10 discos da Stax Records

11.11.2015 — Matérias, Música

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Eu finalmente terminei de ler o livro Respect Yourself: Stax Records and the Soul Explosion, de Robert Gordon, que conta a história de Jim Stewart e Estelle Axton, irmãos, brancos, apreciadores e entusiastas da música, principalmente do country, blues e suas variantes, que resolveram abrir um pequeno estúdio e gravadora em Memphis que cresceu para virar a Stax Records que conhecemos hoje. Na real eu não conhecia porque apesar de todos os clássicos lançados, alguns deles aqui nessa matéria, a gravadora lançou vários artistas que não conhecia, mas, principalmente, protagonizou diversas histórias que nem imaginava. Como costuma ser.

A história da gravadora se mistura demais com a história de Memphis da década de 60 e com a história da luta racial que culminou com a morte de Martin Luther King, assassinado no mesmo hotel em que Isaac Hayes e David Porter trabalhavam em suas composições e onde o pessoal da Stax invariavelmente se reunia. Um divisor de águas que mudou inclusive a relação da sociedade de Memphis com a gravadora. Mas a história da Stax também se mistura demais com o lado obscuro das grandes gravadoras durante a explosão do soul no fim dos anos 60 e começo dos 70, do jabá forte e inescrupuloso e do espírito gangster de se resolver os problemas.

Enfim, um livro realmente bem escrito que me estimulou a juntar dez discos lançados pela gravadora que retratam bem porque a Stax era chamada de Soulsville, enquanto a Motown de Hitsville.

É com muita dor que deixo Eddie Floyd, David Porter, Wendy Rene, The Soul Children, The Emotions, The Mad Lads, The Bar-Kays, Carla e Rufus Thomas e tantos outros de fora desse post, mas para todos eles e para todos os outros discos desses dez artistas que estão abaixo eu deixo um conselho: pesquise, leia, vá atrás ou só ouça. O seu eu escondido atrás do âmago sempre agradecerá.

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Otis Redding – Otis Blue: Otis Redding Sings Soul (1965)

As histórias em torno de Otis Redding comandam pelo menos metade do livro. Desde sua primeira ida aos estúdios da Stax como motorista de Johnny Jenkins, um promissor artista, até chegar o fim de semana da queda do avião particular que levava Otis e quase todos os Bar-Kays, esses com menos de vinte anos, de Cleveland para Madison. Otis comanda a primeira fase da Stax e fica muito mais simples entender o porquê. Quem pôde vê-lo ao vivo, deve saber do que se tratava Otis Redding, mas para todos nós (acredito) que só pudemos ouvi-lo e vê-lo em gravações e em seus discos, existe uma frase no livro que deve explicar bem porque continuamos nos fascinando com Otis dessa maneira: “More than being heard, Otis wanted to be felt. He wanted his record performance, this impersonal piece of vinyl, to physically affect the detached listener”.

As canções de Otis Blue: Otis Redding Sings Soul foram gravadas em duas semanas, pois Otis estava ocupado demais com suas turnês, de onde realmente vinha o seu dinheiro, mas isso só mostra o estilo da Stax. Eles tinham a banda da casa que estavam prontos para tocar e gravar o que fosse necessário e Otis não era necessário apenas, era essencial. A mistura de soul, em clássicos como “Respect”, “I’ve Been Loving You Too Long” e “My Girl”, gospel, nas homenagens que Otis fez ao seu ídolo Sam Cooke com “A Change Gonna Come” e “Shake”, de rock “(I Can’t Get No) Satisfaction”, blues (“Rock Me Baby”) e baladas perfeitas faz de Otis Blue o maior disco dessa lista, consequentemente, da Stax como gravadora e instituição.

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Sam & Dave – Soul Men (1967)

Sam Moore e Dave Prater não seriam absolutamente nada sem Isaac Hayes e David Porter. Disco após disco, Hayes e Porter foram a fonte de hits da dupla, que acabou virando a verdadeira cara do soul sulista norte-americano. Isso ficou ainda mais explícito quando a parceria entre Atlantic, que havia contratado a dupla Sam & Dave e acertadamente a levado para gravar em Memphis, e a Stax acabou. Todos os hits, e não foram poucos, foram gravados e produzidos pela Stax e a grande maioria composta e produzida por Hayes e Porter, como muitos gostam de dizer, o Holland-Dozier-Holland para Sam & Dave.

“Soul Man” e “May I Baby” mostram de cara do que se trata esse soul carregado do sul, de vocais graves e harmoniosos e os lances de metais ditando o ritmo da coisa toda. “Broke Down Piece of Man”, composta por Steve Cropper, entra com a guitarra suave e bonita. A leveza de “Don’t Knock It” é de aliviar o peso de qualquer alma, a tristeza de “Just Keep Holding On”, produzida por Booker T. Jones e Al Bell, o outro homem forte da gravadora, é de sofrer junto e “The Good Runs the Bad Away” aquela última dança da noite.

