Top 25 Suppaduppa: Discos de 2015

26.12.2015 — Blog

top25suppaduppa2015
milo-so-the-flies-dont-come-e1441726687886

25

Milo

So the Flies Don’t Come

Nem todo disco precisa ter um grande conceito por trás para ser bom. De vez em quando, álbuns curtos são deliciosos exatamente porque vão direto ao ponto e não te enrolam feito mendigos bebums pedindo dinheiro para comprar “comida”. É o caso de So the Flies Don’t Come, do Milo, basicamente uma mistura mais lenta, arrastada e estranha de DOOM com Earl Sweatshirt, com uma pitada muito necessária de hip-hop dos anos 90. Gosto porque é diferente de tudo o que saiu esse ano, com beats muito certeiros, baterias e baixos gordos feito fatias de bacon cheias de óleo em cima de um hambúrguer com queijo derretido, além de rimas esquisitas e doentias. Só meia hora de duração, é verdade, mas lembre-se que estamos diante daquele sanduíche redondinho que cabe na mão e é tão macio e quentinho que te faz você querer mais. (Flávio Seixlack)

b8336e64

24

Shye Ben Tzur, Jonny Greenwood and the Rajasthan Express

Junun

Eu infelizmente ainda não vi Junun, o documentário do norte-americano Paul Thomas Anderson. Ele conta exatamente a construção, produção e gravação do álbum de mesmo nome gravado na Índia pelo compositor de Shye Ben Tzur, de Israel, por Jonny Greenwood (Radiohead) e pelos indianos do Rajasthan Express. Não importa, pois eu quero mesmo é saber de música para meus ouvidos. Pelos nomes envolvidos, já dá pra sacar que Junun é uma mistureba desgraçada que, na prática, poderia ter dado bem errado. Mas não. Pra quem gosta das trilhas de Bollywood, como eu, é um prato cheio. Mas tem também muito de Qawwali, os cantos religiosos e hipnóticos dos muçulmanos da Ásia, música eletrônica e, claro, música clássica da Índia. Eu sinceramente e de coração acho tudo muito lindo, esses mantras que acalmam minha alma e colocam os pingos nos is na minha arrastada existência em 2015. Obrigado. (Flávio Seixlack)

artworks-000120630975-e9v7b8-original-e1434735321849

23

Thundercat

The Beyond / Where The Giants Roam

Depois de dois ótimos discos, especialmente o segundo (Apocalypse), acho que o Thundercat finalmente está trilhando o melhor caminho possível para sua carreira. É claro que o baixo ainda é o centro das atenções de todas as suas canções, mas parece que finalmente ele sacou que que nem sempre é preciso mostrar seu lado mais virtuoso para entregar música boa. The Beyond / Where The Giants Roam contém seis grandes exemplos do que é/pode vir a ser o soul dos próximos tempos, como uma pincelada para o gênero em 2016. Com participação de Flying Lotus, Kamasi Washington e Miguel Atwood-Ferguson, esse EP é brilhante porque consegue captar e resumir o que toda essa turma da Brainfeeder vem fazendo ao longo de tantos anos e, ainda assim, apontar para o futuro. (Flávio Seixlack)

hud3

22

Knxwledge
Hud Dreems

O Knxwledge já vem fazendo beats de respeito há algum tempo, mas parece que 2015 foi o ano no qual ele conseguiu demonstrar mais foco em todos os sentidos. Claro que vale citar a sua colaboração recente com o rapper Anderson Paak, que virou um EP sutil e que vai virar um disco cheio no ano que vem, mas aqui estamos falando de Hud Dreems, seu álbum de beats que tem tudo a ver com Stones Throw (casa de Madlib e J Dilla) e que, não por acaso, lá encontrou seu lar. O disco é exatamente aquilo que se esperava (eu, pelo menos): vinte e seis beats curtinhos, que misturam hip-hop com soul, jazz, spoken word, glitch, com baixos pesados, colagens e até uma pegada bem meio dos anos 90, quando tudo era mais legal. Sim, o Knxwledge ainda precisa sair um pouco da cola de Dilla e Madlib. Mas, por Hud Dreems, percebe-se que talento e capacidade ele tem de sobra para tanto. (Flávio Seixlack)

