gatto A Nove Code
(Dir.: Dario Argento; 1971)

Uma música-tema belíssima e ao mesmo tempo capaz de fazer você suar frio (caso tenha assistido ao filme). Ao longo das faixas do trabalho ouvimos orquestrações e muitos instrumentos caminhando de mãos dadas para tornar tudo mais bonito, mas também temos canções extremamente vazias e minimalistas (várias delas com poucos pianos, um baixo marcante, sussurros e barulhos esquisitos). Música atonal e experimental que faz muito sentido para o longa de Argento e para a tensão e o suspense das cenas. Il Gatto A Nove Code é um clássico de Morricone e um dos meus discos favoritos do mestre.

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4 Mosche di Velluto Grigio
(Dir.: Dario Argento; 1971)

O tema principal é bem sessentista, um rock de levada agitada com direto a solos de guitarra e de teclado. Mas essa empolgação toda para por aí. “Come un Madrigale” é de chorar, com toda a certeza uma das músicas mais bonitas já feitas por Morricone, repleta de beleza e delicadeza. Novamente ouvimos sussurros, cordas bastante agudas e um baixo marcando bem o andamento da faixa. O restante também é sutil, mas não deixa de apresentar um lado mais estranho e experimental, embora a trilha de 4 Mosche di Velluto Grigio, apesar da violência do filme, é quase sempre sufocantemente bela. A máxima do tema-e-variação reproduzida de maneira brilhante.

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L’uccello Dalle Piume di Cristallo
(Dir.: Dario Argento; 1970)

Mais um exemplo perfeito de como Morricone e Argento combinam feito queijo e vinho e de como o compositor consegue fazer a gente sentir calafrios e, ao mesmo tempo, ficar com os olhos marejados com suas canções belamente produzidas e construídas. No meio do pacote, aparece até música brasileira – na verdade aquela música bem italiana com inspirações claras na bossa nova. A trilha sonora de L’uccello Dalle Piume di Cristallo é uma das mais recompensantes de Ennio, especialmente se você já assistiu o filme, pois é muito fácil associar o som às imagens. Mas, mesmo separado do longa, é um disco que anda com as próprias pernas (e isso vale para quase tudo que ele fez) e também um dos mais completos: música atonal, experimental, bossa nova, pop, rock, jazz… os gêneros são muitos. Essa trilogia de trilhas para Dario Argento é praticamente insuperável (os filmes não seriam os mesmos sem o talento de Morricone), mas o que vem a seguir também vale ouro, então não pare por aqui.

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Una Lucertola Con La Pelle di Donna
(Dir.: Lucio Fulci; 1971)

Edda Dell’Orso deixa mais mágica a trilha de Una Lucertola Con La Pelle di Donna (e qualquer trabalho de Morricone) com sua voz sem igual e seu canto que não usa palavras. Outro disco que apresenta mais beleza e calma do que medo, apesar de praticamente todas as faixas carregarem um certo ar de suspense, especialmente as mais experimentais. Tem também psicodelia, rock, minimalismo atonal e um pouquinho de bossa nova – quase sempre abusando belamente de tema-e-variação. “La Lucertola”, o faixa principal do filme, é daquelas para ouvimos repetidas vezes e cantarolamos sem esforço.

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Le Foto Proibite Di Una Signora Per Bene
(Dir.: Luciano Ercoli; 1970)

Quanta leveza na faixa-título! Quanta beleza e sutileza, numa levada tipicamente Morricone, uma sequência de notas que ouvimos e imediatamente sabemos que foi composta pelo italiano. Logo em seguida, “Qui Ci Scappa Il Morto” causa calafrios e tensão com suas poucas notas e pianos tocados “aleatoriamente”, mas “Amore Come Dolore” retoma a brisa do começo do disco, seis minutos de crescendo e um baixo muito bonito e bem marcado. Basicamente assim caminha a trilha de Le Foto Proibite Di Una Signora Per Bene, intercalando faixas mais tensas com canções ou agitadas feito chuva de verão ou leves como o vento da primavera. Indispensável para qualquer fã do compositor.

