Entrevista: Michael Grace Jr. (My Favorite / The Secret History)

19.11.2014 — Entrevistas, Música

My-Favorite-1995Quando Michael Grace Jr. conta que ele sabia que o My Favorite tinha algo de diferente de seus contemporâneos porque “todo mundo vivia dizendo isso” em caixa alta, é hora de parar e olhar para trás. E nessa entrevista é exatamente isso o que a gente faz. Apesar de lá embaixo você poder escutar o novo single e de Michael falar sobre os planos e projetos de cada membro do grupo essa conversa é um grande olhar para o passado, para o que foi o My Favorite, banda atemporal apesar das influências anos 80 e disco music mais do que óbvias. Numa época, onde o indie pop passava longe de ser algo comercial como é hoje e onde, pelas palavras do próprio Michael, grupos eram compostos por jeans skinny e chimbau, Michael Grace Jr., Andrea Vaughn, sua então namorada, e o restante do My Favorite conseguiram ignorar o momento e lugar desfavoráveis para lançar um dos álbuns mais ambiciosos, grandiosos e genuinamente belos do fim dos anos 90. Love at Absolute Zero, com relançamento marcado para o meio de dezembro, é, sem sombra de dúvidas, um dos pilares do indie pop do século XXI e é por isso que tanto ele quanto eu olhamos para o passado do My Favorite com tanto fervor. É por isso que ele responde com essa riqueza de detalhes. É por isso que o My Favorite está de volta. Mas, antes, vamos dar essa volta pela Long Island dos anos 90.

É difícil encontrar informações ou detalhes sobre o My Favorite na internet. Por favor, conte a história da sua banda, por favor. De onde vocês vieram? Como você conheceu os outros membros da banda e por que vocês terminaram?

Essa é uma grande questão. Mas é verdade que ter como nome uma expressão tão comum pode te deixar meio imperceptível. Nós achávamos que estávamos sendo espertos e radicais quando escolhemos o nome, mas isso praticamente garantiu a nossa obscuridade. Esse foi também um dos motivos de eu ter escrito o zine “Myth / Memoir / Libretto” que está disponível com o relançamento de Love at Absolute Zero (que será lançado oficialmente no dia 16 de dezembro). Ele cobre desde as nossas infâncias até o ano 2000. Ele tenta contar a história de um tempo e de um lugar e, esperançosamente, mostra também a atmosfera psíquica que formaram as canções…pro bem e pro mal. Explica o que fez do My Favorite algo mais que um grupo pop, pelo menos para mim.

A maioria de nós se conheceu no colégio, depois nós encontramos o Todd, nosso baterista, e o Kurt, tecladista que entrou nos últimos anos da banda, na Universidade Stony Brook. Os dois lugares eram retângulos de duro concreto no meio de Long Island, um fino subúrbio de New York. Nós ficamos mais de dez anos juntos e a natureza do grupo era bem diferente entre 1994 a 1999 e entre 2000 a 2005, quando a cena na cidade de New York estava explodindo e não era mais psicologicamente possível produzir zines e lançar 7’’ quando bandas que abriram para nós, como o Interpol, se transformaram em rock stars. Isso fodeu um pouco com as nossas cabeças. O My Favorite eventualmente terminou porque Andrea (que cantava grande parte das canções) e eu não estávamos mais num relacionamento amoroso e a tensão de manter uma banda nessas circunstâncias cresceu mais do que o sustentável.

Onde você vive nesse exato momento?

Eu vivo numa vizinhança bem classe trabalhadora, multi-étnica dos Queens, chamada Sunnyside, na beira de uma grande área que está sendo gentrificada rapidamente chamada Long Island City, logo acima do East River.

O que você fez entre o My Favorite e o The Secret History? Você parou de fazer música em algum momento?

Sabe, eu nunca realmente “parei de fazer música”, mas eu parei de tocar por um tempo enquanto construía o The Secret History. Eu fui bem sortudo de discotecar numa ótima e famosa festa indie, a Mondo. A transição do My Favorite para o Secret History não foi fácil porque muitas coisas da minha vida e em mim estavam quebradas. Eu não havia pensado em como seria após o My Favorite porque a banda era tudo na minha vida adulta entre os 18 e 30 anjos. E ter isso arrancado de mim…e eu não quero que soe que tudo aconteceu contra a minha vontade. Quando a Andrea saiu, nós estávamos muito interconectados emocionalmente para simplesmente substituí-la como se nada tivesse acontecido.

