The Mountain Goats – Beat the Champ (Merge Records; 2015)

15.04.2015 — Música, Resenhas

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Por bons anos de nossas infância, a gente escuta a cada palavra que nosso pai (acrescente aqui a sua figura adulta dos ensinamentos) tem a dizer. E quando digo cada palavra, eu quero dizer cada palavra. Elas parecem carregar uma sabedoria escondida que não compreendemos muito bem, mas que, acreditamos, farão sentido algum dia. Independente da forma de como essas palavras são ditas, com charme ou sem, saídas da suave boca de um contador de histórias ou imperativamente de um general, com sentido ou sem, nós escutamos. O pai é uma figura que geralmente e por muitos anos levamos muito a sério.

Até não levarmos mais.

Começamos a ficar críticos com cada detalhe, rebatemos as suas ideias que agora viraram retrógradas e nos aborrecemos com a forma, com a repetição das histórias, que começam a revelar um ser humano, no mínimo, gagá.

John Darnielle é pai do Mountain Goats há décadas já e ele tem contado as suas histórias por todo esse tempo. E por mais que nós, os seus filhos (insira-se aqui por livre e espontânea vontade), não estejamos cansados do seu folk cheio de fórmulas e histórias maravilhosas (ele talvez é um dos pais mais imaginativos e sábios), é certo que os seus últimos lançamentos (Transcendental Youth, All Eternals Deck e The Life of the World to Come) tem surtido cada vez menos efeito na sua até então devotada ninhada. Por isso, em Beat the Champ, seu zilionésimo disco, John, com total auxílio de Peter Hughes (baixo) e Jon Wurster (bateria), decidiu apostar em novas formas, novos meios de se comunicar.

O destemido pai resolveu fazer um disco totalmente voltado à sua paixão infantil: a luta livre. Com uma temática muito mais chamativa, John resolveu então empurrar toda a mudança musical que tem feito vagarosamente ao longo dos anos de uma só vez. O trio incluiu teclados, trompetes e outros instrumentos em praticamente todas as canções, mas, principalmente, experimentou com outros estilos (jazz, spoken word, death metal e punk) e focou seus refrões com frases simples e grudentas que juntos fazem de Beat the Champ um dos lançamentos mais interessantes e diferentes do Mountain Goats da última década. Um disco de um pai sem mais responsabilidades sobre seus filhos, totalmente livre para poder falar seriamente sobre luta livre e da maneira que entender melhor sem se preocupar com o julgamento familiar que, convenhamos, nunca levou ninguém a lugar nenhum.

8.1