Sondre Lerche – Please (Mona; 2015)

15.10.2014 — Música, Resenhas

Sondre-Lerche-PleaseA figura de Sondre Lerche já está bem consolidada e feita em nossas mentes. Sabemos bem de onde vem aquelas melodias doces e nórdicas de Faces Down (2001) ou Two Way Monologue (2004). Sabemos bem como esse norueguês era capaz de produzir algumas das canções mais singelas e bonitas do começo do novo século quando contava com apenas 19 anos, no auge do indie pop. Por isso o seu novo lançamento, Please, não podia trazer grandes novidades. As melodias bonitas estão aqui, os refrões memoráveis também, o pop lindamente polido, assim como no auto-intitulado lançamento de 2011, também, mas a atitude é outra.

Sondre Lerche está mais desafiador, encarando e sem desviar o olhar para o chão. Pelo passado poderíamos até pensar que o primeiro single e faixa que abre o disco, “Bad Law”, era apenas uma pose de um menino bom se descabelando por alguns momentos no refrão, mas a letra já indicava um pouco essa atitude levemente diferente: “When crimes are passionate can love be separate?”.

Um single perfeito para iniciar o álbum que se mostra o mais ousado de sua carreira. Seja na sequência com a balada ao violão de “Crickets”, na vazia e confiante “Legends” (“Now we’ll never know what legends we could be / Just dumbass you and dumbass me”), na sensacional “At Times We Live Alone”, que remete à Fiona Apple no vazio dos instrumentos e no refrão direto: “I wanna come home, but I’m the guy you keep on trying / To commit to a crime / Try ‘I love you’, try ‘get angry’ / Try ‘go fuck off’, ‘call a friend’ / Try again, till the end” enquanto “Sentimentalist” fecha a primeira metade numa melancolia instrumental que escancara o fim do seu casamento, ou melhor, que previa de forma implacável o fim do mesmo, já que Please foi gravado antes do fim do seu relacionamento: “I’ll be damned if I fight / I’ll be damned if I don’t / In the end, would it count? / Don’t you know me, my love?”.

Musicalmente, a primeira metade passa mais pop apesar dos estranhamentos aqui e ali e da melancolia de “Sentimentalist”, mas quando “Lucifer” inicia o lado B do álbum, somos presenteados com uma bateira em primeiro plano que introduzirá um samba no refrão e que conduzirá bem a diferença musical de Please. “After the Exorcism” traz mais um pouco desse outro Sondre, pouco preocupado com a melodia e mais interessado em passar a mensagem, a atitude, num refrão bem pop: “I’m not holding on to innocence / I’m not holding on to violence / And I’ll be letting go of you soon”. “At a Loss for Words” é a mais sexual das faixas do norueguês, enquanto “Lucky Guy” passa cinicamente pelos bons momentos do casal até a derradeira conclusão: “I won’t lie, baby, you broke me”. “Logging Off”, guiada também pela bateria e pelo baixo, vai se desmanchando, se desfigurando em imagens, fragmentos de saxofone, zeros e uns, até a volta do riff inicial ao fundo anunciar o fim do jazz e o fim do álbum.

Se fosse para fazer uma comparação rápida, diria que Please é o Hissing Fauna Are You the Destroyer do Sondre Lerche. Enquanto Kevin Barnes leva a catarse e a esquizofrenia ao extremo como resultado do fim do seu casamento, Sondre tem esses momentos surpreendentes e que se transformam em libertadores na dose certa. Aparentemente foi o fim que ele realmente precisava, pois depois de sete lançamentos e contando com apenas 32 anos, Sondre Lerche pode ter recomeçado em grande estilo. Ele pode olhar tranquilo pelo retrovisor e ver aquele menino inocente que tentava disfarçar a insegurança estampando cada capa de disco com aquele visual certinho descabelado. Em Please ele só está descabelado e temos convicção disso mesmo sem ele aparecer na capa.

8.3