Show: Mac McCaughan – CCSP, São Paulo – 25/04/2015

mac-mccaughanEram pontualíssimas 20h do último sábado (25) quando Mac McCaughan começou a se fazer ouvido no CCSP (Centro Cultural São Paulo), com apenas sua voz, uma guitarra e, vez ou outra, uma base pré-gravada. Ele veio trazer sua implacável coleção de canções do Superchunk, algumas de seu primeiro disco solo, o Non-Believers – que você pode ouvir na íntegra aqui, e abriu a apresentação com “San Andreas”, uma faixa do Portastatic, projeto paralelo de Mac. Passei o resto do show mentalizando uma espécie de comunicação inconsciente para que ele atendesse meu sonhado setlist Portastético, com canções do lindíssimo Summer of the Shark, de 2003. Obviamente que isso não rolou, mas só se eu fosse muito cabeça-dura pra não me deliciar com a proposta de entretenimento que Mac elaborou para aquele dia.

Mac, fundador, guitarrista e letrista do quarteto Superchunk, foi buscar no vasto baú pop-perolizado da banda canções que ocuparam fitinhas k7 nos anos 90 e que, a julgar por certa parte do público, possivelmente estão presentes em algumas listas de mp3 e streaming: “Water Wings” e “Driveway to Driveway”, do álbum Foolish (1994); “Skip Steps 1 & 3”, do No Pocky for Kitty (1991); “Iron On”, de Here’s Where the Strings Come In (1995); “Watery Hands”, de Indoor Living (1997); e “Cursed Mirror”, de Come Pick Me Up (1999). O formato enxutíssimo, com o peso trazido apenas pelos riffs, acabando beneficiando músicas como “Low F” e “Cursed Mirror”, dando a elas um intimismo não presente nas gravações originais.

Isso significa que aquela noite foi uma ode nostálgica ao classicismo do indie, que rodou faculdades pelo mundo todo e inspirou universitários a arriscar umas palhetadas melódicas com refrões ganchudos e batidas assertivas. Mas essa junção de bases vigorosas + versos de lamúrias ou de convocação não só foi inspiracional como ainda atravessou o tempo, fazendo a banda, fundada na pequena Chapel Hill, na Carolina do Norte, avançar 25 anos atropelando a própria perspectiva de fugacidade juvenil com que foi criada. Tanto que a resposta do público do CCSP às músicas mais recentes “Crossed Wires” e “Digging for Something”, do Majesty Shredding (2010); e “Me & You & Jackie Mittoo”, de I Hate Music (2013), curiosamente foi mais vibrante do que aos hits radiofônicos dos anos 90. Boa parte da resistência atemporal do Superchunk vem do fato de a Merge, gravadora independente fundadora por Mac e pela baixista e companheira de banda Laura Ballance, ser um sólido negócio artístico de 25 anos, com a relevância referendada pela presença de bandas populares, como o Arcade Fire, e por nomes com pretensões mais contidas, como Bob Mould, Lou Barlow e Wild Flag.

Em síntese, a Merge é um reduto de assinatura qualitativa na música pop/rock norte-americana com desdobramentos mundiais, e o Superchunk é sua expressão orgânica, com a qual mantemos laços emotivos amarrados com mais força a cada disco. Não à toa, a vinda de Mac sem banda motivou umas quatro (talvez cinco?) centenas de pessoas a dedicarem uma atenção focada no anfitreatro do CCSP – destaque para a pontualidade do evento da Balaclava, o ótimo preço, R$ 20, e a facilidade de transporte público (ao lado do metrô Vergueiro).

Por outro lado, esse mesmo público se revelou contido demais, criando um certo embaraço silencioso que não era condizente com a empolgação que Mac tentava provocar do centro do palco. Finalizado o set, o anfiteatro se esvaziou, e cerca de 10 minutos depois, Mac reapareceu para um bis surpresa. Desta vez, para uma plateia muito menor (umas 150 pessoas), mas que finalmente respondeu eloquentemente às emocionantes “Detroit Has a Skyline”, de Here’s Where the Strings Come In (1995); e “Slack Motherfucker”, do álbum Superchunk (1990). A acolhida a Mac certamente foi calorosa e vinha de uma galera em seus 20/40 anos. Pelo menos três gerações falavam uma mesma língua ali, entre letras balbuciadas e aplausos, visando a atingir um destinatário de história pessoal e musical inspiradoras, mas jamais inacessível.