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Jean Knight – Mr. Big Stuff (1971)

A minha real vontade era ter colocado aqui a compilação que lançaram em 2012 da Wendy Rene, mas quando eu escutei Mr. Big Stuff, de 1971, na íntegra eu percebi que o álbum era muito mais que a faixa-título e hit supremo do começo dos anos 70. Logo em “A Little Bit of Something (Is Better Than All the Nothing)” dá para ver que Jean não é só o pop à Jacksons 5 que marcou “Mr. Big Stuff”, existe uma profundidade vocal e um soul muito bem polido. Os backing vocals de “Don’t Talk About Jody” são perfeitos para encorpar a canção num call and response intrigante e o groove de “Take Him (You Can Have My Man)” é literalmente o oposto do que Shirley Brown fez em “Woman to Woman” lírica e musicalmente. Enquanto Shirley, mais abaixo, briga pelo o que é dela, Jean abre mão e o funk dessa sensação é pulsante.

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Booker T. & The MG’s – Green Onions (1962)

A síntese da história da Stax passa pela trajetória de Booker T. & The MG’s. Booker T. Jones era um menino que vivia na Satellite, loja de discos comandada por Estelle Axton, e rondando os estúdios da Stax, comandada por Jim. Aprendeu a tocar saxofone e órgão e foi virando um dos principais músicos da casa, quando então resolveu fazer faculdade em Indiana e deixou os MG’s por alguns anos. Steve Cropper, guitarra, e Donald “Duck” Dunn, baixo, foram membros originais do Mar-Keys, uma das primeiras bandas da gravadora e liderada pelo filho de Estelle, Packy Axton, e aos poucos foram se transformando em dois dos principais músicos de toda uma leva de artistas que passaram pela gravadora até o fim dos anos 60. Al Jackson entrou para ser o baterista e com isso os MG’s estavam formados. MG’s por causa, primeiramente da montadora de carros Morris Garages, mas por serem também um Mixed Group, com dois negros e dois brancos, numa Memphis segregacionista e com limites raciais extremamente traçados.

Chega a ser inacreditável como um disco instrumental pode ser tão completo. Fica claro logo nas primeiras canções que musicalmente e tecnicamente o negócio é sensacional, mas o funk, o jazz, o soul e o rock que esses quatro extraem no rápido Green Onions é realmente surpreendente. Dançante, cheio de groove, bonito e bem além de seu tempo. Tudo que envolvia Booker T. e Steve Cropper, principalmente, sempre foi muito além de seu tempo.

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Johnnie Taylor – Who’s Making Love (1968)

Johnnie Taylor cresceu gospel, foi um dos membros do Soul Stirrers, substituindo Sam Cooke, mas o seu soul mais grave e duro foi ganhando espaço na Stax e se transformando em um soul menos melódico e mais direto e sensual. Who’s Making Love começa funk com a faixa-título e com “Take Care of Your Homework”, mas o álbum também explora o deep soul (“I’m Not the Same Person” e “Poor Make Believer”), o blues (“Woman Across the River” e “I’d Rather Drink Muddy Water”) e lindas baladas (“Can’t Trust Your Neighbor” e “Payback Hurts”).

Who’s Making Love é um disco muito versátil e mesmo Johnnie Taylor não sendo o melhor cantor dessa lista ele é bem único na sua rouquidão e que se dá muito bem nas baladas apesar de todo o sucesso do funk energético de “Who’s Making Love”.

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William Bell – The Soul of a Bell (1967)

William Bell foi o primeiro artista a assinar um contrato com a Stax e o primeiro single composto e gravado pelo cantor foi “You Don’t Miss Your Water”, que Otis Redding homenageou em Otis Blue. The Soul of a Bell é um álbum que apenas dá continuidade a esse soul mais suave, bonito e cheio de baladas de William Bell.

Bell faz a tarefa parecer simples, mas quando analisamos todos os outros baladeiros do soul, invariavelmente eles soam dramáticos demais, doces demais ou tristes demais, mas William em The Soul of a Bell está apenas soberbo demais. A tristeza, a doçura e a dramaticidade de “Everybody Loves a Winner” e “Eloise (Hang On In There)”, ambas feitas em parceria com Booker T. Jones, ou das lindas versões de “Do Right Woman, Do Right Man” e “I’ve Been Loving You Too Long”, ou então da mais dançante “Never Like This Before” e do desfecho mais simples de “You’re Such a Sweet Thing” só mostram como Bell era versátil na sua arte.

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The Staple Singers – Be Altitude: Respect Yourself (1972)

Os Staple Singers já tinham quase uma década de carreira quando chegaram na Stax, em 1968. Produzidos por Steve Cropper, eles lançaram dois discos que misturam bem o soul e o gospel da família, Soul Folk In Action (1968) e We’ll Get Over (1970), mas quando Al Bell levou Pops Staple, Mavis, Cleotha e Yvonne, então substituindo Pervis, para gravar e produzir na lendária Muscle Shoals, o negócio deu uma guinada impressionante mais para o funk e o pop.

