10 combinações perfeitas entre letra e música do Silver Jews

06.03.2015 — Matérias, Música

silver-jews-david-bermanEm uma recente entrevista, Bob Nastanovich (Pavement e Silver Jews) afirmou que David Berman tem material suficiente para cerca de possíveis quinze novas canções. Isso quer dizer que David tem 15 poesias preparadas para se transformarem em um novo álbum do Silver Jews, o sétimo. Caso não esteja claro, o Silver Jews parte das poesias de seu mentor, David Berman, que por sua vez escolhe a sua banda que o ajudará a dar vida musical às suas ideias e letras. Por isso, como poucas vezes acontece, é a exata combinação de letra e música que faz do Silver Jews um grupo tão memorável e amado. Ao seu favor estão a capacidade de misturar melodias simplórias, refrões de karaokê e ar bonachão com a sua voz impotente, com sua poesia de bar e, principalmente, com as lindas imagens que constrói como se a América fosse simples de descrever, como se fosse o seu quintal.

1. “Trains Across the Sea” – Starlite Walker (1994)

O começo do Silver Jews, desde o álbum de estreia, Starlite Walker (1994), era extremamente Pavement musicalmente. Não só o começo, até Bright Flight o grupo parecia muito mais um Pavement liderado por um poeta caipira norte-americano e por muitos anos, essa imagem, essa combinação, esse time foi perfeito. “Trains Across the Sea” não conta com o backing vocal de Malkmus, o que acaba evidenciando menos a presença do grupo, diferentemente do que acontece em outras faixas do álbum, mas mostra os primeiros indícios da força de David Berman: as imagens fortíssimas através de suas letras: “Half hours on Earth / What are they worth? / I don’t know / In 27 years / I drunk fifty thousand beers / And they just wash against me / Like the sea into a pier

2. “How to Rent a Room” – The Natural Bridge (1996)

A primeira faixa de The Natural Bridge (1996) começa com a seguinte frase: “No, I don’t really want to die / I only want to die in your eyes” e por essa simples introdução você sabe do que se trata a canção, de ressentimento. Mas a cada novo verso, David vai destrinchando esse sentimento de forma tão honesta, num sussurrar tão pacífico que todo o ressentimento vai se transformando num mantra bonito e pacífico. Mesmo a frase reforçada duplamente de “Have you ever rented a room / Have you even ever rented a room?”, que me faz lembrar na hora de “Common People”, mas em um tom mais sereno e menos irônico que o de Jarvis Cocker, vem tranquilo, com o mínimo de julgamento musical possível.

“I know you laughed when I left
But you really only hurt yourself
When you see your curtains move in the wind
You can bet I’m betting against you again
‘Cause I’m a man who has a wife who has a mother
Who married one but she loved another
You’re a tower without the bells
You’re a negative wishing well”

3. “Black and Brown Shoes” – The Natural Bridge (1996)

Em uma das faixas mais country/Nashville do Silver Jews, David Berman encarna o contador de histórias como ninguém. O baixo leva a faixa enquanto David revela o seu ser em um paralelo com a problemática de ter apenas um par de sapatos preto e outro marrom e não conseguir escolher entre os dois.

It’s raining triple sec in Tchula
and the radio plays “Crazy Train”
there’s a quadroon ball in the beehive
hanging out in the rain
and when there’s trouble I don’t like running
but I’m afraid I got more in common
with who I was than who I am becoming

When I go downtown
I always wear a corduroy suit
‘cause it’s made of a hundred gutters
that the rain can run right through
but a lonely man can’t make a move
if he can’t even bring himself to choose
between a pair of black and a pair of brown shoes

4. “Random Rules” – American Water (1998)

Eu poderia colocar American Water (1998) do começo ao fim nessa lista, se você quer saber a verdade. Como poderia citar palavra por palavra de “Random Rules” e acredito que ninguém contestaria, mas passarei rapidamente pela grandeza dessa canção antes de ela chegar nas últimas quatro frases que sempre me matam de emoção. Começando pela hospitalização por alcançar a perfeição, passando pela impossibilidade de “shake your hands when they make your hands shake”, pelas frases de banheiro, que certamente inspiram David, pelo motivo das estradas serem pintadas de preto porque nenhuma delas traz as pessoas que vão embora de volta até chegar nas tais últimas quatro frases.

But before I go I gotta ask you dear about the tanline on your ring finger.
No one should have two lives,
now you know my middle names are wrong and right.
Honey we’ve got two lives to give tonight

Eu sei que o solo do Malkmus já me deixa um pouco abalado minutos antes, mas essa comoção de perguntar sobre a marca de sol no dedo anelar e assumir os nomes do meio sempre me deixam totalmente desarmado e emocionado. As imagens vão se amontoando na mente ao longo de toda a faixa e quando David se exalta como se exalta nesse fim eu tenho certeza que os meus nomes do meio também são Certo e Errado.