Assim o Secret History foi criado e eu acho que escrevi algumas das minhas melhores canções e nós gravamos algumas das nossas melhores músicas. Mas durante todo esse tempo com o Secret History havia uma sensação, não sei muito bem como explicar, uma sensação que eu havia deixado parte de mim para trás. Era como estar num exílio estético. Sempre pareceu um pouco como um limbo. Parte disso era porque a primeira metade de The World That Never Was, primeiro disco do Secret History, foi escrito para ser o terceiro álbum do My Favorite, que começamos a gravar no estúdio do Walkmen no Harlem, mas que abandonamos depois. Nunca houve portanto uma delimitação entre as bandas.

Agora faz sentido para mim tentar reinventar o My Favorite quase nove anos depois. Estou bastante empolgado de reingressar nesse mundo obscuro nesse momento, no luar da era, andando na parte escura da cidade onde todos os outros sonhadores já foram despejados.

O My Favorite foi bastante cultuado na Suécia. Você sente que o indie pop que você costumava fazer era parecido com o indie pop sueco feito na época?

Na verdade, não. Quer dizer, a gente compartilhava algumas influências com o The Embassy, mas daí a gente tocava uma introdução imitando uma música do Johnny Thunder’s & The Heartbreakers…então, não. Era mais a mente aberta e o coração aberto dos fãs suecos que me impressionaram. Eles escolhiam os grupos que eles gostavam baseados no espírito ou em algum ideal…ou até baseados numa intensidade particular, não num conjunto estético. Eu lembro de um fã num festival sueco que falou que amava o My Favorite, o Moldy Peaches e o King Diamond e isso me impressionou. Eles estavam, de um modo geral, mais interessados nas palavras e ideias do que os americanos e isso nos ajudou muito. Tinham bandas dance punk em New York no começo dos anos 2000 que eram só jeans skinny e chimbau. Eles queriam mais. Nós lhe demos o que tínhamos.

Existe um lugar específico nos Estados Unidos onde vocês têm mais fãs?

Instituições para loucos. Complexos habitacionais de aluguel baixo. Eu não sei.

O que fez você relançar Love at Absolute Zero em vinil em 2014? Você é um colecionador ou algo do gênero?

Ha. Bom, eu acho que o vinil soa melhor. E eu tenho um fetiche por plástico. Eu acho que seria muito mais fácil ser um copo de plástico descartável flutuando no oceano. Um estado de ser muito mais honesto. As pessoas também me pediram para relançar o disco em vinil.

Algumas influências musicais são bem claras quando escutamos às suas canções, como Smiths, New Order, etc. Quais são suas influências obscuras? O que você gosta de escutar que não é tão aparente na sua música?

Hmmmm influências obscuras. Muito do meu senso melódico durante os últimos anos do My Favorite foi certamente culpa do compositor francês Erik Satie. Eu também costumava mergulhar em música que eu particularmente não amava, mas da qual poderia aprender alguma coisa. Como as coisas da gótica/darkwave marginalizada gravadora Projekt dos anos 90. Existia um culto bem grande de moleques góticos e industriais na loja de discos em que trabalhava e eu era fascinado por eles. pela dureza e afastamento da música. Eu só escutava o que eles tocavam quando estava na loja, mas aquilo me influenciou.

Acontecia a mesma música com a dance music e house dos anos 90, como SNAP!, Corona e Soul II Soul. Eu escutava muito a WKTU; estação de rádio dance de NYC. Eu me lembro de ter tido uma das poucas boas conversas com Stephen Merritt (Magnetic Fields) no Dick’s Bar lá no East Village sobre como nós dois amávamos escutar à rádio, particularmente quando eles tocavam free style antigo e Madonna. Eu também amava a Sade.

Você sentia que o My Favorite era diferente de outras bandas indie/indie pop do fim dos anos 90? Como era a cena indie pop naquela época e como é hoje em dia?

Hahaha Eu não apenas sentia, eu sabia… porque todo mundo VIVIA ME DIZENDO ISSO.

Tinha uma certa seriedade pretensiosa e uma não realização que era santificada na cena indie pop lá atrás. Eu estava tentando produzir obras primas e não fazer amigos por correspondência. E nós éramos odiados por isso. Os anos 90 também giravam ao redor do retro analógico do indie rock e grunge e por mais que eu curtisse algumas daquelas coisas, eu sabia que nós estávamos na Era Moderna, na Era de Plástico, na Era Digital e qualquer divergência com aquele arco seria insignificante, irrelevante. Se nada mais, os anos provaram que estava certo quanto a isso.

