Spoon – They Want My Soul

20.08.2014 — Música, Resenhas

Spoon

They Want My Soul

(Loma Vista; 2014)


Fazer as coisas na medida é algo que eu acabo prezando muito na música. Saber dizer com palavras suficientes, sem exageros, é algo que me satisfaz tremendamente e após escutar a They Want My Soul repetidas vezes posso dizer com o menor número de palavras possíveis que esse é um disco na medida.

Obviamente, vou acabar extrapolando um pouco a medida desse texto, pois ainda estou impressionado com o que o Spoon fez nesse seu novo disco, seguindo o mais lo-fi e menos amado Transference (2010).

Impressionado, primeiramente, pela precisão da produção e gravação do álbum. They Want My Soul é tão bem polido e musicalmente tão fluído que ele automaticamente se compara a ótimos lançamentos pop dos últimos anos, como o Amadeus Wolfgang Phoenix, do Phoenix, e até o último do Arcade Fire, Reflektor. Dave Fridmann e Joe Chiccarelli ajudam o Spoon a retomar o rumo de Ga Ga Ga Ga Ga (2007) e Britt Daniel se mostra muito mais disposto a retomar as melodias mais doces aos ouvidos que fizeram desse álbum um lançamento tão marcante.

Logo em “Rent I Pay”, que abre They Want My Soul, é possível sentir que o Spoon quer o controle total das ações. As guitarras quebradas e a bateria forte dominam a faixa e Britt encanta com o refrão quebrado: “That’s / the rent I pay / Like / My brother say it”. A beleza de “Inside Out”, na sequência, aparece numa faixa tão vazia que não resta nada a não ser prestar atenção nos teclados que brincam indo de uma orelha a outra, enquanto a bateria, sempre igual e alta, deixa um vasto campo para Britt se emocionar por mais de cinco minutos, a faixa mais longa do álbum.

“Rainy Taxi” começa e caminha para ser mais uma canção que o Spoon cansou de produzir e ela finaliza exatamente com esse gosto: de um bom e velho Spoon. Enquanto “Do You”, segunda faixa a ser lançada do álbum, traz os elementos balanceados perfeitamente para mais uma canção extremamente legal. “Knock Knock Knock” e “Outlier” mostram como o grupo é perfeito fora das melodias mais pop também. A primeira com um baixo gritando e guiando a faixa de forma mais dura, com assobios cortando o ar vindos do profundo deserto do Texas e por mais que a faixa cresça e a melodia dê uma leve amolecida no meio, o Spoon se mantém firme em sua posição. A segunda parece ter saído de Reflektor, mas ao invés da grandiosidade e da performance teatral do Arcade Fire, o Spoon apenas deixa o dance pop invadir cada instrumento, que, mais uma vez, entram e somem nas horas precisas.

Daqui em diante, They Want My Soul é uma explosão apoteótica da música pop de 2014. A faixa-título é mais tradicional, ao misturar a precisão da produção com um refrão grudento e um final quase apelativo com as guitarras estourando. A volta da dureza em “I Just Don’t Understand” pode parecer destoante no meio desse final mais melódico, mas o modo como os instrumentos vão aparecendo ao longo da faixa é cativa do início ao fim. “Let Me Be Mine” e “New York Kiss” são facilmente comparáveis a “Everything Hits at Once”, “Jonathon Fisk”, “The Underdog” ou “Cherry Bomb” de tão perfeitas em suas estruturas. A retomada em grande estilo no minuto final de “Let Me Be Mine” é de fazer parar o coração por alguns segundos, enquanto a última consegue explorar bem a experiência que Britt teve com Dan Boeckner (Wolf Parade) no Divine Fits. O sintetizador e a melodia quase Wolf Parade finalizam esse disco impecável com uma carta de amor.

Not like your New York kiss
But now it’s just another place
A place your memory owns
Right now I know no other time
Right now I know no other place
I say good night

They Want My Soul pode parecer auto consciente demais, preciso demais ou produzido demais, mas todas as vezes que escutei ao disco, seja andando na rua, lavando louça ou apenas ouvindo, sai um pouco mais revigorado, feliz mesmo. Um disco que extrapola a frieza mais repetitiva de outrora e libera as melodias pop, brinca com o seu ouvinte e não tem medo de ser bonito, mas que não perde o controle jamais. O Spoon deixa esse negócio de emoção para o restante mesmo e essa beleza matemática me comove, admito.

Nota
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9.0