arca-mutant-cover-art

21

Arca
Mutant

Sei que muita gente – inclusive eu – vem acompanhando o trabalho do Arca pelo menos desde 2013 e, meus amigos, parece que a cada lançamento a coisa melhora um pouquinho. Ou, pelo menos, toma outros rumos, por vezes mais interessantes, densos e profundos. Mutant é talvez o melhor disco lançado pelo venezuelano até então, embora muitos possam discordar ao afirmar que trata-se de um álbum longo demais e imaginativo de menos. Pra mim, esse é um punhados de canções para se ouvir com fone de ouvido em madrugadas solitárias, construindo universos gelados e belos nos pensamentos, onde o futuro parece um tanto quanto bizarro e pouco convidativo. Ainda assim, algo me arrasta e me suga pra lá como um homem faminto vai atrás de um prato de comida no fim do dia. Vazio, estranho, complicado, duro e frio: esse é o mundo criado pelo Arca em 2015 e eu não poderia estar mais grato. (Flávio Seixlack)

CS2950229-02A-BIG

20

Erykah Badu
But You Caint Use My Phone

Só alguém como Erykah Badu conseguiria pegar um dos hits do ano (“Hotline Bling”), melhorá-lo consideravelmente (“Cel U Lar Device”) e ainda fazer uma mixtape inteira livremente baseada na canção e em como estamos todos viciados em nossos malditos telefones celulares. E é engraçado como parece tão fácil e simples pra ela, como se o esforço descomunal de tantos para entregar meia dúzia de faixas fosse como um estalar de dedos para a rainha. Os highlights são muitos: a faixa de entrada, por exemplo, é magnífica desde os primeiros segundos até sua explosão soul lá pro final. “Phone Down” e “I’ll Call You Back” são dois hits instantâneos; o uso do sample de “Mr. Telephone Man”, clássico esquecido do New Edition, é brilhante; por fim, a deliciosa “Hello”, com um verso inesquecível de Andre 3000, seu ex, fecha a mixtape de forma surreal. Imagine só se ela tivesse entrado pra valer em estúdio pra gravar um disco novo. (Flávio Seixlack)

CS2845177-02A-BIG

19

Sons of Kemet
Lest We Forget What We Came Here To Do

Direto do Reino Unido vem o Sons of Kemet, e seu segundo disco Lest We Forget What We Came Here To Do, embora pouco citado por aí nesse ano, é um presente requintado para todos aqueles que amam o jazz espiritual de pegada africana. O saxofone é o instrumento de destaque aqui, mas também vale a pena voltar seus ouvidos para as batucadas poderosas e grandiosas que acompanham tudo. Lest We Forget What We Came Here To Do é sempre potente e nervoso, quase festivo, para ser ouvido em volume alto e ganhar um replay na sequência. Um dos mais belos trabalhos de jazz de 2015. (Flávio Seixlack)

b91c652ff948fbfa4ec34ee7bf93186c1f79d260

18

Grimes
Art Angels

Eu já não sei mais o que pensar da Grimes. Melhor: eu não quero pensar mais nada. Faça o que quiser, minha querida, o que tiver que fazer, siga o caminho que você escolher, por mais louco que ele possa parecer, e eu estarei lá. Nós nos encontraremos de algum jeito na outra ponta. Visions (2012) é um excelente disco, cheio de hits e momentos que jamais vou esquecer, mas Art Angels é outra coisa. Art Angels é o tumblr em formato musical, como eu e um amigo chegamos à conclusão outro dia. Art Angels é como a música pop deveria ser se o universo fosse um lugar menos feio e imundo. Art Angels é a Grimes voltando à adolescência e deixando bem claro que todos nós também podemos ser adolescentes outra vez. Art Angels é o mais puro conceito da impermanência budista ao longo de 49 minutos. É chegada a hora de botar minha roupa mais colorida, de tingir meus cabelos e sair pelas ruas dançando com uma garrafa de shochu debaixo dos braços e o snapchat na mão para documentar tudo. Foda-se o amanhã, foda-se o amanhã. (Flávio Seixlack)

ryleywalker-primrosegreen

17

Ryley Walker
Primrose Green

Chegar tão perto de Van Morrison da época de Astral Weeks não é um trabalho para qualquer um. Não que Primrose Green seja espetacular e perfeito como Astral Weeks é, mas Ryley Walker consegue juntar maravilhosamente bem o rock e o folk dos anos 60 com aquela levada mais jazz no dedilhar do seu violão e com a ajuda de sua ótima banda. Um segundo disco muito bonito e que sempre se mantém austero, ereto e digno. (Denis Fujito)

