Entrevista: John Darnielle (The Mountain Goats)

31.03.2015 — Entrevistas, Música

john-darnielle
Dá para contar nos dedos de uma mão os anos que John Darnielle passou sem lançar pelo menos um disco nos últimos vinte anos. 2014 foi um desses raros anos que ele aproveitou para finalizar e lançar o seu primeiro romance, Wolf in White Van. Além dessa nova estrada – elogiadíssima, aliás -, em Beat the Champ, novo álbum que sairá no começo de abril, John, acompanhado por Peter Hughes (baixo) e John Wurster (bateria), empurra o até então folk bem característico do grupo para novos territórios, onde o jazz e o metal se misturam bem com vinte anos de história musical bem consolidada e de pouca experimentação. Tantas mudanças aos 47 anos de idade parece um tanto ousado, ainda mais para um pai de duas crianças. Mas talvez seja exatamente esse o motivo de tanta coragem. Como foi dito na entrevista, é preciso se livrar de alguns fantasmas, ser livre, e essa tarefa só é possível (ou só fica mais fácil) ao lado de amigos, da família, dando mais liberdade às nossas ações. Talvez seja esse o resumo de John Darnielle atualmente: um pai destemido.

Já que existe tão pouca informação sobre você e o Mountain Goats em português, gostaria que você falasse um pouco sobre sua história. Onde você nasceu, onde você vive atualmente e como você descreveria um dia normal seu?

Eu nasci em Indiana! Cresci na Califórnia e a Carolina do Norte agora é a minha casa – tenho vivido aqui por 12 anos já numa cidade chamada Durham, que eu amo mais que qualquer outro lugar que já morei. Dias normais…é difícil dizer. Eu tenho dois filhos pequenos (um tem três anos e outro quatro meses) então todo dia é uma aventura. Mas, geralmente, quando não estou em turnê, eu acordo o de três anos, faço café da manhã e toco música para ele. Três dias por semana ele vai para a pré-escola e eu tento trabalhar na minha escrita/publicidade; nos outros dias, eu sou um pai em tempo integral!

6 months

Foto de Lalitree Darnielle, fotógrafa e esposa de John

Numa entrevista, você mencionou que o Lou Reed foi uma grande influência na sua adolescência ao mostrar como a música não precisava ser tão técnica e produzida como o prog/metal que você escutava na época. Você já sentu vontade de gravar algo mais prog ou metal?

Eu penso nisso às vezes e eu espero que eu expanda o meu interesse nessa direção o quanto antes – a gente (Mountain Goats) ficou um pouco mais corajoso em olhar para novos sons nos últimos discos.

Quando você começou a tocar música e como você descreveria as primeiras canções que compôs?

Eu comecei a tocar piano quando tinha seis anos de idade, talvez cinco. Minhas primeiras canções não tinham letras, eram composições instrumentais com títulos como “The Jungle”.

Como é exatamente o seu processo de composição? Eu chutaria que você começa com a letra, mas a música e a letra fluem tão bem nas suas músicas que parece que você está sempre compondo com um violão ou um piano.

Eu escrevo as letras e faço a música ao mesmo tempo – eu começo com uma nota ou duas, então improviso uma linha inicial e construo a música a partir dai. Geralmente, eu estou sentado no chão com um violão, ou no piano, enquanto esse processo continua. As letras são super importantes, mas nos últimos anos eu tenho crescido muito melodicamente, então eu tenho colocado as minhas energias em ambos, música e letra, para que haja um equilíbrio.

As letras são muito centrais nas suas músicas. Como você se sente com o fato de muitas pessoas que acabam escutando sua música ao redor do mundo não entendem muito sobre o que você está cantando? Você sente que sua música sozinha expressa o sentimento que você gostaria?

Eu espero que sim! Eu tento pelo menos que o refrão expresse algo que ultrapasse as barreiras da língua. Os meus companheiros de banda também são excelentes músicos e eu acho que o modo como eles tocam comunica muito bem o sentimento das músicas, que você pode escutá-las e pegar o clima delas.