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Exorcist II: The Heretic
(Dir.: John Boorman, Rospo Pallenberg; 1977)

A continuação de O Exorcista pode não ter feito sucesso, mas sua trilha sonora certamente tem qualidade suficiente para se distanciar de qualquer discussão envolvendo a película. Sim, “Regan’s Theme” é tranquila e bela, mas “Pazuzu”, que aparece logo em seguida, é um pesadelo sonoro, algo como estar no meio de um ritual satânico. Enquanto isso, “Magic and Ecstasy” é pesada e bem tocada – lembra muito algumas coisas feitas pelo Goblin –, e se destaca no álbum por seu ritmo alucinante e assustador. Esqueça o filme e ouça Exorcist II: The Heretic, a trilha.

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Vergogna Schifosi
(Dir.: Mauro Severino; 1969)

Para um longa cujo título pode ser traduzido livremente por “Vergonha Nojenta”, é notável que sua trilha sonora passe bem longe disso. São apenas seis músicas disponíveis, e a mais marcante delas é “Matto, Caldo, Soldi, Morto… Girotondo”, uma ciranda maldita envolvendo mistério, morte, sexo e suspense. “Guardami negli Occhi”, a única um pouco mais distinta, tem um quê de Beatles, mas o restante é basicamente tema-e-variação em vários níveis. Gosto muito de Vergogna Schifosi por ser uma trilha muito charmosa e delicada, e pode apostar que a voz de Edda Dell’Orso tem muito a ver com isso.

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Macchie Solari
(Dir.: Armando Crispino; 1975)

Aqui o clima é de solidão, isolamento e até um pouco de nostalgia. Macchie Solari é uma trilha sonora belíssima, de encher os ouvidos com detalhes (leia-se Bruno Nicolai regendo a orquestra) e sussurros (leia-se Edda Dell’Orso, sempre ela). Daqueles trabalhos não muito conhecidos de Morricone mas, ainda assim, cheios de qualidade. Apesar da faixa-título ser um tanto quanto ensolarada, todo o restante da trilha é assustador, e dou como exemplos as faixas “Com voce Strozzata”, “Passagio Secondo” e “Sesso e Potere”, mas especialmente “Sibili”, um coral de assobios de causar arrepios.

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Copkiller
(Dir.: Roberto Faenza; 1983)

Normalmente as pessoas não costumam dar muita bola para as trilhas sonoras feitas por Ennio Morricone na década de 80, e é claro que elas estão perdendo muito. Como Copkiller, um filme com Harvey Keitel e John Lydon de ’83 cujas canções são basicamente guiadas pelo som do baixo. Dos baixos, já que ouvimos mais de um nas faixas e eles são fortes e estão na sua cara durante todo o disco. O clima aqui é de muita tensão e suspense, e a música é primordialmente experimental. Um grande trabalho, com excelente produção e que dificilmente entrega a década em que foi gravado. Copkiller não deve ser ignorado pelos fãs de Ennio ou das trilhas sonoras italianas.

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Città Violenta
(Dir.: Sergio Sollima; 1970)

Esse aqui dispensa apresentações. Deveria, pelo menos. Città Violenta é um filme de 1970 com Charles Bronson no papel principal e cuja trilha está na segunda leva de trabalhos mais conhecidos de Morricone. E ela merecia estar aqui somente pela inesquecível e poderosa faixa-título, mas acontece que todo o restante é igualmente especial. Um disco mais “roqueiro” do italiano, com muitas guitarras com efeitos (algumas delas remanescentes dos Spaghetti Western) e um quê de psicodelia. São 14 músicas muito boas e bem produzidas, além de tensas e carregadas, com dezenas de instrumentos e um clima grandioso que fecha essa lista com chave de ouro. Città Violenta é uma verdadeira e atualíssima obra-prima.