25932

16

Floating Points
Elaenia

Com Elaenia, o Floating Points – projeto do produtor britânico Sam Shepherd – nos mostrou em 2015 como a eletrônica pode dar as mãos para o jazz e até para o soul obtendo resultados bem interessantes e orgânicos. Em meio a tantos álbuns sonoramente confusos dessa lista, é bom ter algo para relaxar sem grandes preocupações – embora, por outro lado, também vale o esforço de prestar atenção em tudo o que está acontecendo. Ouvindo Elaenia ao longo do ano, muitas vezes me esqueci de que tratava-se de um trabalho de música eletrônica, e isso por si só já conta muitos pontos por aqui. É verdade que o Floating Points às vezes soa como muita coisa que eu gosto (Tortoise, Boards of Canada, Caribou…), mas ao mesmo tempo esse é um disco de personalidade própria e que caminha com as próprias pernas. (Flávio Seixlack)

new-order_music-complete

15

New Order
Music Complete

Não é de hoje que o New Order mostra que sabe se reinventar. A própria criação do grupo é uma das maiores reinvenções da música pop de toda a história, pois a lenda de Ian Curtis será contada por toda a eternidade, pode apostar. Mas acho que ninguém esperava que cerca de 35 anos depois e sem um dos seus fundadores e compositores, Peter Hook, o New Order ainda seria capaz de produzir canções tão deliciosamente revigorantes. Music Complete, como foi Get Ready catorze anos atrás, é a prova cabal de que só o New Order consegue fazer música como New Order. Com uma ousadia que não se ouviu desde Technique, de 1989, com músicas pesadas, eletrônicas, com Iggy Pop falando livremente e com os refrões clichés de Bernard Summer. Music Complete é nostalgia da boa e é música fresquinha e dançante até para quem nunca ouviu falar de New Order. (Denis Fujito)

48b25b32

14

Panda Bear
Panda Bear Meets The Grim Reaper

A cada novo disco do Panda Bear surge uma nova oportunidade de colocarmos os fones de ouvido e entrar numa viagem agradabilíssima por terras frias, mas de clima ameno. A solidão é inevitável, pois a sensação sempre é que Noah gravou todas as suas canções num porão com seu gravador Gradiente cantando num microfone colorido. As melodias são sempre estranhas, difíceis de cantarolar, e a música vai ganhando diversas formas sem muito padrão ou consistência, cada faixa apenas cresce como uma gosma colorida, como uma nuvem abaixo do pico da montanha, como um polígono no protetor de tela do Windows 95. Panda Bear Meets The Grim Reaper é o tipo de disco que nos acompanha nos nossos passeios mais solitários, difíceis, e consegue deixar no final aquele gostinho doce da tranquilidade de estarmos sozinhos. (Denis Fujito)

Choose-Your-Weapon-Hiatus-Kaiyote-Large

13

Hiatus Kaiyote
Choose Your Weapon

Choose Your Weapon é a continuidade daquilo que o grupo Hiatus Kaiyote, da Austrália, já havia feito com louvor em Tawk Tomahawk no ano de 2012. Misturando outra vez neo soul, R&B, um pouco de jazz e até um tiquinho de funk, a banda fez com que voltássemos nossa atenção para o país da Oceania em busca dessa mistura de gêneros que tanto gostamos. São diversos os sentimentos que sinto sempre que ouço Choose Your Weapon mas, no geral, é um relaxamento total que deixa meu corpo macio e flutuante. É fato que o disco poderia ter sido um pouco mais curto para seu próprio bem, embora não dê pra reclamar muito quando temos tantas boas canções pra ouvir. Mais do que a voz maravilhosa de Nai Palm, me surpreende o quão afiada está a banda e quão precisa está a produção. (Flávio Seixlack)

Destroyer_-_Poison_Season_album_cover

12

Destroyer
Poison Season

O bonito é que Dan Bejar, o Destroyer, é muito mais melancólico que o Sufjan Stevens, para falar do que se destacou em 2015, mas ele é daqueles que se arrastam pela noite, sério, taciturno, descabelado, falando loucuras sozinho, loucuras em espanhol às vezes, arrastando a calça no chão e usando sua jaqueta surrada. Em Poison Season, Dan caminha por Nova York emulando um Sinatra sem voz enquanto imagina as linhas de metais que o acompanhariam em seus devaneios. Dan Bejar é grandioso e ele não poupa ninguém para conseguir o arranjo que gostaria para sonorizar as suas derrotas. Poison Season é a maior vitória de um derrotado em 2015. (Denis Fujito)