Como foi a transição da música para a literatura enquanto você escrevia Wolf in White Van? Você teve que adaptar a sua rotina para terminar o romance?


Sim, mesmo eu escrevendo canções reflexivamente o tempo todo. Mas tiveram alguns meses nos quais eram basicamente eu e o laptop e menos tempo no piano e quase nenhum ao violão.

Você é um músico muito prolífico e um escritor, portanto você já escreveu incontáveis versos, refrões e histórias. Mas quando eu escutei a “In Memory of Satan” (de Transcendental Youth, de 2012), mais especificamente aos versos: “But no one screams cuz it’s just me / Locked up in myself / Never gonna get free”, me bateu que realmente não importa o quanto uma pessoa escreva, grite ou expresse todo o sentimento de dentro dela, nós, como seres humanos, estaremos sempre presos dentro de nós mesmos. O que você estava pensando ou sentindo quando escreveu essa canção?

Eu estava lembrando desse sentimento (ele nunca realmente vai embora), que a gente não consegue se livrar das partes que gostamos menos de nós mesmos. Quando a gente reside nos nossos lugares mais escuros, a gente meio que desaparece dentro deles e luta para se tornar livre. Mas eu acho que a gente consegue se tornar livres – com amigos, com as famílias que construímos. Essa música é meio que sobre os perigos de se ficar sozinho com os próprios fantasmas e demônios.

Você parece uma pessoa bastante observadora, portanto você consegue construir um monte de belas imagens de lugares nos quais esteve em suas canções. Existe um escritor ou compositor americano que você admira da maneira na qual ele/ela retrata os Estados Unidos?

Hmm. Quer saber, Stan Ridgway é muito subestimado. Ele entende o sentimento do sudoeste americano muito bem, rascunha imagens muito vívidas. A América é grande, então eu penso mais em compositores regionais do que em alguém que possa capturar o negócio todo. Bill Callahan é um grande nome para mim e que também parece restritamente americano, como se ele expressasse algo sobre o país sem falar diretamente dele.

the-mountain-goats-beat-the-champ

Como você descreveria Beat the Champ, o seu novo disco?

Acho que é o nosso álbum mais exploratório até hoje. Nós realmente estamos tocando bem como um grupo atualmente e esse disco é tanto sobre a músicas quanto sobre as letras. Eu estou bastante orgulhoso disso; eu sinto que ele mostra como a gente cresceu juntos e como estamos ouvindo um ao outro.

Qual a sua primeira memória de ver luta livre? Quem era o seu personagem favorito?

Chavo Guerrero, claro. Eu falava espanhol o suficiente para assistir nas manhãs de sábado na KMEX Los Angeles.

chavo.-guerrero

“Fire Editorial”, “Stabbed to Death Outside San Juan” and “Werewolf Gimmick” forma uma sequência de músicas bem diferente em Beat the Champ com pianos meio jazz, spoken word e algo como death metal acústico. Você está procurando experimentar mais com música?

Sim, essa sequência é a minha parte favorita do disco. Como um trio a gente já está junto desde 2007 e estamos conseguindo nos comunicar musicalmente de maneiras que são bem excitantes para nós. Eu cresci muito como um escritor e estou muito orgulhoso disso. “Fire Editorial” é uma das coisas das quais mais me orgulho. Escrevê-la e descobrir um modo de tocar junto com os outros foi um grande desafio e um prazer. Então a gente espera continuar nessa estrada.

Você cogita tocar no Brasil um dia?

Nós AMARÍAMOS tocar no Brasil. Nosso baterista (Jon Wurster, também baterista do Superchunk) e nosso agente de turnê estiverm no Brasil e disseram que é um dos lugares mais legais de se tocar. Mas a nossa banda conta com cinco pessoas viajando e eu sinto que não somos muito conhecidos por aí, então é difícil arranjar um show. Além disso tem três pais na banda (eu, o Peter e o Brandon, nosso agente), então quando viajamos temos que no mínimo trazer algo para pagar a comida das crianças. Mas é um sonho para gente tocar no Brasil. O Brasil já deu tanto para o mundo musicalmente, seria uma honra dar algo em troca.