Sufjan Stevens – Carrie & Lowell (Asthmatic Kitty; 2015)

30.03.2015 — Música, Resenhas

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Sufjan Stevens aproveitou todo o sucesso e a atenção dada ao seu ambicioso Illinois, de 2005, para esticar os seus braços, explorar a sua música e simplesmente experimentar, seja no mais eletrônico Songs of Adz (2010), na trilha sonora de The BQE (2009) ou nas suas coletâneas natalinas. Sufjan fez e tocou de tudo, até chegar em Carrie & Lowell, dez anos depois, onde com um banjo, um violão, um piano e uns sussurros ele se desfaz de qualquer aparato que o pudesse distrair e coloca toda a sua alma em onze canções diretas e extremamente pessoais. Praticamente o oposto da grandiosidade de Illinois e suas instrumentações e orquestrações, canções de nomes compridos e totalmente impessoais, interlúdios de poucos segundos e de histórias em terceira pessoa.

O álbum Carrie & Lowell, em homenagem a sua mãe e seu padrasto, quase foi chamado de Oregon, estado onde a família viveu por anos. Mas a real localidade dessas canções é a mente do próprio Sufjan Stevens, mais precisamente na sua memória infantil e nos seus remorsos, em sua mãe Carrie. O disco é uma imersão tao brutal em sua mente, que somos capazes de acompanhar de perto diversas lutas de Sufjan consigo mesmo. As primeiras frases do disco, em “Death with Dignity”, são as seguintes:

“Spirit of my silence I can hear you
But I’m afraid to be near you
And I don’t know where to begin
And I don’t know where to begin”

O banjo que a acompanha é tão singelo que cada frase de Sufjan naturalmente se destaca e quando a música vira a protagonista, no piano seguindo a melodia vocal, ela vem carregada de muita emoção. Os primeiros sussurros fantasmagóricos aparecem ao fim, emendando com “Should Have Known Better”. A canção é repleta de memórias e de “deveria ter feito”, mas Sufjan sabe bem. “Nothing can be changed / The past is just the past / The bridge to nowhere”. Ainda assim, fica claro o quanto ele gosta de passear por essa ponte que não vai a lugar algum e repensa o relacionamento conturbado que teve com a sua mãe, que sofria de esquizofrenia e alcoolismo e morreu em 2012, vitima de câncer.

Em “Eugene”, uma das mais bonitas do disco, Sufjan reforça essa sensação de não conseguir olhar para frente em meio a vívidas memórias do passado e com um final direto e revelador:

“What’s left is only bittersweet
For the rest of my life, admitting the best is behind me
Now I’m drunk and afraid, wishing the world would go away
What’s the point of singing songs
If they’ll never even hear you?”

Em um disco que gira todo em torno de sua mãe, “Fourth of July” traz o relato mais emocionante e as imagens mais fortes do álbum. Sufjan retrata alguns dos momentos do leito da morte de sua mãe, como a protocolar pergunta do hospital em relação ao corpo (“The hospital asked should the body be cast / Before I say goodbye”) e talvez uma das últimas imagens do filho (chamado aqui por Carrie de “my little hawk”, “my little dove”, “my star in the sky”): “Sitting at the bed with the halo at your head / Was it all a disguise, like Junior High?”.

A sensação nítida é de que Carrie & Lowell vinha sendo repassado na mente de Sufjan Stevens por muitos e muitos anos, como uma carta de cem páginas nunca escrita e muito menos enviada, impulsionada, finalmente, pela morte de sua mãe. Por isso, esse é o mais pessoal e arrebatador disco em muito tempo e muitas características dele corroboram isso. O fato do álbum ser vazio de instrumentações dá um destaque muito maior para cada palavra relatada por Sufjan, e quando ele as relata logo se nota que estamos diante de confissões acumuladas por muito tempo. As memórias são tão vivas, mesmo quando se trata de acontecimentos de quando ele tinha “três, talvez quatro anos”, que elas revelam a importância daquela época, da sua infância e de sua mãe e padrasto ao longo de todos esses anos. O fluxo de pensamentos de Sufjan parece o dominar por completo em diversas canções dando um tom pessoal que jamais presenciamos em um álbum seu (e, acredito, jamais presenciaremos novamente), transformando cada remorso, cada memória diretamente em uma melodia ou poesia. Algumas das canções acabam abruptamente, como um pensamento cortado, e outras se prolongam com sussurros fantasmagóricos ou notas esticadas, como algum demônio que persiste por muito tempo antes de sumir da mente, por algum tempo pelo menos.

O impacto de Carrie & Lowell não é gigante como realmente é porque o disco apenas soa verdadeiro e íntimo, mas, sim, porque Sufjan Stevens revela ter convivido com alguns complicados fantasmas por décadas e décadas e escancarar os sentimentos assim poderia muito bem ter revelado um Sufjan retraído e com mil questões mal resolvidas. Carrie & Lowell, porém, é uma linda homenagem à sua mãe e uma reconciliação de Sufjan consigo. Por mais triste que o álbum se mostre, existe a sensação de que cada uma dessas onze canções vai tirando um peso enorme do peito de Sufjan, de que cada uma dessas canções vai alcançando o lugar que deveria. Enquanto canta e toca, Sufjan Stevens está se exorcizando do jeito que sabe, dentro do maior silêncio possível.

“Should I tear my eyes out now?
Everything I see returns to you somehow
Should I tear my heart out now?
Everything I feel returns to you somehow
I want to save you from your sorrow
 
The only reason why I continue at all
Faith in reason, I wasted my life playing dumb
Signs and wonders: sea lion caves in the dark
Blind faith, God’s grace, nothing else left to impart”

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