“Baby, it’s dumb
Look what I’ve become
Scum
A relic
A satellite

I was born bright
Now I’m dark as a well
A kite washed up on the shoreline
It’s hell down here, it’s hell”

news-14-11-matana-roberts

11

Matana Roberts
Coin Coin Chapter Three: River Run Thee

Coin Coin Chapter Three: River Run Thee é o lançamento de Matana Roberts que possui menos barreiras musicais. Jazz, blues, spoken word, folk, eletrônico, free jazz, não sei bem. Por isso, esse é o álbum que mais dá liberdade para Matana, primeiro, narrar alguns contos históricos sobre escravidão como se trabalhasse com seu saxofone. Ela fala, canta, acelera, sussurra e diversifica tanto com sua voz que o disco começa épico com “All Is Written” e se mantém hipnotizante até o final, tudo guiado pela voz de Matana. Liberdade total para ela, segundo, mostrar o seu saxofone quando ela bem entender com linhas mais melódicas, apenas acompanhando a voz ou totalmente livres e destacadas do restante. Impossível não visualizar Matana andando pelo palco quadrado do CCSP e sentir toda a força que emana de sua performance. Coin Coin Chapter Three é o disco que melhor traduz, até o momento, o que essa mulher é capaz de transmitir ao vivo e por isso ele é um dos mais potentes do ano. (Denis Fujito)

albums-vietcong1-0115

10

Viet Cong
Viet Cong

O post punk de um lado, o barulho, o obscuro, a tensão e o estranho no meio, e o pop do outro lado. Um caminho já percorrido tantas e tantas vezes, mas que ganha um fôlego surpreendente nesse que é o disco de estreia do Viet Cong. O pessoal do Women, metade do Viet Cong, continua mostrando como extrair o máximo de ferramentas tão rudimentares como guitarras, baixo e um kit de baterias para retratar os lugares extremos por onde tem passeado. (Denis Fujito)

SOPHIE-PRODUCT

9

SOPHIE
PRODUCT

2015 foi o ano em a PC Music, esse selo/gênero bizarro que lança/faz música eletrônica com grande influência dos anos 90 e com produções tão redondinhas que nos fazem molhar nossas calças e encher nossas cuecas de “chantilly”, mostrou finalmente a que veio. Entre as várias pérolas, capas, singles e clipes maravilhosos, também teve gente ligeiramente de fora da turma fazendo música com a mesma pegada, e eu diria que PRODUCT, que compila todos os sons lançados pela SOPHIE (que na verdade é um cara chamado Samuel Long) ao longo de 2015, é o disco que merece maior destaque. Sim, a produção é bem pop mas, ao mesmo tempo, bastante vanguardista e torta. O que parece doce feito chiclete de tutti-frutti muitas vezes está mais para um pesadelo do que qualquer outra coisa. E é por isso que SOPHIE e sua caixinha de delícias chamada PRODUCT merecem esse lugar tão importante na nossa lista. Coisa mais deliciosa do papai. (Flávio Seixlack)

d18fc45e9eb04497e05caad41a5c8fb4_copyrightLLN

8

Chassol
Big Sun

Como descrever a beleza de Big Sun? Em primeiro lugar, boa parte dela mora no conceito do trabalho todo: o francês Cristophe Chassol viajou até a ilha de Martinica, no Caribe, para fazer gravações aletórias de sons da natureza, de pássaros, das ruas, de pessoas conversando e cantando para depois reunir o material em estúdio e construir canções pesadas sonorizando tudo com instrumentos de verdade. Difícil explicar, mas é realmente delicioso ouvir essas impecáveis colagens em cima de bases lindas de downtempo e nu jazz, perfeitamente produzidas para encherem seus ouvidos de prazer intenso. Esse é, aliás, o terceiro e último capítulo da trilogia de mesmo conceito. Os outros dois foram feitos a partir de visitas e registros sonoros de Nova Orleans e Índia. Big Sun é um disco maravilhoso porque mostra como, muitas vezes sem saber ou perceber, temos uma memória sonora muito forte que nos acompanha por onde quer que andemos, que os sons de um lugar são tão importantes quanto as imagens e cheiros dali. Pra mim, pelo menos, certamente são. (Flávio Seixlack)

