Show: Yo La Tengo — Cine Joia, São Paulo — 03/06/2014

05.06.2014 — Matérias, Música

yo-la-tengo-1A racionalidade pode tentar dizer que o primeiro show que o Yo La Tengo fez em São Paulo, em 2001, pegou a banda em seu auge, logo após o lançamento de …And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (2000), e por isso tudo indica que aquela apresentação tenha sido perfeita. Afirmação justa, mas apesar de mais de treze anos terem passado, tudo o que resta e importa após o show que o Yo La Tengo fez ontem no Cine Joia é a paixão e com ela eu digo: o show de ontem, 3 junho de 2014, foi um dos melhores espetáculos de música que já presenciei na vida.

É sempre tolo sair proferindo frases com superlativos e tal. Ainda mais quando todos parecem concordar. Precisa, você pergunta? Precisa.

Precisa porque mesmo após trinta anos de existência, mesmo após o suposto auge ter passado, mesmo após eles terem se reinventado e lançado um punhado de discos mais pop e bem atuais, mesmo após tanto tanto tempo, o Yo La Tengo foi capaz de silenciar e emocionar o Cine Joia com uma simplicidade e naturalidade impressionante. Mas comecemos pelo começo.

O show abriu com “Stupid Things”, do último disco do grupo, Fade. E logo de cara foi possível perceber que o som do Cine Joia estava impecável. Ira foi aquecendo os dedos e a sua guitarra e o som ganhava corpo com a bateria motorik ao fundo. Uma das mais bonitas características do grupo, a repetição, ganhava muita força ao vivo e logo na primeira canção eles já se mostravam em total controle sobre todos os sons que emitiam de cima do palco. Um negócio incrível de se ver.

“From a Motel 6”, de Painful (1993), “Autumn Sweater”, de I Can Hear the Heart Beating as One (1997) e “Last Days of Disco”, de Turned Itself, apareceram na sequência e Ira foi o único encarregado de continuar a hipnotizar o público com o seu canto sussurrado que mais parecia um vento, um belo e diferente instrumento de sopro, um mantra.

Um pouco adiante, foi a hora das mais pop “Is That Enough” e “Mr Tough” alegrarem o ambiente com a melodia para cima e guiadas pelo teclado de Ira. Mesmo sem o violino da primeira ou as linhas de metais da segunda, as canções são encorpadas e dançantes o suficiente para deixar todo mundo bem alegre com os hits recentes.

Além do som, o Yo La Tengo tem total controle sobre o seu setlist também, pois após essa piscadela de alegria, Georgia saiu de trás de sua bateria para cantar a canção mais bonita de Fade, “Cornelia and Jane”, como uma diva, como uma Nico. Os dedos de Ira e James percorriam delicadamente os instrumentos, então o silêncio era mais do que essencial para escutar a poderosa voz de Georgia. O silêncio na verdade era o quarto integrante nessa parte do show e ele se encaixava perfeitamente entre as pausas e os “uhu” de Georgia. “Nowhere Near” manteve os três à frente e Georgia foi se sagrando a heroína improvável, pois ao vivo a sua voz é simplesmente perfeita principalmente quando está acompanhada assim por tão pouco ruído. Em “Black Flowers” foi a vez de James cantar sozinho ao violão e em “I’ll Be Around”, ainda com os três à frente e sem bateria para acompanhar, Ira volta a tomar conta do microfone para esse último gole de intimidade, de amor compartilhado e silêncio.

A essa altura o público já estava um tanto inebriado, imerso e nadando na sutileza do trio, mas ainda faltava acontecer muita coisa ainda. Além de “Before We Run”, cantada por Georgia já sentada na bateria, chegou a vez das bem anos 90 “Deeper Into Movies” e “Tom Courtenay” até o set finalizar com as apoteóticas “Ohm” e “The Story of Yo La Tengo”. Provando para quem ainda não tinha entendido que o auge podia até ter ficado para trás, mas o grupo não olhava com olhos saudosos para trás.

A verdade é que o show poderia ter acabado aqui, mas o bis ainda guardou a última surpresa. Não no cover de ZZ Top, nem na sempre presente “You Can Have It All”, mas na linda e singela versão de “I Found a Reason”, do Velvet Underground.

Além de serem capazes de suavizar qualquer ambiente, o YLT tem absoluto controle de sua arte. Ira é milimétrico em sua guitarra e hipnotizante com o seu canto, James é impecável no baixo e um backing vocal mais do que bonito e suave e Georgia um furacão em forma de mãe. Trinta anos de vida deram ao trio muita experiência e se você, assim como eu e muitos outros, perdeu aquele show de 2001 ou nem conhecia a banda na época, fique tranquilo. A apresentação do Yo La Tengo no Cine Joia foi simplesmente perfeita.

yo-la-tengo-2