10 Discos da K Records

24.01.2017 — Matérias, Música

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A história da K Records, de Calvin Johnson, está totalmente interligada com os principais movimentos underground norte-americano entre a década de 80 e os anos 2000. Ativamente ou nem tanto, a K passou pela história da Dischord (Calvin morou em Washington em sua adolescência quando conheceu Ian MacKaye e viu o movimento hardcore crescer e também lançou alguns singles em uma parceria entre as duas gravadoras chamada DisKord), Sub Pop (Calvin teve um programa de rádio na KAOS com Bruce Pavitt, fundador da Sub Pop) ou Kill Rock Stars (Calvin ajudou Slim Moon a lançar a compilação que dá nome a sua gravadora). Foi essencial para o surgimento e/ou consolidação do riot grrrl (Jean Smith e o seu Mecca Normal foi lançado pela K e Calvin sempre foi muito próximo de Stella Marrs, Tobi Vail e outras artistas de Olympia), grunge (apesar de não ter prestado atenção no Nirvana, promoveu diversos shows com bandas da cena de Seattle) e twee (foi responsável por 3 lançamentos do Heavenly, Tiger Trap, Marine Girls, etc). A K Records foi um verdadeiro pilar criativo e revolucionário para o movimento independente para pessoas de todos os cantos da América e do mundo e essa história é bem relatada no livro Love Rock Revolution, de Mark Baumgarten.

Infelizmente, o que não fica bem explicado é o lado não criativo da história, as complicações financeiras de ter uma empresa pequena num mercado que sofreu muito, principalmente nos últimos vinte anos, com a internet e a troca gratuita de arquivos. Por ter lançado ou impulsionado artistas que estourariam depois, como Modest Mouse, Beck, The Gossip, Kimya Dawson, Microphones, entre tantos outros, não foram raras as vezes que a K viu o dinheiro passando pelo seu caixa e o que muitos dizem é que houve, sim, muita negligência e não só desconhecimento de negócio para chegar a dívidas na casa dos US$ 200 mil, como é o caso com Kimya, que veio a público a respeito.

Uma mancha realmente triste na história da gravadora, mas que nunca será totalmente explicada pelo respeito ou receio que muitos desses artistas continuam tendo pelo o que representa Calvin Johnson. Por isso também o foco desse post é na música que ele nos proporcionou. Escolher 10 discos emblemáticos lançados pela K Records e deixar tantos de lado machuca, mas o intuito é apenas celebrar o amor que esse cara conseguiu espalhar por esses álbuns errantes.

1. Beat Happening — Jamboree (1988)

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Após o apanhado que foi possível fazer para o auto-intitulado disco de estreia, de 1985, o Beat Happening se reuniu com Steve Fisk, amigo que acabara de produzir os dois primeiros lançamentos do Screaming Trees, e gravaram Jamboree. Um salto enorme na qualidade do som, que continuava obviamente lo-fi, mas com uma clareza transformadora. Simplicidade que anima (“Ask Me” e “Cat Walk”) e melodias renovadoras (“Indian Summer”), mas o grave de Calvin Johnson está mais grave (“Hangman”), o clima é obscuro (“In Between”) e o breve disco acaba antes de entendermos o que acabou de acontecer.

2. Heavenly — Le Jardin De Heavenly (1992)

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A conexão das diversas cenas punk ou underground, chame do que quiser, era tão grande mesmo mundialmente, que rapidamente Calvin fez contatos com gravadoras e entusiastas de fora dos EUA, como a Rough Trade, que tinha um braço em San Francisco, conheceu diversas pessoas na Europa e Reino Unido e foi apresentado à gravadora 53rd & 3rd, fundada por um tal de Stephen “Pastel” McRobbie. Foi assim o primeiro contato com Amelia Fletcher, então vocalista do Talulah Gosh, grupo lançado pela 53rd em meados dos anos 80.

Quando Calvin, em uma de suas viagens ao Reino Unido, conheceu Amelia, seu irmão Matthew e Peter Momtchiloff, o Talulah Gosh já era história e o Heavenly já tinha lançado seu primeiro disco, Heavenly Vs. Satan. Mas se houve tempo para lançar Le Jardin de Heavenly, em 1992, tudo mais do que certo, pois esse álbum pode resumir espiritualmente tudo o que a K Records era no começo dos anos 90. Puro amor em forma de twee refinado.