jim-orourke-simple-songs

7

Jim O’Rourke
Simple Songs

É meio errado lembrar do Jim O’Rourke pelos tempos de Eureka, Insignificance e Bad Timing. É errado porque, em termos gerais, o volume de sua carreira é muito mais experimental do que pop. É errado, mas é como nós lembramos dele aqui no Suppaduppa e como gostamos de lembrar. Por isso, Simple Songs é exatamente o álbum que estávamos esperando há anos e que achávamos que nunca mais ouviríamos. Pop refinado como fazia Burt Bacharach nos tempos dourados, bem gravado e produzido como A Ghost Is Born, do Wilco, bem tocado e finalizado e composto e executado como tudo o que ele já fez. Jim O’Rourke pode estar há anos no Japão se envolvendo com a cena local de jazz e rock cabeçudo, enchendo a cara de sakê e deixando sua barba crescer sem se importar com o que acontece do lado de cá, mas em 2015 ele fez um dos mais singelos, belos e ocidentais álbuns dos últimos tempos. (Flávio Seixlack)

4425c018

6

D’Angelo & The Vanguard
Black Messiah

Cerca de 14 anos sumido para um cara que era ao mesmo tempo a grande estrela do R&B e um dos maiores sex symbols do fim dos anos 90 é muito tempo, é muita coisa. O tempo em si traz muita expectativa em cima de uma só pessoa, mas Black Messiah consegue superar todas que tínhamos em cima de D’Angelo. O funk à Sly e Funkadelic é pulsante do começo ao fim, ele claramente continua bebendo das inesgotáveis fontes chamadas Marvin Gaye (“Till It’s Done (Tutu)”) e Stevie Wonder (“Suggah Daddy”) e ainda assim consegue se manter mais atual do que nunca. Claro que a carga política do álbum ajuda, mas é nos falsetos de D’Angelo e na precisão de sua banda, a Vanguard, que está o segredo do sucesso. O R&B não soa tão velho e novo, tão politizado e sexy e tão preto assim desde que escutamos ao D’Angelo pela última vez. Não sei em que época vive D’Angelo, mas o seu timing é sempre perfeito. (Denis Fujito)

Joanna_Newsom_-_Divers

5

Joanna Newsom
Divers

Divers é um disco difícil, o mais denso e complexo dos quatro lançados por Joanna Newsom. Ele não tem a simplicidade folk do primeiro, as belas melodias das longas faixas do segundo ou a novidade da banda completa e com tanto destaque quanto a sua harpa do terceiro. Divers é poucas vezes melódico, é muito cantado, é muitas vezes duro e de ritmo estranho. Divers é mais um disco complexo nos arranjos, nas histórias e nas sensações. Um disco de uma mulher totalmente no controle por cada uma das onze faixas, mas que ainda é tratada com condescendência. Uma artista impossível de se comparar pelo o que ela é capaz música e liricamente, mas também pela simples presença. O show que Joanna fez em São Paulo sozinha com sua harpa num Sesc em completo silêncio foi hipnotizante e uma das performances mais bonita que vi e verei em toda a minha vida, mas essa Joanna que vem liderando a sua própria banda desde então é apenas uma mulher em total controle do seu papel, do seu ambiente. Divers é, por isso, um tanto frio, mas Joanna consegue, de novo, fazer a mágica e a beleza de sua arte transbordar. (Denis Fujito)

1ecf5d3c71797a464ddbff245594c523e8fed7f3

4

The Internet
Ego Death

Ego Death é o melhor disco de soul lançado em 2015. Enquanto Frank Ocean prepara seu próximo álbum e os demais moleques do Odd Future ficam por aí zoando/tretando adoidado com todo mundo/uns com os outros, o The Internet parece ter se trancado no estúdio e reunido todas as forças e energias para fazer seu mais focado e surpreendente trabalho até então. Desde o primeiro segundo, tudo se encaixa perfeitamente feito sexo gostoso numa tarde de domingo: a voz de Syd tha Kid cai como uma luva em todas as bases executadas com perfeição pelos jovens integrantes que ficam ao fundo. Tudo com grande convicção e segurança. Além disso, Ego Death tem as melhores linhas de baixo do ano, e os teclados sutis e as baterias poderosas me fazem crer que essa turma ainda vai lançar uma porrada de discos maravilhosas nos próximos anos. Mas, por enquanto, Ego Death é mais do que suficiente para me fazer dançar sem roupa madrugada adentro até o ano acabar. (Flávio Seixlack)