5. “Buckingham Rabbit” – American Water (1998)

Essa canção está aqui por um motivo bem simples e óbvio: o seu refrão.

And so the rent became whiskey
and then my life became risky
shattered dogs on the rocks
Mas também tem uma verdade mais para frente inexplicavelmente engraçada e precisa, principalmente para quem já foi garoto nessa vida. Existe uma forte dedicação de um moleque no auge de sua adolescência lutar incessantemente para parecer pobre e largado, com uma convicção que surpreende. Surpreendia os meus pais, com certeza, mas aos poucos a vergonha vai passando (ou chegando) e essa luta parece cada vez mais sem sentido.
When you know how I feel I feel better
When you’re 15 you want to look poor.
You do unto others, and run like a mother
I don’t want to look poor anymore

Novamente, os solos de Malkmus, antes, durante e depois desses versos são maravilhosos e são com eles que a faixa termina, como se David pudesse cantar para sempre versos tão verdadeiros como esses. Ele pode.

6. “Honk If You’re Lonely” – American Water (1998)

“Honk If You’re Lonely” talvez seja a mais emblemática canção do disco, quem sabe até de toda a discografia do Silver Jews. Aqui, como em nenhuma outra faixa, o espírito de bar/karaokê está encarnado em David e a vontade de gritar em plenos pulmões quando o refrão chega é inevitável. Além do clima contagiante e do humor nas letras, a canção revela um lado romântico do caipira encarnado por David que envolve caminhões, adesivos de pára-choque e buzinadas de amor.

I know it seems sad to be so damn blue
but there’s always the chance that you’ll meet someone new
I know that somewhere waiting for me
is a sad lonely lover with a bumper that reads:

Honk if you’re lonely tonight
If you need a friend to get through the night
A toot on your horn, a flash of your brights
Honk if you’re lonely tonight

7. “Slow Education” – Bright Flight (2001)

Começar os discos com uma frase/imagem potente parece ser a principal meta de David quando lança um album novo. Em Bright Flight (2001), David não poupa a pequenez humana em uma linda e triste canção country.

When God was young
He made the wind and the sun
And since then
It’s been a slow education
And you got that one idea again
The one about dying

Mas mais do que um country pessimista, “Slow Education” é também uma ode à natureza, a Deus e às suas criações, especificamente ao vento e ao sol. Enquanto a chuva e os raios, representando o próprio David, são assustadores, totalmente na contramão do divino; enquanto aquela ideia, a ideia de morrer, aparece de novo e de novo.

Oh, oh, oh I’m lightning
Oh, oh, oh I’m rain
Oh, oh, oh it’s frightning
I’m not the same

8. “I Remember Me” – Bright Flight (2001)

A canção de amor de Bright Flight é, claro, repleta de tragédias. O amor encontrado é interrompido quando ele é atropelado por um caminhão e entra em coma. Poderia até ser uma história tragicômica, conhecendo David, mas a música não indica graça nenhuma. Pelo contrário, cada momento da canção vem repleto de silêncio, mas, novamente, é no final, quando David brinca com as palavras, que o aperto chega na garganta. “I’m just remembering, I’m just remembering”. Nada mais triste.

Everybody said she needed to move on
That he was all but lost, so deep was his coma
When he finally came to the girl he loved was long gone
She’d married a banker and gone to Oklahoma

He bought a little land with the money from the settlement
And even bought the truck that had hit him that day
He touched the part where the metal was bent
And if you were there you wouldn’t hear him say:

I remember her
And I remember him
I remember them
I remember then
I’m just remembering

9. “Sometimes a Pony Gets Depressed” – Tanglewood Numbers (2005)

Depois de um Bright Flight introspectivo e bonito, o Silver Jews volta com peso, mais focado no rock caipira em Tanglewood Numbers (2005). Lá se vão os dias de Pavement, o vocal está bem melhor gravado e “Sometimes a Pony Gets Depressed” mostra como David não precisa ser o centro das atenções para mostrar a força de sua poesia. As vacas dormem no salão e as galinhas no corvete quando o chão está molhado. Justo.

Where does an animal sleep
when the ground is wet?
Cows in the ballroom
chickens in the farmer’s corvette

Sometimes a pony
Sometimes a pony
Sometimes a pony gets depressed

10. “Open Field” – Lookout Mountain, Lookout Sea (2008)

Nada como terminar essa lista com a mais singela canção de Lookout Mountain, Lookout Sea (2008) e de toda a história do Silver Jews, até hoje.

Open field with a window
Open field with no child

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