3. Little Wings — Light Green Leaves (2002)

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A estética e a ideia do Little Wings, de Kyle Field, se encaixam perfeitamente no ideal da K Records, pois desde o fim dos anos 90 e começo dos 00, o grupo já aparecia como uma espécie de Beach Boys em notas menores, com a solidão de Kyle no lugar de múltiplas vozes em harmonia perfeita, gravação extremamente simples e a dedicação total pela canção e apenas ela. Light Green Leaves ainda me surpreende quando o escuto atualmente pelo modo que Kyle se aproxima das coisas, sentimentos e banalidades com total sinceridade e poesia. Uma espécie de Leonard Cohen californiano, sem camisa e cabelo descolorido. Cigarrinho na ponta dos dedos, violão jogado no chão e um caderno com palavras jogadas, desenhos e poesias. O lápis às vezes na orelha, outras perdido no quintal.

Let the fall flood arrive
Let it fill let it rise
Let the grounds and the skies
Be absorbed in our eyes
So go painting the sky
And be invisibly wise
Let the fall flood arrive

4. Built to Spill — The Normal Years (1996)

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Há de se concordar que a compilação The Normal Years, de 1996, está longe de ser um dos discos mais memoráveis do Built to Spill, mas isso só acontece porque a discografia do grupo é irretocável, principalmente os seus lançamentos da década de 90. Mas a importância de Doug Martsch para o universo da K Records faz com que o único álbum do Built to Spill lançado pela gravadora ganhe um destaque merecido. “Car”, “Girl”, o cover de “Some Things Last a Long Time”, de Daniel Johnston e Jad Fair, e “Still Flat” facilmente aparecem como algumas das músicas mais bonitas que a gravadora lançou nos anos 90.

Além disso, o fato de Doug Martsch ser tecnicamente um guitarrista sensacional não o impediu de formar um grupo com o simples Calvin, o Halo Benders, e lançar três ótimos discos em paralelo com os clássicos do Built to Spill. Um membro essencial para a consolidação da gravadora na segunda metade dos anos 90.

5. Supreme Cool Beings — Survival of the Coolest (1982)

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O primeiro lançamento da K Records está longe de ser uma obra prima e, sinceramente, sei que deixei vários discos de fora da lista (KARP, Yume Bitsu, Tiger Trap, Halo Benders, etc) para colocar o Supreme Cool Beings apenas pela história. Gravado em uma sessão na KAOS, rádio universitária onde Calvin Johnson trabalhou por anos desde seus tempos de colégio, e se aproveitando do crescimento do formato fita k7 no underground, entre amigos, ele simplesmente foi atrás de um cara que vendia fitas para gravações de missas e comprou algumas dezenas, pediu para uma amiga fazer cópias da original que pegou da rádio, pediu para outra fazer uma capa e escreveu em cada fita Supreme Cool Beings — Survival of the Coolest. Ao lado, um singelo K dentro de um escudo.

Apesar da inconstância e amadorismo de Survival of the Coolest é totalmente compreensível a vontade de Calvin de espalhar essas músicas por aí. O som é totalmente pós-punk, bem característico do começo dos anos 80, mas essas músicas emanam um humor singelo e uma despretensão que caracterizam a aproximação da banda e da gravadora em relação a quase tudo.

6. Mirah — You Think It’s Like This But Really It’s Like This (2000)

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Vejo muito da Liz Phair na arte solitária da Mirah. Não em termos de atitude, mas nas melodias e construções de climas, ambientes e histórias. Cada música sua tem uma vida e força próprias e essa independência é notável no seu disco de estreia, You Think It’s Like This But Really It’s Like This. Existe aquela sensação de que tudo pode acontecer de uma faixa para outra, tanto lírica (Mirah) quanto musicalmente (Phil Elverum), e essa expectativa cresce e cresce e incrivelmente ela não decepciona nunca.

O disco é para cima (“Be Still My Heart” e “Pollen”), complexo nas melodias (“La Familia” e “Words Cannot Describe”), completo em sua simplicidade (“Person Person” e “Be Still My Heart”), triste (“100 Knives”) e apoteótico (“Sweepstakes Prize” e “Of Pressure”). Um dos lançamentos mais surpreendentes da gravadora até hoje, que emana uma feminilidade hipnotizante.

7. Lync — These Are Not Fall Colors (1994)

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Em 1994, o emo não era necessariamente uma novidade, com o Sunny Day Real Estate já em cena, o Jawbreaker consolidado e outras inúmeras bandas surgindo nesse período, mas o Lync pode ser facilmente considerado um dos pilares fundamentais e uma das mais influentes bandas para todos os emos e bandas que vieram depois. Tenha certeza disso.