R-7014389-1431704816-1655.jpeg

3

Kamasi Washington
The Epic

Um disco que cujo título não é mero acaso. Assim é The Epic, um dos maiores, melhores e mais surpreendentes álbuns de jazz dos últimos anos. Kamasi Washington, tocador de um sax de respeito, de um saxofone capaz de preencher sozinho um galpão com mais de mil metros quadrados, realmente fez um trabalho para estar entre os grandes do gênero. Sem forçar a barra, The Epic, esse álbum triplo, tem um pouco de tudo aquilo que me interessa no jazz: free jazz, jazz espiritual, pós-bop, soul jazz e até jazz vocal… Sua duração de quase três horas logo deixa claro: não se trata de um trabalho fácil de ouvir, de fácil absorção. Kamasi fez algo denso, que demanda constantes revisitações para conseguir adentrar sob a pela. Uma vez lá, prepare-se para deixar sua alma fluir e vagar para fora de seu corpo em busca de outras camadas entre a vida e a morte. Não caia na discussão do hype, não se prenda às comparações entre Kamasi e Coltrane, não tente buscar outro disco de jazz tão bom em 2015, especialmente no atual catálogo da Blue Note. The Epic pode não ser totalmente inovador como A Love Supreme, mas dá conta – e muito bem – de tudo aquilo que a que se propõe. Um épico entre os épicos. (Flávio Seixlack)

Sufjan_Stevens_-_Carrie_&_Lowell

2

Sufjan Stevens
Carrie & Lowell

Violão, banjo, um pouco de piano e a morte. Em Carrie & Lowell, Sufjan Stevens não quer exorcizar o passado ou se lamentar pelo que poderia ter sido, a sensação é que ele finalmente encontrou um meio de se comunicar com a sua mãe. A simplicidade musical e as histórias totalmente pessoais mostram um outro lado de Sufjan e fazem com que essa comunicação seja impactante logo de cara e totalmente empática para quem escuta atrás da porta. Por isso desde os primeiros versos de “Death With Dignity” estamos totalmente desarmados e nus. Paralisados pela beleza da coisa toda, pelo eterno silêncio que parece ficar ao fim de cada faixa, pela coragem de Sufjan, pela delicadeza que ele consegue imprimir sem cair em sentimentalismo. Paralisados pela morte, na verdade. Todo o resto se trata de Sufjan com si próprio. (Denis Fujito)

d47a5880

1

Kendrick Lamar
To Pimp A Butterfly

Todas as vezes que eu escuto To Pimp A Butterfly, sinto como se estivesse ouvindo pela milésima vez um álbum clássico de hip-hop dos anos 90. Pois o terceiro disco do rapper Kendrick Lamar parece já ter nascido como essa magnitude e peso, um álbum que logo de cara te joga pra cima e te coloca num lugar confortável que você já visitou antes, subindo degraus e degraus e chegando a um altar muito provavelmente acima de qualquer suspeita, de qualquer hype, de qualquer discussão. To Pimp A Butterfly é o disco mais importante de 2015 não só porque seus beats são precisos e sua produção é perfeita, não apenas porque Kendrick Lamar está em seu auge no que diz respeito a flow e rimas, mas porque o álbum é uma bandeira hasteada bem alta no topo da Casa Branca para os negros norte-americanos e, porque não, para todos os demais do mundo inteiro. Independente das participações de peso, como Thundercat, George Clinton, Bilal e Kamasi Washington, a força de tudo mora nas letras afiadas de Kendrick, que por vezes incorpora o moleque pobre de Compton que sofreu pra chegar onde está (“King Kunta”), que em outras ocasiões se mostra um fanfarrão sem vergonha (“For Free?”, “These Walls”) e que, por fim, fala olhando nos olhos de seus irmãos para dar uma indispensável força naquela que é talvez a faixa mais necessária de 2015: “Alright”. Em tempos conturbados de incerteza e confusão mental, é maravilhoso ter um álbum de verdade, tão repleto de significado e importância para se ouvir e se ter por perto a todo momento. (Flávio Seixlack)