O resultado dessa parceria a gente ouve em Be Altitude: Respect Yourself, de 1972. “The World” abre com um riff de guitarra e um baixo bem funk para as irmãs entrarem com o clima lá para cima logo no refrão, talvez o maior do disco. “Respect Yourself”, na sequência, dá uma abaixada nos ânimos para a marcha e a luta seguirem de cabeça erguida, clima que continua em “Name the Missing World”, de linha de baixo inacreditavelmente funk para quem ouvia os Staple Singers há alguns anos. “I’ll Take You There”, escrita por Al Bell, é uma surpresa ainda maior com todo o seu reggae e refrão pop. A mensagem é linda, o baixo pulsante, os metais ao fundo totalmente praianos e a sintonia perfeita. Be Altitude ainda dá espaço para “This Old Town (People In This Old Town)”, a feel good “Be the People” e a mais gospel “I’m Just Another Soldier”. Um disco funk soul gospel pop perfeito.

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The Dramatics – Whatcha See Is Whatcha Get (1972)

A primeira metade de Whatcha See Is Whatcha Get é repleta de hits. Um lado A que começa com um grito lá do fundo de alma do vocalista líder William “Wee Gee” Howard em “Get Up and Get Down” numa faixa extremamente dançante. Colada na balada “Thank You for Your Love” e na sexy “Hot Pants in the Summertime”, que conta com backing vocals que parecem nos chamar para algum coito eterno, para então desembocar no maior hit do grupo, na faixa-título, uma canção meio cubana, meio soul, meio funk e muito foda.

Alguém dá um troféu para Tony Hester, porque esse cara compôs e produziu as oito faixas desse álbum, seis delas sozinho. Os arranjos são incríveis, as quebras extremamente, hum, dramáticas, os vocais se intercalam de forma impecável transformando Whatcha See Is Whatcha Get em um dos discos mais fodas da história da Stax.

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Shirley Brown – Woman to Woman (1974)

Shirley Brown lançou o último single antes que a Stax fechasse as portas. “Woman to Woman” foi um último respiro de respeito porque poucas vezes um triângulo amoroso foi tão bem cantado e narrado como nessa linda faixa e disco produzidos por Jim Stewart, fundador da Stax.

Woman to Woman, lançado em 1974, é extremamente passional. Enquanto Mr. Big Stuff é a obra feminina da lista de som mais ingênuo (mas de muita perspicácia), Woman é de uma mulher madura, adulta, que olha no olho e fala de mulher para mulher sobre o seu homem. Desde os primeiros versos de “It Ain’t No Fun” temos a certeza de estarmos ouvindo uma mulher com história. A potência e o alcance da voz de Shirley em “Stay With Me Baby” e “So Glad To Have You” é hipnotizante e a interpretação em “Woman to Woman” fascinante. É a potência da arte e da sensualidade de Isaac Hayes em Shirley Brown.

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Isaac Hayes – Hot Buttered Soul (1969)

Uma das peças centrais da gravadora, Isaac Hayes foi produtor e compositor por anos antes de se aventurar a gravar suas próprias canções, mas quando se aventurou veio com Hot Buttered Soul. Sim, Shaft pode até ser um disco mais poderoso, marcante, todo trabalhado no marketing massivo orquestrado por Al Bell, mas Hot Buttered Soul, sua estreia, foi feita na surdina, enquanto todos da Stax estavam muito preocupados em gravar um caminhão de discos e singles após terem perdido todo o seu catálogo na compra da Atlantic. Sim, a Stax perdeu tudo que foi gravado antes de 1968, antes da venda da Atlantic para a Warner, incluindo as masters de Otis Redding, portanto, para não perder o prestígio e toda a fama construída, eles trabalharam em um curtíssimo espaço de tempo para gravar discos de vários de seus artistas e de novos para uma conferência em Memphis, onde eles mostrariam para toda a imprensa musical o seu novo acervo.

Isaac gravou 4 longas canções, fez seu rap suave e sexy, prolongou suas faixas com clima jazz misturando com soul e colocou a sua careca para estampar o seu disco. Hot Buttered Soul foi sucesso instantâneo. Entrou para as paradas de R&B e jazz e alçou Isaac para a figura de estrela. Fama, dinheiro, mulheres, drogas, muita propina, violência. Com certeza as histórias em volta de sua ascensão são das mais controversas do livro porque a indústria musical toda da época funcionava em torno da payola, ou do chamado jabá, e a Stax era uma das gravadoras mais incisivas na prática. A história não é toda bonita, muito menos correta, mas a estreia de Isaac como estrela musical foi um dos passos mais certeiros, ousados e visionários da Stax. Isaac é um dos tios do hip-hop, o mestre de todos os carecas, compositor sensacional e intérprete cheio de alma própria, além de exímio pianista e tecladista. Um cara e tanto.

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