O primeiro e único disco do grupo liderado por Sam Jayne, que posteriormente formou o Love as Laughter, chamado These Are Not Fall Colors, tem diversas cores e tons utilizados pelo Trail of Dead, clima à la Cap‘n Jazz e baixo predominante como ouvimos em todas as bandas da época, mas vem, principalmente, com aquela pureza de pessoas explorando o máximo de seu potencial sem tantas amarras ou referências óbvias que cada uma das dez faixas do álbum se torna um verdadeiro deleite para quem tem uma quedinha por guitarras distorcidas. Um dos discos mais puros que a K já lançou ou lançará.

8. The Blow — Poor Aim: Love Songs (2004)

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Sete músicas em dezessete minutos de um electro pop gostoso e dançante o suficiente e que mostra a evolução em relação aos primeiros discos da dupla composta por Khalea Maricich e Jona Bechtolt, o YACHT. Claro que Paper Television contém alguns dos hits mais pegajosos do ano de 2005, mas Poor Aim: Love Songs, EP lançado um ano antes, parece ter menos medo de ser mais pesado quando precisa e mais funk apenas porque sim e quando a dupla resolve ser pop, eles são matadores. “Hey Boy” e “Come On Petunia” são, sim, mais viciantes que “Pile of Gold” ou “True Affection”.

9. Make-Up — Save Yourself (1999)

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Muito engraçado ver que em uma visita de Calvin Johnson a Washington, Ian MacKaye o leva a um show que a Dischord estava promovendo para apresentar o Ulysses, banda liderada por um tipo chamado Ian Svenonious. A intenção do fundador da Dischord era entender se Calvin não tinha interesse em lançar essa banda desse estranho cara, já que o hardcore misturado com R&B e com membros bem vestidos em cima do palco talvez fosse estranho até para a Dischord, que nunca havia descriminado ninguém. A conversa se transformou num novo selo, a Diskord, justamente a junção das duas gravadoras que lançou o primeiro 7’’ do grupo.

Já como Nation of Ulysses, foram dois lançamentos pela própria Dischord, mas como Make-up, mais 3 pela Dischord e 2 pela K Records. Save Yourself, de 1999, sendo o mais consistente e coeso em termos de disco com todos os conceitos da banda intactos, com o seu R&B realmente bonito e contagiante, a banda totalmente entrosada, muito vazio para Ian cantar, gritar e croonar, como só o verdadeiro sassiest boy in america faria. Uma pedrada de pelúcia difícil de esquecer.

10. The Microphones – The Glow Pt. 2 (2001)

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Às vezes eu acho que It Was Hot, So We Stayed in the Water (2000) é um disco mais potente ou que Don’t Wake Me Up (1999) é mais sensível, mas eu sempre volto para o clássico do Microphones, o The Glow Pt. 2, de 2001, para uma verdadeira dose de vida.

A história de Phil não deixa de ser tão interessante como todas as outras já apontadas acima, pois, tendo crescido em Anacortes, ele teve a sorte de conhecer um lugar, chamado The Business, que era uma mistura de sebo / loja de discos / local de revelação de filmes / sei lá o que onde passava as tardes com os seus amigos. Não só a sorte de ter um lugar desses para ir, descobrir o Sonic Youth ou coisa que o valha, mas de conviver com Bret Lunsford, guitarrista do Beat Happening que havia virado sócio do local um tempo antes, e tê-lo como grande incentivador para absolutamente tudo que ele imaginava fazer. Zines (The Paintbrush, The Blimp), ouvir música, revelar filmes, apenas existir e, após um amigo conseguir equipamentos de som, montar um estúdio onde ele brincava com os botões e barulhos.

Num ambiente desses e depois com livre acesso ao estúdio de Calvin Johnson, o Dub Narcotic Studio, fica fácil entender como Phil se transformou numa espécie de mestre do lo-fi barulhento de estúdio. The Glow Pt. 2 apenas escancara todas as qualidades que transformam Phil num guru misterioso, silencioso e sábio. Cada música e interlúdio do disco abre uma porta escondida no canto de sua mente que te conduz para outro quarto escuro e assim você vai rastejando pela poeira dos seus pensamentos nesse labirinto que se chama mente para chegar a lugar nenhum.

Uma prova final da importância da K Records, que sempre deu abertura à diversidade de seus artistas e liberdade para cada um fazer o que bem entender, inclusive em seu estúdio. Como indica o livro, entender o punk como uma ideia e não como uma atitude. O punk como amor e Calvin sempre foi amor, apesar de todos os pesares de um negócio independente e pequeno. E desse corpo estranho e bonito chamado K, The Glow Pt. 2 sempre será a alma.