Show: Pink Mountaintops e Washed Out — Cine Joia, São Paulo — 03/04/2014

(Foto: Ariel Martini/Divulgação)

A premissa é das mais convidativas: duas boas bandas internacionais – Pink Mountaintops e Washed Out – trazidas para o Brasil em meio a um mercado de incertezas e dólar oscilante e com apenas uma contrapartida exigida do público: a presença, já que os shows foram gratuitos.

Garantir essa contrapartida foi o custoso desafio de ontem. Isso porque presença nem sempre quer dizer público consumidor, já que para isso seria necessário prestar atenção nas bandas e olhar mais para o palco do que para o bar.

De lá de baixo, pressupõe-se que o Pink Mountaintops precisou conquistar, sem muito afeto do público, os olhares e ouvidos dispersos com sua combustão de garage, psicodelia e, veja só, vocal britpop – este, ainda mais assinalado pelos reverbs exaustivos do Cine Joia. “Ambulance City”, que capitaneia o mais recente disco dos canadenses, Get Back (2014), já denunciava que a música como um todo, na bela iniciativa da Converse Rubber Tracks, teria de respirar com a ajuda de aparelhos no Cine Joia.

A banda de Gregg Foreman fez um bom show, mas bom não é adjetivo que cabe a quem, ao vivo, poderia trazer ainda mais volume e camadas ao ótimo registro de estúdio. Em vez disso, “Shakedown”, “Sell Your Soul” e “Outside Love” desfilaram tímidas, com alguns poucos rompantes mais enérgicos, acentuados pelas guitarras.

Foreman até tentou uma interação com o público, mas foi ignorado. E o show de nove músicas, tocadas em alto volume, se calou com rapidez, preenchendo com um silêncio constrangedor o espaço reservado para os aplausos e para os pedidos de bis.

Sorridente, Ernest Greene, sob a alcunha de Washed Out, não tinha a mesma invisibilidade do Pink Mountaintops na noite. Sua entrada no palco foi comemorada, e o violão de “It All Feels Right”, que se sucedeu a “Entrance”, mostrou que ele tinha dotes promissores de entertainer. A presença de uma banda de apoio e um show quase que integralmente orgânico para a sonoridade synthpop e chillwave ajudaram a manter, em suspensão, a promessa de que a noite poderia ser memorável. Mas estava bem longe de ser unanimidade.

(Foto: Ariel Martini/Divulgação)

Quem estava na frente vibrava com o desfile de hits de Paracosm, lançado em 2013. O disco marca uma clara diferença frente à introspeção dos trabalhos anteriores, e Greene e banda souberam catalisar a expectativa do público com uma boa dosagem de violão, percussão e sintetizador. Ainda assim, uma grande massa de ouvintes do Cine Joia, especialmente aquela situada no fundo do palco, permanecia alheia e sem diálogo emotivo com o show, contrastando drasticamente com algumas dezenas de fãs que dançavam, entusiasmados, na área mais próxima ao palco.

“Amor Fati” arrancou os suspiros mais catárticos, mas houve quem lamentasse a ausência de “Great Escape”. O set foi compacto para uma banda tão esperada, mas o horário já tinha avançado da meia-noite e a preocupação com o táxi era visível no rosto de muitos.

O saldo musical da noite merecia ser mais positivo e distanciado do tédio. Além de incômodos técnicos como uma guitarra muito mais alta que a outra no Pink Mountaintops, e microfones instáveis no Washed Out, houve também o desafio do entretenimento. É sempre uma aposta apresentar bandas ao público e estabelecer uma relação de cumplicidade entre ambos. O Washed Out tinha um público cativo ali que pouco tinha a ver com o pretenso público do Pink Mountaintops, e vice-versa. Tanto que uma parte significativa das pessoas foi embora ao fim do show dos canadenses. Ambas as apresentações ao vivo foram menos impactantes do que a antecipação dos shows, sustentada por registros de estúdio espalhados no Facebook e no Twitter. O desejo virtual, infelizmente, superou o contato real na noite de ontem.