Show: Sebadoh — Red Bull Station, São Paulo — 29/04/2014

Sebadoh (EUA)

Sebadoh (EUA) (Fotos: Amanda Mont’Alvão)

Manter a integridade física e musical em um gargalo de 20 anos é para poucos guerreiros. Um show do Sebadoh na turnê do Bakesale, em 1994, não deve ter sido muito diferente da apresentação deles na terça-feira (29), no cinematográfico Red Bull Station. E arrisco dizer que também não deve ter sido muito distinto dos demais ao vivos no Sesc Pompeia, nos dias 20 e 21, os quais infelizmente não pude presenciar.

Bakesale e 1994 são tomados como exemplo porque se tratavam do auge da banda, ainda que a composição fosse diferente (a bateria, no disco, ficou a cargo de Eric Gaffney e Bob Fay). Um disco irretocável, uma gravação e uma postura lo-fi, uma gigantesca receptividade de ouvintes pelo mundo todo.

Quase duas décadas depois, temos Defend Yourself (2013), um belo LP/CD/pasta de MP3, autônomo da nostalgia, feito depois de 14 anos sem registro inédito – isso se não considerarmos as quatro músicas do Secret EP (2012). Eis o segredo da sobrevivência além-saudade: a bala na agulha que arrisca novas ideias, em vez de reciclar sons já apreciados.

Resumidamente, o que se viu na noite de ontem foi fôlego. Criativo, sonoro, muscular e emocional. Veja bem, há seda para ser rasgada. Hoje na casa dos 40 anos, Lou Barlow (voz, guitarra, baixo), Jason Loewenstein (voz, guitarra, baixo) e Bob D’Amico (bateria) subiram ao palco e vibraram em um crescendo efusivo, proporcional ao acionamento dos pedais de distorção.

A turnê brasileira, promovida pela Balaclava Records, Brain Productions e pela banda Single Parents, de SP, já passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Recife (PE) e Cataguases (MG), e rumava para Maringá (PR).

Single Parents

Single Parents (SP)

The John Candy (RJ)

The John Candy (RJ)

A apresentação no Red Bull Station foi antecedida pelos bons shows de The John Candy, do Rio de Janeiro, e do Single Parents. As bandas souberam climatizar com autoria o ambiente sonoro da noite e certamente mereciam mais público, o que mantém acesa a discussão sobre a recusa de muitos paulistanos em conferir bandas locais. Ainda que promovido para 200 pessoas, o evento, com ingressos a R$ 50, não chegou a lotar, e os presentes transitavam pelos vários espaços do Red Bull Station.

Abertura feita, chegou a hora de o Sebadoh subir ao palco para aquele que seria o último show em São Paulo. O setlist parecia um leilão em que todo mundo faturava pelo menos um lance. Bastava fazer o pedido e aguardar o quase certeiro atendimento. Entre clássicos e novidades, se cantou e gritou “Magnet’s Coil”, “Arbitrary High”, “On Fire”, “License to Confuse”, “Love You Here”, “Oxygen”, “State of Mine”, “Final Days”, “Defend Yr Self” e tantas outras. “Not Too Amused” e “Not a Friend”, dois grandes representantes da introspeção noventista, assinalaram talvez os poucos momentos mais melancólicos, que poderiam ser mais assumidos se houvesse o belo dedilhado de “Let it Out” no setlist. Em contrapartida, Lou sorri, visivelmente alegre, quando pedem “I Will”, single do mais novo disco, e exemplo de leveza e otimismo.

A interação com a plateia ora vem no “obrigado, São Paulo”, ou no pedido de desculpas por não lembrar o começo de uma música. O setlist, bem ancorado no último disco, termina de olho no passado, com “Rebound”, extraído de Bakesale. Daí vem o bis, com “Love to Fight”, “Careful” e a grata surpresa de “Keep the Boy Alive”, até então não tocada no Brasil. A cereja mesmo só foi pro topo do bolo depois de muitos pedidos – e expectativa. É então que explode “Brand New Love” e sua potente cozinha distorcida, aplicando aquele golpe épico que 10 em cada 10 bandas tentam ao encerrar um show. Dito e feito: o fim foi bonito, enérgico, angustiante, saudosista e cheio de planos.

Lou Barlow

Lou Barlow

“Brand New Love” merece um capítulo à parte na resenha. Em 2010, em uma noite de chuva pesada, Lou tocou essa música para uma plateia silenciosa e emocionada no Espaço Soma, em São Paulo. A voz dele, suave, quase sumia, ou quase embargava. Quatro anos depois, “Brand New Love” foi cantada com firmeza e assertividade. Pareceu uma declaração de mudança e amadurecimento. Lou Barlow, o indispensável 1/4 do Deep Wound e 1/3 do Dinosaur Jr (bandas seminais para tudo que hoje se entende por rock alternativo), que lá atrás transformou em música sua insegurança e seus conflitos com controle, hoje pode se agarrar a uma recém-descoberta autoconfiança. Ainda que a vulnerabilidade se manifeste como fantasma em seus trabalhos, é a relevância, a persistência e a capacidade de sublimar que mais bem lhe descrevem hoje em dia.

Jason Loewenstein

Jason Loewenstein

Bob D'Amico

Bob D’Amico

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