Dustin Wong & Takako Minekawa – Savage Imagination (Thrill Jockey; 2014)

12.11.2014 — Música, Resenhas

dustin-wong-takako-minekawa-savage-imaginationO calor não vai embora e à medida que o dia vai passando e as andanças pelas ruas não param a mente começa a derreter e se transformar num líquido gosmento que balança de um lado pro outro dentro do crânio. Nessas andanças de um verdadeiro desocupado, Savage Imagination, o novo disco de Dustin Wong em parceria com a japonesa Takako Minekawa, foi o fator impeditivo para que essa gosma não vazasse pelas minhas orelhas.

Pelos trabalhos solos anteriores de Dustin Wong não fica difícil imaginar como é o som de Savage Imagination, principalmente se lembrarmos de Toropical Circle, de 2013. A beleza matemática de “Pale Tone Wifi” por isso não é surpresa, muito menos o fato da voz de Takako se transformar em um dos principais instrumentos da canção. Mas o impressionante é sentir a emoção colorida com tão pouco sol da faixa. “Dancing Venus of Aurora Clay” é um kraut que chega a ser fervoroso, mas que não chega a ser frenético como era Dustin no Ponytail. A primeira parte da trinca “Dimension Dive” é uma viagem sem começo nem fim pelo deserto, um sonho devagar que desemboca na surrealidade da segunda parte, em “Dimension Dive Part 2: Earth Drum”, onde não há doçura, onde o cérebro não só funde mais um pouco como evapora. O baixo da parte final, em “Dimension Dive Part 3: Deep Sea Dance”, é a faixa que surpreende transformando todo o indie pop instrumental e surreal de Dustin numa verdadeira festa japonesa repleta de personagens bizarros dançando no oceano, na rua, debaixo do sol, sei lá onde.

A outra metade do álbum, porém, inicia uma viagem extraterrestre saindo direto de terras japonesas. “Dioramassaurus” é o grande momento dessa viagem tão bonita de sons espaciais extraídos do teclado e acompanhados pela bateria e quando as vozes entram no minuto final, após diversos loops e encorpamento, parecemos voltar a caminhar na Terra novamente. “She He See Feel” traz Takako cantando num japonês ininteligível e a sensação de estarmos novamente rumando para fora desse planeta é bem palpável. Quando o baixo aparece novamente lá para o minuto final, a transe é tamanha que a verdade é que não importa mais o local, o sol, o cansaço, o cérebro, o corpo, a matéria. Apenas “Pastel Ice Date”, a derradeira, importa, pois Dustin Wong e Takako Minekawa apenas deixam claro que a viagem está caminhando para o seu fim e tudo aquilo que esperamos da dupla volta para acalmar nossos ouvidos. São as guitarras bonitas de Dustin, os sons espaciais, os loops que encorpam a canção, os sussurros de Takako e a sensação de realmente estarmos vivo por exclusão.

A andança continua.

8.1