Entrevista: Alan Bishop (Sun City Girls, Alvarius B., The Brothers Unconnected)

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Dois mil e sete deve ter sido uma verdadeira merda para os irmãos Alan e Richard Bishop. Eles, que por 27 anos tiveram (e ainda têm) suas existências praticamente confundidas com o Sun City Girls, enterraram naquele ano a banda junto com o baterista Charles Gocher, vítima de um câncer. Verdade que o bizarro grupo formado no começo dos anos ’80 no estado do Arizona compreensivelmente nunca fez sucesso o bastante para que uma enorme legião de fãs chorasse o fim do trio, chamando assim a atenção de mais gente para os 50 discos de sua discografia. Mas confie em mim quando eu digo que todos nós perdemos ali um poço de criatividade única que dificilmente voltará a aparecer enquanto estivermos vivos, por uma dezena de motivos.

Após o fim do SCG, ainda deu pra lançar o belo e melancólico Funeral Mariachi (gravado com Gocher antes de sua morte) em 2010 mas, antes mesmo disso, os irmãos Bishop já haviam decidido sair em turnê sob a alcunha de The Brothers Unconnected com o objetivo de revisitar o catálogo do grupo que acabava de acabar e, claro, para homenagear seu baterista. No sábado (20), São Paulo finalmente receberá essa turnê no CCSP, de graça, a partir das 19h (os mineiros de Pouso Alegre também poderão ver a dupla um dia antes).

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Por tudo isso, é uma honra não apenas poder entrevistar Alan Bishop – conhecido como Alvarius B. (antigo favorito da casa) quando se aventura sozinho, além de ser um dos responsáveis pelo maravilhoso selo Sublime Frequencies –, mas ter a chance única (literalmente, já que a turnê passa uma única vez por cada país) de poder assistir ao The Brothers Unconnected e, por tabela, o Sun City Girls. Um pouquinho de passado, presente e futuro dos irmãos, da banda e dos shows:

Essa será a primeira e última vez que o Brasil verá o The Brothers Unconnected tocando Sun City Girls, certo? Conte mais sobre essa turnê que começou em 2008 e como é homenagear Charles Gocher e o próprio legado da banda.

 
Sim, essa será a primeira e última vez no Brasil. O show dá a várias pessoas, que por algum motivo nunca viram o SCG ou que eram jovens demais quando existíamos, uma chance de ouvir essas músicas sendo tocadas pela primeira vez, e nós estamos muitos felizes em fazer essa apresentação. Tocar as músicas de forma acústica e mais simples dá um caráter mais intimista e informal para o show, por isso nós acabamos interagindo mais com o público. Será simplesmente Rick (Sir Richard Bishop) e eu juntos fazendo o que temos feito desde que éramos adolescentes, além de adicionar ao setlist algumas canções que o Charles compôs, para representá-lo da melhor forma possível, em uma mescla com o material do Sun City Girls.

E para esclarecer o motivo de continuarmos a fazer esses shows: a turnê começou nos Estados Unidos em 2008 e nós deveríamos ter continuado pela Europa logo em seguida, mas a perna europeia do giro acabou sendo adiada para 2011. Fizemos o show em Beirute (novembro de 2010) e no Cairo (abril de 2014) também. Mas não repetiremos os lugares com essa apresentação nos países pelos quais já passamos. Então, contanto que nos convidem para um país que ainda não tocamos com essa turnê, faremos a apresentação do The Brothers Unconnected. Apresentar essas faixas para um público que nunca testemunhou nossa música ao vivo antes é uma inspiração essencial para que se justifique tocar o mesmo material. Senão pode se tornar um exercício tedioso revisitar o passado continuamente.

É inegável que o Sun City Girls, com sua mistura sonora única que engloba diversos gêneros musicais, deixou um legado enorme e serviu (e ainda serve) de influência para várias bandas. Quando começaram com a banda tinham alguma ideia que o SCG teria esse tipo de imporância (ainda que vocês nunca tenham sido reconhecidos por isso)?

 
Claro que não tínhamos a menor ideia de que haveria um “legado” do SCG ou que causaríamos qualquer tipo de impacto em outras bandas quando começamos. Navegamos por nosso caminho por 27 anos sem um plano ou uma filosofia específicos, a não ser fazer de forma criativa e obsessivamente aquilo que tínhamos vontade e, assim como geralmente acontece de forma natural ao longo do tempo, nossa música e nossas ideias criaram vida própria e única.

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Seu trabalho espetacular à frente da Sublime Frequencies sempre me pareceu ser mais do que simplesmente sobre música – parece ser também sobre a vida, a alma e as conexões com outras culturas. É mais ou menos por aí? Você acredita que esse trabalho desempenha um papel importante em quem você é hoje em dia?

 
Sim, acho que sim. Tento não pensar muito a respeito ou colocar tudo em um contexto histórico ou metodológico, mas continuo a fazer o trabalho que amo e a interagir com outros indivíduos que pensam de forma semelhante e que compartilham esse desejo louco de aprender e evoluir através da expressão humana e da descoberta. Quem sabe quando eu for mais velho e estiver dirigindo minha cadeira de rodas do tamanho de uma escavadeira, empunhando uma espingarda e uma garrafa de uísque em cima da cabeça e soltando fumaça velha na cara de todo mundo eu possa olhar para o Sun City Girls e para a Sublime Frequencies e tentar descobrir o que era exatamente aquilo que estávamos fazendo. Até lá, meu foco está nas próximas tarefas que estão ao meu alcance.

Acha que vai conseguir usar seu tempo livre (se é que haverá algum) no Brasil para pesquisar música brasileira estranha/esquisita para a Sublime Frenquencies?

 
Sim, mas não haverá tempo suficiente para fazer nada além de arranhar a superfície. Eu considero essa uma missão de reconhecimento ao Brasil, para ter uma ideia do que eu quero procurar quando eu retornar para uma visita bem mais longa.

Sei que vocês não tocarão ou gravarão mais como Sun City Girls, mas deve haver um monte de material guardado. Pretendem lançá-lo no futuro?

 
Sim, sempre tivemos a intenção de lançar mais áudio e vídeo do material do SCG e nós o faremos. Há um vasto arquivo, embora haja muito pouco tempo para nos focarmos no passado, porque Rick e eu estamos mais preocupados em continuar com nossos trabalhos até onde der, contanto que consigamos nos mantar inspirados e comprometidos.

Ao longo dos anos, o Sun City Girls lançou uma quantidade impressionante de gravações em diferentes meios, o que me deixa curioso a respeito do processo de gravação e composição. Como costumava ser? Acontecia de uma forma natural e livre, sem pensar muito?

 
Exatamente. Costumávamos compor e gravar de várias maneiras diferentes, improvisadas ou ensaiadas. Em 27 anos, trabalhar como um trio (e como uma família) e compartilhar experiências uns com os outros fez com que nossas ideias fossem integradas de forma natural ao SCG, de um jeito no qual era impossível separar nossas vidas pessoais da banda. Então, em essência, o SCG se tornou o componente mais vital e inspirador de nossas vidas.
 
 

THE BROTHERS UNCONNECTED NO BRASIL

Quando: Sexta (19/09), às 22h
Onde: Disco Hype – BR 459, Km 101 – Pouso Alegre/MG
Quanto: R$ 20
Info: Noropolis

Quando: Sábado (20/09), às 19h
Onde: Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000, Liberdade – São Paulo/SP
Quanto: Grátis
Info: Facebook