Little Wings – Explains (Woodsist; 2015)

18.06.2015 — Música, Resenhas

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Você se lembra da última vez que foi para a praia num dia frio de verdade? A lembrança mais viva da minha última vez é da névoa embaçando a minha vista já embaçada pela vida. A vista era toda cinza. O céu e o mar eram uma coisa só, gelados de ponta a ponta, nada azuis, muito menos verdes. O vento sempre tão agradável cortava cruelmente as pernas peladas. Me arrependi de não ter ido vestido de cidade, de paulista. Fui molhar os pés mesmo assim, aguentei 10 segundos, quando voltei meus pés estavam duros e era capaz de sentir cada grão de areia que grudava na sola, na canela, no pé todo. Vi umas quinze pessoas enquanto atravessava a praia. Talvez um pouco mais ou um pouco menos. Mas elas passavam rapidamente, correndo solitárias ou conversando a passos largos com algum companheiro, bem agasalhadas com as pernas peladas. Só a criança tentava aproveitar; só ela gritava, corria com o cachorro e fugia da água gelada. Já os adultos não chegavam perto, os que chegavam logo se arrependiam. Mas lá na frente um surfista já com cabelo semi grisalho e a barba semi gigante vestia a sua pele negra e emborrachada artificial, fazia o seu ritual e ia para a água. Se a sua mente tivesse uma voz para qualquer pessoa que não ele mesmo, sinto que ela sairia em uma melodia um pouco como as contidas em Explains, novo disco do Little Wings, de Kyle Field. Melodia que é bem parecida ao longo das onze canções, mas nunca igual. Meditativa, solitária, suave e em um fluxo contínuo bastante natural. De onde sairiam essas canções, essas melodias e esses violões? Da densa floresta que forma um paredão verde acinzentado assim que a areia acaba? Ou das pedras que interrompem a praia bruscamente que poucos ousam chegar perto? Escuras, quase pretas. Não tenho certeza. Não sinto mais pressa, não sinto mais frio e nem meus pés. Não sinto vontade de ir embora. Apenas sei que o ar vibra e o vento canta e mais uma melodia calma se mistura com esse ar gelado. Não lembro de ter visto ondas suficiente para o surfista se arriscar dessa maneira, mas acho que ele também não estava tão preocupado assim. Talvez fosse só vontade de se misturar naquele cinza todo.

7.9