Tinham alguns membros do My Favorite no Secret History, certo? Como é o relacionamento entre todos vocês atualmente?

Sim. O Secret History era composto por todos os membros do My Favorite menos a Andrea Vaughn. Nós adicionamos Kurt Brondo como tecladista tempo integral e Lisa Ronson como vocalista. A Erin Dermondy e depois Jaime Allison ajudaram Lisa do primeiro para o segundo disco, respectivamente. Essa transição de membros de uma banda para a outra foi uma faca de dois gumes. Nos permitiu a química e de realmente tocar juntos de uma forma mais leve e mais intensa do que se tivéssemos montado uma banda totalmente nova. O pessoal entendeu certas coisas que eu queria fazer intuitivamente. Lisa tinha outras virtudes como vocalista e isso foi interessante e um desafio para aprender a escrever canções para ela. Mas eu acho que uma música como “Count Backwards” (de The World That Never Was) não teria sido tão boa se tivesse sido feita com o My Favorite.

Mas o outro gume da faca é que a complacência apareceu um pouco. A vida muda e é impossível que sete pessoas queiram as mesmas coisas criativamente falando no mesmo nível e ao mesmo tempo. Quanto melhores os músicos se tornam o instinto é explorar mais esse aspecto. Mas eu só fico excitado por músicas e letras e a habilidade de criar mistérios e mitos e atmosferas sobre coisas. Isso é o que eu pessoalmente amo. Então pense que eu eliminei o que era possível fazer com o Secret History. Quando Lisa se mudou para Londres, me pareceu um bom momento para fazer uma reavaliação. Reinventar o My Favorte para o novo single com o WIAIWYA (selo Where It’s At Is Where You Are) foi como um recomeço criativo.

Trabalhar próximo do Kurt Brondo tem sido um processo ótimo. Ele é bastante instintivo, muito criativo com música eletrônica, sabe como transformar os meus caprichos e metáforas em algo tangível. Gil Abad é o único outro membro anterior do My Favorite trabalhando no novo disco. Tem sido excelente porque ele entende o tipo de soul de plástico e grooves dance que eu amo porque ele também ama. Ele também tem uma grande sensibilidade para melodias. Trabalhar com a vocalista Devery Doleman tem sido excelente também. Ela tem um approach bem sensível e muito inteligente na hora de cantar. Eu consigo me safar ao ter um ponto de vista quase literal porque ela mergulha nas músicas e as compreende. Jaime Allison também tem uma espécie de pathos que é muito forte nela. Não muito como a Chryssie Hynde. Seu marido Joseph tem tocado guitarra e trazido um novo espírito para a banda. Todd, da primeira geração do My Favorite, vai tocar bateria com a gente ao vivo e também ajudar na criaçao de alguns beats no futuro.

Em paralelo, Todd, Darren e Andrea, todos do My Favorite, estão trabalhando num novo projeto, chamado The Chandler Estate, que estou muito ansioso para escutar. Darren é um dos melhores guitarristas da Terra e no que ele encostar valerá a pena escutar. Ele tocando junto com Todd vai ser foda. e Andrea tem um talento vocal único. Estou muito ansioso para isso tudo.

Por que você gosta tanto de colocar mulheres para cantar as suas canções? Para mim é impossível imaginar um homem cantando as músicas lideradas por Andrea.

Eu gosto do espectro criado por múltiplos vocalistas com diferentes forças e personalidades. É como se você tivesse escolhendo o elenco de um filme.

Qual a sua banda favorita dos anos 90 que se reuniu recentemente e que você pôde ver ao vivo?

Provavelmente o Pulp.

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Por que o My Favorite se reuniu?

Bom, a oportunidade de tocar junto em maio no Popfest foi muito boa para se recusar. Foi incrível tocar todas aquelas músicas novamente. Infelizmente a Andrea não pôde participar, mas a Devery e a Jaime fizeram o seu papel e a Claudua Gonson, do Magnetic Fields, cantou “Homeless Club Kids”.

Isso me levou a esse My Favorite reinventado de “Second Empire” (single lançado pela WIAIWYA) como basicamente um grupo de “electronic death disco”. Membros fundadores como o Darren e a Andrea estão totalmente convidados a entrar e contribuir sempre que quiserem, mas no momento a formação do single lançado pela WIAIWYA é o coletivo que seguirá adiante. Estamos trabalhando num novo disco e os shows começarão em dezembro.

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